Depois da tempestade…

Hélio Ferraz*

09 de maio de 2020 | 14h00

A resposta terá que vir com a aceleração da atividade econômica. É da natureza destas situações, reagir com força. As autoridades econômicas entendem perfeitamente que o receituário recomendável é o oposto ao do período imediatamente anterior.

O ministro da Economia não é um cristão novo do Liberalismo. A hora é de um novo New Deal, que adotou:

  • desvalorização do dólar para tornar as exportações mais competitivas;
  • empréstimos aos bancos para evitar falências no sistema financeiro;
  • criação do sistema de seguridade social, com destaque para o seguro desemprego e a Lei de Seguridade de 1935;
  • direito de organização sindical;
  • estímulo à produção agrícola;
  • construção de uma grande quantidade de obras públicas, com destaque às hidrelétricas e rodovias.

Podemos, alternativamente, chamar de Novo Plano Marshall.Acreditar nestes remédios, é ser liberal, pois sê-lo não significa desacreditar que a atividade privada é a resposta mais produtiva e capaz de atender as demandas econômico/sociais e, ainda que, “There is no such thing as “Public Money”, there is only “tax-payers Money”.

Lembramos: o “Imposto de Renda Negativo”(um bolsa Família Anglo Saxão) teve como padrinho Milton Friedman.

Assim, além de supervisionar a atividade econômica e a própria livre concorrência, cabe ao Governo tratar Pandemias, ou Epidemias econômicas, que necessitam de medicação, diante da doença, da infecção, que pode acometer qualquer organismo vivo e debilitar sua saúde, seja este econômico, ou físico.

Claro, sem perder de vista, bem entendido, que sejam remédios, drogas, com efeitos colaterais e, por isso, precisam ser dosados para não se converterem em veneno.

A boa saúde física, igualmente, ninguém duvida, hoje em dia, vem da boa alimentação, da atividade física, do sol, do ar puro, mas diante de uma infecção o quadro se torna mais complicado.

A economia, igualmente, quando infectada, se torna debilitada, e pode precisar de uma hidroxicloroquina, um respirador, e uma UTI, no plano econômico, fiscal, ou em ambos.

Atravessada a tormenta, emerge, definitivamente, radicalizada a digitalização da economia, a nuvem, a vídeo conferência, a consulta virtual, processos e julgamentos on-line, a robotização, e por aí vai.

Veremos que a economia entrou em novo ritmo, nova velocidade, o progresso é intrínseco. Assim, no Renascimento, a carta de crédito, a bússola, ou na Revolução Industrial, a máquina a vapor, os trens, o tear aceleraram, então, a velocidade das transações e de toda a economia.

O crescimento, agora talvez, passe a conhecer uma expansão geométrica, em lugar de aritmética.

A automação, em lugar de substituir o homem, pode leva-lo a entender Nietzsche: “só como fenômeno estético a vida parece justificada”.

Nossos empregos poderão se concentrar no soft business, na informação, na pesquisa científica, turismo, na cultura, na arte, na educação, no esporte, no laser, em um processo, é claro.

Enfim, vamos refletir mais e nos movimentar menos.

Aos robôs o “dirty and hard job”, estrito senso. Vejamos que economias desenvolvidas há muito, não têm lugar para o nosso, pós-escravagista, emprego doméstico.

Ademais, o problema econômico estrutural é, sempre, a escassez, não a abundância, em geral benéfica, pois além de baratear, obrigatoriamente, demanda consumidores.

Acredito que sairemos mais solidários, menos desiguais, mais humanistas, e não é uma “Utopia”, a ilha que não existe, …. não, mesmo!

Afinal, durante o isolamento os economistas, sociólogos, políticos e os cidadãos tiveram tempo, até, de ouvir Raul Seixas:

“Sonho que se sonha junto é realidade”.

*Hélio Ferraz, vice-presidente da Associação Comercial do Rio de Janeiro (ACRJ), administrador e mediador judicial

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