Demora para cair a ficha

Demora para cair a ficha

José Renato Nalini*

15 de fevereiro de 2022 | 17h40

José Renato Nalini. FOTO: WERTHER SANTANA/ESTADÃO

O mundo precisa abandonar o uso de combustíveis fósseis. Eles envenenam o planeta e vão causar o fim da experiência humana sobre a Terra. Tecnologias de ponta estão disponíveis para inverter a sanha assassina de intensificação do emprego do petróleo e do carvão, substituindo-os por outras energias. Mais limpas, mais verdes, compatíveis com a vida.

Uma sociedade que foi erigida mais em favor do automóvel do que do ser humano, embora apenas nos redutos em que a civilização foi preservada, já mostra sinais de reversão. Não é necessário excepcional perspicácia para perceber que é preciso escolher a vida, em lugar da morte.

Há sinais promissores de que o veículo elétrico substituirá, por necessidade, aquele movido por combustível fóssil. Algumas boas notícias têm sido veiculadas recentemente. Vamos a algumas delas.

A Renault promete lançar quatro modelos 100% elétricos no Brasil, dos quais um deles é a van Master. Ela se afirma a maior protagonista do carro elétrico no Brasil. Também existe a Zoe e a Kangoe. Para economizar energia, a Renault ainda testa um serviço de compartilhamento no Complexo Industrial Ayrton Senna, no Paraná. Formou-se frota única, 25% menor do que o total de veículos da empresa. Os colaboradores podem usar esses veículos no trabalho ou para fins pessoais, vinte e quatro horas por dia em sete dias por semana. O serviço, além da economia, virou fonte de receita.

Por sua vez, a Toyota oferecerá aos usuários, até 2025, opção eletrificada para todos os seus veículos. O compromisso de zerar a emissão de carbono até 2050 está sendo auditado e monitorado. Muito antes disso, daqui a três anos, ela promete um portfolio inteiramente eletrificado. Atenta à exigência do mercado, que procura atender à regulação e oferecer produtos mais tecnológicos, empenha-se porque isso converge com a política de carbono zero.

Nessa direção, a montadora chinesa Great Wail Motor – GWM, investirá dez bilhões de reais no Brasil, para produzir apenas veículos eletrificados. Começa este ano com carros híbridos, uma tecnologia que concilia motor convencional a um outro elétrico. Mas em breve, os carros serão inteiramente elétricos. A empresa adquiriu a fábrica antes pertencente à Mercedes Benz e fabricará também baterias para os veículos elétricos.

É irreversível o caminho pela eletrificação da mobilidade. Os caminhões serão elétricos, porque o uso do diesel por um só caminhão acarreta a emissão de trinta toneladas de gás carbônico por ano. Por isso, o futuro precisará abolir o caminhão a diesel.

Para o ano que vem, o setor de veículos do Itaú Unibanco vai prosseguir rumo à eletrificação. O projeto bike-Itaú deu origem ao VEC – Veículo Elétrico Compartilhado. Projeto que atende primeiramente às empresas, mas que se propõe atender também as pessoas. É uma fórmula de familiarizar o indivíduo com o uso do carro elétrico, ainda uma novidade. As vantagens são evidentes: o veículo é mais sustentável, confortável, seguro e silencioso.

O Brasil é um território em que as coisas boas demoram para acontecer. A mentalidade de sua elite é ainda colonial: vamos nos servir da natureza como um supermercado gratuito, do qual tudo se extrai, nada se repõe. A civilização pensa de forma diversa. É óbvio que deixar, completamente, de se servir dos combustíveis fósseis para os transportes oferece algumas dificuldades. É preciso pensar qual será a matriz energética desses novos veículos elétricos. Conforme a qualidade da energia, o efeito verde, ou de descarbonização, pode ficar comprometido. Mas é uma viagem sem volta. Cerca de dezesseis milhões de veículos elétricos circulam pelo planeta, seis milhões dos quais vendidos em 2021.

Nada obstante a matriz, que pode ser fóssil, o veículo elétrico emite 30% menos carbono do que os convencionais. A China, que tem 60% de sua geração de energia baseada no carvão, faz investimentos bilionários em eólicas e hidrelétricas, para reduzir essa dependência.

Pensando no amanhã, empresas como a Enel-X têm uma área de E-Mobilidade, apenas para planejar a implementação do veículo elétrico no Brasil. A esperança é que a educação dos mais jovens, antenados com o que se passa no mundo, impeça a preponderância das carcaças anquilosadas que continuam a desmatar e não se compenetram de que estão semeando o infortúnio, que um dia os colherá, ou aos seus.

Aqui, demora para cair a ficha, mas um dia ela cai.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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