Depois de pagar caixa 2 a Kassab, delator diz que obteve negócios no Ministério das Cidades

Depois de pagar caixa 2 a Kassab, delator diz que obteve negócios no Ministério das Cidades

Paulo Cesena, que foi presidente da Odebrecht Transport, confirmou pagamento para ministro, em 2014, para o PSD, e detalhou liberação de crédito de R$ 400 milhões e qualificação de debentures atrelados à Linha 6 do metro em São Paulo, em pasta que era ocupada por atual ministro de Ciências e Tecnologia

Breno Pires, Beatriz Bulla, Fábio Fabrini, Fabio Serapião, Rafael Moraes Moura e Erich Decat, de Brasília, Julia Affonso, Ricardo Brandt, Fausto Macedo e Luiz Vassalo

13 de abril de 2017 | 13h07

O ministro Gilberto Kassab, alvo de delação. FOTO: JF DIORIO/ESTADÃO

O ministro Gilberto Kassab, alvo de delação. FOTO: JF DIORIO/ESTADÃO

O ex-presidente da Odebrecht Transport Paulo Cesena confirmou à força-tarefa da Operação Lava Jato, em sua delação premiada, que o ministro da Ciências, Tecnologia e Comunicação, Gilberto Kassab, recebeu pelo menos R$ 14 milhões para o PSD. O dinheiro seria caixa 2 e pago em 2014, quando o partido fez parte da coligação da chapa presidencial Dilma Rousseff (PT) e Michel Temer (PMDB). O “apoio” resultou, posteriormente, na obtenção de dois negócios no Ministério das Cidades – à época, chefiado por Kassab -, entre eles uma linha de crédito de R$ 400 milhões e na Linha 6 do Metrô, em São Paulo.

“Em 2014, no início do período eleitoral, em uma reunião de rotina com o Benedicto Júnior, na sede da CNO (Construtora Norberto O) no rio de janeiro,no prédio do Botafogo, ele me informou que faria uma alocação gerencial de pagamentos feitos a Gilberto Kassab sob o pretexto de doação eleitoral no valor de R$ 14 milhões”, afirmou Cesena, um dos 78 delatores da Odebrecht.

Kassab é alvo de dois inquéritos abertos com autorização do ministro do Supremo Tribunal Federal *STF) Edson Fachin, relator da Lava Jato.

Num deles, seu nome foi citado por Cesena e pelo ex-chefão do setor de infraestrutura da Odebrecht Benedicto Barbosa da Silva Júnior, que tinha poder para autorizar os pagamentos de propinas do grupo. Segundo BJ, como é conhecido, o valor pago em 2014 ao ministro foi de R$ 17,9 milhões. Ele citou ainda pagamentos em 2008, nas disputa pela prefeitura de São Paulo.

Cesena era subordinado de BJ na estrutura empresarial da Odebrecht.

Novo nome. “Um valor relevante. Ele conversou comigo e disse da seguinte forma: Gilberto Kassab era um político naquele momento que estava tentando se posicionar como alternativa a outras políticos, seja do PT, seja do PMDB, ele estava formatando o PSD, um partido que poderia ser uma via alternativa de influência política bastante relevante”, contou Cesena.

“Ele (BJ) também argumentou que a Odebrecht Transport tinha a parte mais importante de seu faturamento em São Paulo que é o estado de origem de Kassab e que, consequentemente, que faria todo sentido e seria importante para a Odebrecht Transport que houvesse e esse reconhecimento e essa conexão política com Gilberto Kassab.”

Cesena disse que seu chefe o convenceu a “alocar” o pagamento dos R$ 14 milhões no centro de custo da Odebrecht Transport, porque Kassab também “tinha dentro de sua plataforma de política um interesse especial em promover investimentos em mobilidade urbana”.

Os pagamentos, confirmou Cesena, foram feito ao longo de 20013 e 2014.

Partido. Criado em 2011, por Kassab – quando ele era prefeito de São Paulo pelo DEM – e participou de uma eleição presidencial pela primeira vez em 2014. Em 2013, quando já fazia parte do governo Dilma, o ministro teria pedido os recursos, segundo citam os delatores.

BJ, como é conhecido Benedito Junior, “a conversa foi muito específica”. Kassab teria dito: “Júnior estou constituindo um partido, tenho um projeto de partido, o PSD, e gostaria que na próxima eleição você me ajudasse. A ideia é que o partido tenha em torno de 50 a 60 deputados. Tenha quatro ou cinco senadores. Tenha três ou quatro candidatos em Estados importantes para governador. Então precisava que você, diferente do que você me ajudou na prefeitura, conversasse internamente e avaliasse porque você vai ter aqui no seu amigo uma pessoa que conduz um partido expressivo”.

“Eu anui e fizemos pagamentos entre novembro de 2013 e setembro de 2014 em caixa 2, ilícito, feito pelo setor de operações estruturadas da Odebrecht no valor 17,9 milhões de reais. Doutor Kassab sabia que esse dinheiro era de caixa 2 porque era um valor expressivo”, ressaltou o delator.

Boa relação. Com a reeleição de Dilma, Kassab assumiu o Ministério das Cidades, em 2015 – no governo Michel Temer, ele ocupa a pasta da Ciência e Tecnologia.

“Corroborando aquilo que discutimos, que ele (Kassab) era pessoa que teria influência na área de mobilidade urbana. O Ministério das Cidades é a área que aloca recursos nessa área.”

Com Kassab nas Cidades, Cesena disse ter orientado seus executivos a buscarem o governo.

“Orientei minha equipe que buscassem interlocução no Ministério das Cidades para a obtenção de determinadas decisões que eram importantes para nossas concessões. Uma foi o enquadramento de uma debentures de infraestrutura pelo Ministério das Cidades para a concessão da Linha 6 do Metrô de São Paulo”, contou o delator.

Segundo ele, as debentures de infraestrutura têm benefício fiscal e para fazer jus à emitir uma, é preciso que um ministério enquadre e qualifique as debentures.

“No caso específico dessas debentures da Linha 6 foi feito essa solicitação ao Ministério das Cidades e obteve-se o enquadramento.”

Linha de crédito. O delator contou ainda que a Supervias, da Odebrecht, obteve um crédito relacionado ao Ministério das Cidades.

“Também no caso da Supervias, existe uma linha de financiamento chamada Pró Transporte, que também é gerenciada e alocada pelo Ministério das Cidades. A Supervias fez um pleito de R$ 450 milhões de linha de crédito desse Pró Transporte e também foi enquadrado e autorizado pelo ministério, ainda que não tenha saído o dinheiro.”

Cesena disse que desde que assumiu a Odebrecht Transport sabia que teria que bancar caixa 2. “O Júlio me falou, em 2011, logo que eu assumi, de que era prática deo grupo fazer doações e pagamentos indevidos via caixa 2 e que a Transport tinha que entrar no rateio”, explicou Cesena.

COM A PALAVRA, KASSAB

Em nota, o ministro de Ciência, Tecnologia e Comunicações informou que “confia na Justiça e ressalta que não teve acesso oficialmente às informações e que é necessário ter cautela com depoimentos de colaboradores, que não são provas”.

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