Delivery de dignidade

Delivery de dignidade

Renato Meirelles*

24 de agosto de 2021 | 05h00

Renato Meirelles. FOTO: DIVULGAÇÃO

Nos últimos meses, os efeitos da crise que assola o Brasil têm sido matéria de intensos estudos para que possamos entender para qual direção o país caminha. Embora existam divergências, há um ponto comum entre os analistas: a crise é sanitária, é econômica, é política e, acima de tudo, é sem precedentes. Entre os milhões de trabalhadores emaranhados no complexo cenário da pandemia, chamam atenção aqueles que se reinventaram e se apropriaram das oportunidades geradas pela nova economia — com protagonismo dos trabalhadores do delivery de alimentos, que, somados aos demais entregadores de mercadorias, formam um contingente de mais de 700 mil trabalhadores no país.

Para fazer um raio-x da realidade dos profissionais que atuam no delivery de alimentos, o Instituto Locomotiva entrevistou mais de 2500 entregadores em todas as regiões do Brasil, no último mês de fevereiro, em estudo encomendado pelo iFood, a maior plataforma de delivery do país.

A pesquisa revelou que a maioria desses trabalhadores (67%) afirma preferir a atual atividade à que exerceu anteriormente, sobretudo graças à autonomia e à flexibilidade proporcionadas por esse tipo de trabalho. Eles valorizam a liberdade de escolher os dias da semana e os horários em que trabalham (autonomia), e a possibilidade de atuar em mais de um aplicativo (flexibilidade). Nesse cenário, a pesquisa identificou que 7 em cada 10 trabalhadores que têm o delivery de alimentos como sua única fonte de renda afirmam que preferem o atual modelo a ter a carteira assinada. O que aprendemos é que eles não só apreciam não bater cartão, como também sabem como conseguir dinheiro quando a grana não chega no final do mês.

O avanço da tecnologia na intermediação dos negócios é uma realidade sem volta, colocando para a sociedade o desafio de unir essa nova realidade com a segurança desse enorme contingente de profissionais.  Sinal de alerta  ligado  para a discussão sobre o futuro do trabalho na nova economia, e a necessidade de se pensar em uma regulação aos profissionais de plataformas digitais. A também chamada gig economy  tem a tecnologia como cerne e algumas características intrínsecas, como inovação, flexibilidade e facilidade de ingressar no ecossistema de negócios.

Não resta dúvida de que o novo modelo de relação de trabalho já fincou raízes no mercado brasileiro, sobretudo com a ascensão do setor de delivery – serviço considerado essencial na pandemia – e da digitalização da economia. A questão agora é olhar para os trabalhadores que ajudam a girar essa roda.

Garantir dignidade aos entregadores é fator crucial e deve ser levado em conta em debates – plurais e democráticos – entre plataformas, trabalhadores, legisladores, acadêmicos e sociedade civil organizada. Na pauta, não podem faltar temas como proteção social, segurança, bem-estar e patamares mínimos de remuneração. A discussão é mais necessária que nunca. Chegar a um consenso sobre as relações de trabalho na nova economia digital só trará benefícios aos trabalhadores, às empresas, ao nascente ecossistema brasileiro de inovação e à sociedade em geral.

*Renato Meirelles, presidente do Instituto de Pesquisa Locomotiva, fundador do Data Favela e membro do conselho de professores do IBMEC, onde é o titular da Cadeira de Ciências do Consumo e Opinião Pública

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