Delenda São Paulo

Delenda São Paulo

José Renato Nalini*

27 de fevereiro de 2022 | 11h00

José Renato Nalini. FOTO: IARA MORSELLI/ESTADÃO

É paradoxal o status afetivo de São Paulo no coração dos brasileiros. Convicto de que “elogio em boca própria é vitupério”, não preciso enfatizar o que somos e o que representamos. Não só para o Brasil, mas para o mundo. Mas, é preciso reconhecer, humildemente, não agradamos a todos.

A História é permanentemente revista. Nossos bandeirantes eram considerados os alargadores de fronteiras, os que tornaram letra morta o Tratado de Tordesilhas. Os que asseguraram esta imensidão de território, na verdade um continente, que permaneceu coeso enquanto as colônias espanholas se fragmentaram. Hoje, são apontados como violentos caçadores de índios, genocidas, brutos e cruéis.

O Rio, capital da Colônia, do Vice-Reino, do Império e da República, sempre teve suas regalias por hospedar a elite e o poder. Durante a discussão no Parlamento imperial sobre a localização das duas Escolas de Direito que Pedro I queria criar, para formar a burocracia autônoma, desvinculando-se de Coimbra. São Paulo foi execrada: falava péssimo português, era terra provinciana, onde só chovia e cujo povo comia formiga. Foi preciso que Domitila de Castro, a Marquesa de Santos, impusesse a verdade: São Paulo seria o berço ideal para as ciências jurídicas. Sua mocidade não teria os divertimentos da Corte, um atrativo para dispersar a vontade de estudar e aprender.

Em 1932, São Paulo assimilava as mensagens de 1922, de 1924 e de 1930 e exigia uma Constituição democrática. Traído, lutou sozinho contra todas as forças que já se aninhavam, como continua a acontecer, no colo tutelar do governo da União. Os paulistas mostraram sua coragem, determinação, coerência e coesão, pois não foi um movimento restrito aos que pegaram em armas, lutaram e morreram. Foram as famílias paulistas, as mulheres paulistas, as crianças paulistas que sabiam estar em jogo algo muito mais importante do que a batalha cruenta. Era o fundamento democrático de uma sociedade civilizada que corria perigo. Não era maior do que o que agora ronda a Nação.

A partir daí, apesar da proclamação de “vitória moral”, São Paulo paga um preço por haver repudiado a tirania. Foi acusado de separatista. Sua economia consegue carregar o fardo de um coronelato que ainda mantém estruturas de um Estado ineficiente, sugado pelo crescente agigantar-se de cargos, funções e burocracia. O discurso de “locomotiva da nação” não surgiu por acaso. É só comparar a performance bandeirante com a dos demais Estados-membros da Federação.

Uma revanche contra São Paulo, que conclamou a nacionalidade a assumir um protagonismo pelo Estado de direito e pela democracia veio com a sub-representação de seus parlamentares dentro da Câmara Federal. É inadmissível que a Câmara dos Deputados, instância representativa do povo, subestime a importância paulista e emascule sua cidadania. São Paulo tem setenta deputados federais, embora sua população corresponda a praticamente um quarto dos habitantes do Brasil.

Não se discute essa perversa diminuição da importância paulista junto ao Parlamento, absorvida num cenário político-partidário que só oferece testemunhos lamentáveis de retrocesso democrático.

São Paulo continua a ser a meca de todos quantos necessitam do melhor tratamento médico-hospitalar do Brasil, comparável com os mais avançados do planeta. Possui três Universidades estaduais que são nicho de excelência e a Universidade virtual poderá seguir pelo mesmo caminho, se perfilhar a tradição de USP, UNICAMP e UNESP.

A capital bandeirante, esta insensata conurbação de quase vinte e cinco milhões de seres humanos, pois a ocupação adensada não respeita fronteiras, frágeis e fictícias convenções formais de limites entre municípios, possui menos paulistanos do que provenientes de todos os lugares. É uma vis atrativa que explica seus encantos, mas também seus problemas.

As críticas à Semana de 22, ressalvada a boa intenção de alguns, reflete – ao menos em parte – esse ressentimento contra São Paulo. Terra que também perdeu a coesão de 32. Há muitas dissensões em todos os setores. Naquilo que guarda pertinência com a minha vida profissional, vejo que outras regiões do País fazem convergir seu apoio a pretendentes aos cargos nos Tribunais Superiores. Esquecem-se diferenças paroquiais e somam-se esforços para o êxito da empreitada. Quando o candidato é paulista, os próprios conterrâneos elaboram dossiês para derrubar o concorrente. Por isso é que a representação paulista nas Cortes federais é desproporcional à importância do núcleo jurídico bandeirante.

Quando surgirá alguém capaz de somar os anseios, de liderar este povo que trabalha, paga a conta e não vê retorno justo para o seu investimento?

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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