Denorex

Denorex

Fernando Goldsztein*

09 de maio de 2022 | 10h30

Fernando Goldsztein. FOTO: ARQUIVO PESSOAL

Quem já está na faixa dos quarenta e muitos anos talvez lembre do Denorex, o famoso shampoo anti-caspa lançado nos anos oitenta. O comercial na TV era muito criativo e tentava mostrar que o Denorex até parecia ser um remédio (para curar a caspa), mas não era. O famoso bordão “parece mas não é” ficou, então, eternizado. Existem vários slogans que caíram nas graças dos consumidores: “não é uma Brastemp”; “o primeiro Valisere a gente nunca esquece”; “as 1001 utilidades do Bombril” entre tantos outros.

Entretanto, nem tudo são rosas neste mundo da comunicação. Volta e meia, acontecem alguns percalços como a recente polêmica dos hambúrgueres do Mac Donalds e Burger King. Descobriu-se, da pior forma possível, que não havia picanha no Mac Picanha e que não havia costela no Whooper Costela. A notícia se espalhou pelas redes rapidamente. Pudera, com quase duas mil lojas no país, estas empresas investem massivamente em propaganda. Portanto, nada mais natural que suas ações, positivas ou negativas, tenham grande repercussão.

Não escrevo este texto com o objetivo de crucificar ninguém. Todos podemos cometer erros. E este  foi, de fato, importante. Oferecer um produto e entregar outro não fere somente o Código de Defesa do Consumidor ou o Conselho Nacional de Autorregulação Publicitaria (CONAR). Fere também o bom senso, e isso tem consequências. Fiz uma pequena enquete referente ao caso do Mac Picanha e constatei que 90% das pessoas sabiam do ocorrido; 50% achavam que os hambúrgueres eram mesmo feitos de carne de picanha e, por último mas não menos importante, 45% disseram que a sua percepção da marca Mac Donalds foi impactada negativamente.

É evidente que estas empresas possuem competentes departamentos de marketing. Como puderam, então, cometer erro tão primário? Como puderam colocar em risco a reputação das suas companhias, que é exatamente o seu ativo mais precioso? Ingenuidade? Prepotência? Talvez. Mas, na minha opinião, essa atitude se explica com uma única palavra: leniência. Não obstante termos leis de defesa do consumidor abundantes e PROCONs atuantes, o espírito que reina no Brasil é o da impunidade e da leniência.

Este clima do “não vai dar em nada” é o que acaba nos contaminando em maior ou menor grau. Tanto que, neste caso, marqueteiros experientes, não necessariamente mal intencionados, acabaram “avançando o sinal”. Pergunte se eles fariam uma campanha como esta nos Estados Unidos? É claro que não.

Portanto, não há dúvidas de que somos um país demasiadamente tolerante. Toleramos privilégios escorchantes no funcionalismo público; toleramos a não privatização das estatais; toleramos a não realização das reformas essenciais para sanear as contas públicas; toleramos o segundo congresso mais caro do planeta; toleramos orçamentos secretos; toleramos a corrupção desenfreada.

Enquanto não acordarmos como país, não mudaremos esta triste realidade. Que neste ano eleitoral, consigamos não eleger, e nem mesmo reeleger, os candidatos “Denorex”. Isto é, aqueles candidatos que aparentam estar preocupados com o Brasil mas, na realidade, estão preocupados é consigo mesmo.

*Fernando Goldsztein, empresário. Fundador, www.mbinitiative.org

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