Democracia sem educação

Democracia sem educação

José Renato Nalini*

28 de março de 2022 | 14h55

José Renato Nalini. FOTO: ALEX SILVA/ESTADÃO

O raquitismo da Democracia deriva da falta de educação de qualidade. Escola não é apenas vacina e vitamina. É oxigênio para essa forma de coordenação dos homens em sociedade.

Não faltam lições. O paulista de Piracicaba Prudente de Morais, quando investiu na “Escola Normal da Praça”, queria um centro disseminador de uma educação republicana, gratuita, laica e democrática. Tivemos educadores como Anísio Teixeira, Fernando de Azevedo e Paulo Freire, os primeiros esquecidos, o último vilipendiado.

Eram estudiosos antenados naquilo que de mais avançado se pensava sobre educação. Nítida a influência de John Dewey na prática dos que pretenderam prover o Brasil de uma escola consequente com as urgências nacionais.

O americano John Dewey (1859-1952), é considerado vulto proeminente no pragmatismo do século 20, mas a sua contribuição maior está na obra sobre educação. Viveu noventa e três anos e assistiu a duas Guerras Mundiais, o que robusteceu sua crença na escola – em sentido lato – para evitar a violência. Contribuiu para isso a sua origem. Pertencia à classe-média americana, com o pai pequeno comerciante e a mãe educadora, como eram todas as mães há algumas décadas, até no Brasil. Foi a mãe que o tornou contumaz leitor e ávido por conhecimento. Sem ela, não teria chegado à Universidade.

Uma educação à moda europeia, que infelizmente não vingou no Brasil, ofereceu a ele a prática rotineira das ocupações domésticas. Arrumava sua cama, fazia faxina em casa, lavava e passava roupa. Ajudava a mãe na cozinha. Isso que a classe média brasileira não faz com seus filhos, explica, em boa parte, o machismo e os demais preconceitos, que a muito custo as novas gerações vão domando.

Lúcida, a mãe de Dewey enxergava a educação formal, a escolarização que apenas adestra o educando a decorar informações, como inteiramente desconectada com a realidade. Escola não servia para a vida, como continua a não servir em pleno século 21. Por isso, nutria a convicção de que o mais importante em sua formação, antes de ingressar na Universidade, adquiriu fora da sala de aula. E isso refletiu-se em sua obra. As atividades ocupacionais integram o melhor conceito de educação. Se todas as crianças fossem iniciadas nessas práticas, a sociedade brasileira seria menos violenta, menos desigual, menos preconceituosa.

John Dewey foi professor secundarista na Pensilvânia, por isso a sua autoridade ao falar sobre educação. Muito diferente dos “especialistas” que opinam na mídia, são chamados para debates, vendem vultosas consultorias para um Estado que não tem noção do que seja educação e nunca enfrentaram uma sala de aula. Dewey concluiu a pós-graduação, especializou-se, escreveu, mas nunca se afastou das classes. Manteve contínuo contato com legiões de alunos. Atuou como professor durante cinquenta e cinco anos, aposentando-se em 1939.

Vale a pena ler sua biografia escrita por sua filha, Jane M. Dewey, para que os “pais da matéria” tenham conhecimento do que significa o Magistério e de quais são as obrigações de um educador que pretenda atuar eficazmente em sua época.

Influenciado pelo darwinismo, conferiu enfoque naturalista à sua produção teórica, mas com preocupação eminentemente prática. Foi considerado herdeiro do pragmatismo, abeberando-se das duas fontes originais: Peirce e William James. Mas imprimiu sua formulação própria, aproveitando de Peirce a lógica e de James a preocupação com a educação consistente das novas gerações. Com isso, desenvolveu um pragmatismo pedagógico apto a entrelaçar valores cognitivos, éticos e sociais.

Daí a absorção do “melhorismo”, a imposição de consciência a formar a mocidade à luz do idealismo moral, sempre a indagar se esta é a melhor forma de realizar as atividades, desenvolver iniciativas, tratar com os semelhantes ou se nosso comportamento admite passos ascendentes, rumo a uma talvez utópica perfeição. Esta, por ser inatingível, não pode ocasionar a eliminação da crença na perfectibilidade dos humanos.

Melhor fariam os políticos, em lugar de se dedicarem a orçamentos secretos e a “Fundões”, se voltassem para a leitura de livros de Dewey, como “Teoria da vida moral”, “Como pensamos” e “Democracia e Educação”. Para que o Brasil conte com adultos capazes, a educação formal e informal deve propiciar aos alunos valores sociais como a honestidade, a amabilidade, a perseverança e a lealdade. E aprendessem a priorizar valores estéticos da literatura, da pintura, da música, do cinema e da fotografia. Absorveriam, com naturalidade, o regramento da sustentabilidade de tais valores: seriam éticos, harmônicos e equilibrados. Tudo aquilo que falta hoje à Nação brasileira, imersa em ferrenhos antagonismos, incapaz de obter consensos e inerte perante o caos ambiental, a violência e a fome.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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