Delegados reagem a uso da imagem da PF por Bolsonaro como ‘marketing político’ e ameaçam até parar

Delegados reagem a uso da imagem da PF por Bolsonaro como ‘marketing político’ e ameaçam até parar

Associação Nacional dos Delegados de Polícia Federal anunciou a aprovação de uma série de medidas em reação ao que chamam de 'clara omissão' do governo Jair Bolsonaro com relação à reestruturação de carreiras da corporação

Pepita Ortega

21 de abril de 2022 | 12h15

O presidente Jair Bolsonaro. Foto: Dida Sampaio/Estadão

Em meio a um clima de inconformismo com os 5% anunciados pelo governo a título de reajuste para todo o funcionalismo, os delegados da Polícia Federal anunciaram nesta quinta-feira, 21, a aprovação de uma série de medidas em reação ao que chamam de ‘clara omissão’ do governo Jair Bolsonaro com relação à reestruturação de carreiras da corporação. Entre ações previstas pela classe estão a recomendação para que delegados não realizem viagens em missão sem o pagamento prévio de diárias e o envio de um ofício ao Diretor-Geral Márcio Nunes de Oliveira para que, em 30 dias, ele estabeleça critérios para compensação ou remuneração do sobreaviso da classe.

Junto da Federação Nacional dos Policiais Federais e de demais entidades que representam os integrantes da PF, a Associação Nacional dos Delegados de Polícia Federal participará das manifestações da classe marcadas para o próximo dia 28, em todo País. Os delegados falam em carreatas e manifestações em frente às unidades dos órgãos.

Além disso, a ADPF aprovou um indicativo de paralisação das atividades juntamente com as associações que representam a categoria, o qual será ratificado em uma assembleia geral extraordinária prevista para o dia 2 de maio. Os delegados citam ainda uma ‘cobrança pública e direta’ do ministro da Justiça e Segurança Pública Anderson Torres, a partir de tal data, caso não seja assinada a Medida Provisória da reestruturação da PF até lá.

Os delegados ainda querem marcar reuniões com presidenciáveis para ‘expor a necessidade de um verdadeiro compromisso com a valorização dos policiais da união que não ocorreu nos últimos anos’. Entre as pautas que a classe deseja levar aos candidatos estão: a necessidade de mandato para Diretor-Geral da Polícia Federal, com lista tríplice; sobreaviso remunerado; aumento dos valores das diárias; plano de saúde; estruturação de apoio psicológico; e a tão falada reestruturação das carreiras policiais federais.

“Caso o presidente da República, Jair Bolsonaro, descumpra o compromisso público assumido por ele diversas vezes, os policiais da União não se manterão inertes diante do uso da valorização da segurança pública e da excelente imagem da Polícia Federal como ferramenta publicitária e de marketing político”, afirmou a ADPF em nota.

Os delegados se dizem ‘frustrados’ com a ideia do governo de conceder aumento geral de 5% a todos os servidores civis e militares, como acertado em reunião com o ministro da Economia, Paulo Guedes. Considerados uma importante base eleitoral do governo, os policiais federais haviam recebido a promessa de Bolsonaro da reestruturação das carreiras, com aumento de salário acima da inflação.

Como mostrou o Estadão, na segunda-feira, 18, Anderson Torres chegou a se reunir com representantes das polícias da União, com o intuito de contornar a insatisfação da classe. Na ocasião, o ministro da Justiça chegou a dizer que o reajuste de 5% para todo o funcionalismo ainda não foi fechado.

Leia a íntegra da nota da ADPF

A Associação Nacional dos Delegados de Polícia Federal (ADPF) comunica que a classe se reuniu em assembleia na última terça-feira (19/4) para decidir e alinhar medidas e providências a serem tomadas em reação à clara omissão do Governo Federal, que até o momento não assinou Medida Provisória de Reestruturação das Carreiras Policiais Federais, cujo orçamento de 1,7 bilhão já foi aprovado pelo Congresso. O sentimento de  frustração da categoria se amplifica diante do noticiado reajuste linear para os servidores públicos federais.

Alinhados aos sentimentos de todas as forças de segurança ligadas ao Ministério da Justiça, que viram a pauta da segurança pública ser alçada como bandeira pelo Governo enquanto os policiais não receberam qualquer valorização do seu trabalho e sacrifício, os delegados federais aprovaram de forma categórica todas as medidas apresentadas na assembleia.

Entre as ações que serão tomadas, ressalta-se a realização, no próximo dia 28 de abril (quinta-feira), de mobilização de todos os policiais federais. O ato acontecerá em todas as unidades da Polícia Federal espalhadas pelo Brasil.

A ADPF também apresentará ao Diretor-Geral da Polícia Federal, um comunicado que recomenda a todos os delegados federais que não viajem em missão sem o pagamento prévio de diárias, bem como estabeleça, em 30 dias, critérios para compensação ou remuneração do regime de sobreaviso, que tanto sobrecarrega os policiais.

A entidade aprovou, ainda, o indicativo de recomendação de operação-padrão e redução de produtividade nas atividades administrativas de fiscalização, bem como indicativo de paralisação das atividades junto com os demais cargos da PF, esta última a ser ratificada em assembleia no dia 02 de maio.

Por fim, reforça o posicionamento, cada vez mais firme, de que, caso o presidente da República, Jair Bolsonaro, descumpra o compromisso público assumido por ele diversas vezes, os policiais da União não se manterão inertes diante do uso da valorização da segurança pública e da excelente imagem da Polícia Federal como ferramenta publicitária e de marketing político.

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