Depois da vacina

Depois da vacina

José Renato Nalini*

19 de janeiro de 2021 | 12h00

José Renato Nalini. FOTO: DANIEL TEIXEIRA/ESTADÃO

O assunto hoje é vacina. Com razão. O ano de 2020 foi um pesadelo. De repente, todos apavorados, aterrorizados com a chegada de um inimigo invisível. Mas poderoso. Insidioso, misterioso e letal.

A polarização em que o Brasil mergulhou nos últimos anos deixa alguns fanáticos incapazes de reconhecer o protagonismo de João Doria. O governador arrostou a pandemia, foi transparente, assumiu o compromisso de enfrentar a exposição e confiou na ciência. Ponto para ele. Que reverte para todos nós.

Suponha-se que a vacinação transcorra nos padrões de eficiência que o nível bandeirante sabe conferir às suas iniciativas. O dia seguinte à imunização do povo, é o momento de enfrentar questões negligenciadas e nas quais o Brasil se mostra perigosamente frágil.

Todas as questões de interesse do porvir residem na educação de qualidade. Algo que se procura, mas dificilmente se alcança. Porque o ensino permanece estagnado, numa superada concepção do que seja aprender.

Transmitir informações já não incumbe à escola. Esta é o espaço em que se estimulará o desafio de filtrar os dados, excessivamente inflados na sociedade comunicacional acelerada em que o mundo se transformou.

Educar, no século 21, é focar as habilidades essenciais que o advento da Quarta Revolução Industrial impôs à humanidade.

É evidente que o letramento tradicional continuará a reclamar investimentos. Alfabetizar é tarefa indeclinável. Assim como habilitar o alunado a ter familiaridade com matemática e números. Mostrando a ele que isso é essencial para a vida. Mas também perseguir o letramento científico, o letramento em informação e comunicação, a alfabetização financeira, mais a alfabetização ética, cultural e cívica.

Em seguida, incentivar as competências que não podem faltar e que precisam ser desenvolvidas em todos os espaços, mas, notadamente, dentro da escola. Pensamento crítico e solução de problemas; criatividade; comunicação; colaboração; empatia; sensibilidade; capacidade de responder ao inesperado. Respeito ao próximo.

O sofrido planeta necessita de gerações providas de um caráter que parece esmaecer e empalidecer com o passar dos anos. É urgente restaurar qualidades em desuso, como hombridade, modéstia, humildade, amor ao ambiente e ao semelhante.

Também será necessário robustecer qualidades de caráter como curiosidade, pois as surpresas prevalecem e quem permanecer estático nem perceberá como as coisas passarão por ele, sem que delas tenha noção. Iniciativa, para responder aos reptos de forma oportuna e conveniente. Persistência, pois a conquista de bens da vida será cada vez mais dificultada, já que os valores se transformam, perdem força e chegam a desaparecer.

Adaptabilidade, um atributo sem o qual não se conseguirá o equilíbrio na velocíssima e atroz mutação por que passam a Terra e seus habitantes. Liderança, para conseguir o reconhecimento de iniciativas salvíficas e propiciadoras de uma continuidade saudável do convívio. Consciência cultural e social, pois o individualismo é o grande lema e, com isso, crescerá a multidiversidade e os padrões de expectativa de comportamento acompanharão essa trajetória.

A cada dia, desaparecem profissões tradicionais. Muitas outras tendem a sumir também. É óbvio que surgem demandas. Porém, a maior parte delas, requer qualificação que as escolas não fornecem.

Por isso é que o ensino da programação tem de entrar no currículo de todas as escolas, mormente as públicas. Todo aluno desta geração é nativo digital. Tem facilidade no manuseio dos mobiles. Sabe o que é um app, conhece e gosta de games, interessa-se por robótica. É um portador de um chip mental. Ele sabe que o mundo em que ele for adulto precisará de alguém expert em inteligência artificial, machine learning, internet das coisas, especialista em bigdata, blockchain e realidade aumentada. Talvez não haja mais papel moeda, nem cartão de crédito, pois o bitcoin terá uso corrente.

O globo precisará de designer de gamificação, de arquitetos digitais, de avatar manager, de designer com experiência em realidade virtual, especialista em design 3D, especialista em data hostage, designer computer personalitu, programador pessoal, officer watch neighborhood, condutor remoto de drone, drone dispatcher, energy storage, body part engineer, nano medic, neuro-implant techician, agricultor orgânico, telecirurgião, navegador healthcare, nostalgista, o que cuida de memória aumentada, designer para crianças, especialista em cuidados remotos de saúde, cirurgião para amnésia, terapia para estágio terminal, auditor de ecossistema, fazendeiro vertical, controlador climático, além de muitas outras sofisticadas especialidades.

Os próximos anos precisarão de desenvolvedores dessas novas atividades, com eixo na sustentabilidade, governança e convívio social. O célebre e cada vez mais necessário ESG. Será que o Brasil está pensando seriamente nisso e já adotou as estratégias necessárias para recuperar seu lugar no concerto das Nações desenvolvidas?

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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