Delegados dizem que PF ‘não deve ficar sujeita a declarações polêmicas em meio a demonstrações de força’

Delegados dizem que PF ‘não deve ficar sujeita a declarações polêmicas em meio a demonstrações de força’

Reunidos em Salvador para o IV Simpósio Nacional de Combate à Corrupção, delegados divulgam documento em que abordam 'comentários' de Bolsonaro sobre nomeação para cargos de chefia, defendem autonomia administrativa e financeira da corporação e mandato para diretor-geral

Ricardo Brandt, Luiz Vassallo e Pepita Ortega

23 de agosto de 2019 | 20h28

O presidente eleito, Jair Bolsonaro, em Brasília. FOTO: DIDA SAMPAIO/ESTADÃO

Os delegados de Polícia Federal querem autonomia administrativa e financeira da corporação. Reunidos para o IV Simpósio Nacional de Combate à Corrupção, eles divulgaram nesta sexta, 23, a Carta de Salvador, em que abordam ‘comentários’ do presidente Jair Bolsonaro, nos últimos dias, obre nomeações de cargos diretivos da instituição.

“A Polícia Federal não deve ficar sujeita a declarações polêmicas em meio a demonstrações de força que possam suscitar instabilidades em um órgão de imensa relevância, cujos integrantes são técnicos, sérios, responsáveis, e conhecedores de sua missão institucional”, destaca o documento.

Na semana passada, Bolsonaro anunciou à saída do Palácio do Planalto que iria trocar o superintendente da PF no Rio, delegado Ricardo Saadi, pelo mandatário em Pernambuco. Ele disse que ‘não é um presidente banana’ e é ele ‘quem manda’. Esta semana, disse que se quiser tira o diretor-geral da PF.

“Em várias oportunidades em governos passados a instituição sofreu pressões e tentativas de intervenção”, diz a Carta de Salvador.

“Diante do que parece ser mais uma delas, é necessário e urgente que a Polícia Federal conquiste garantias constitucionais e legais para se tornar, de fato e de direito, uma polícia de estado e não de governo”, pregam os delegados.

O encontro de Salvador foi promovido pela Associação Nacional dos Delegados de Polícia Federal. O evento foi inaugurado na quinta, 22, pelo diretor-geral, delegado Maurício Valeixo.

Os delegados consideram que medidas legislativas são fundamentais ‘para impedir qualquer tentativa de interferência na Polícia Federal’.

Na avaliação dos delegados, o primeiro passo para neutralizar interferências políticas na rotina da PF ‘é a aprovação da proposta de emenda constitucional que confere autonomia administrativa e financeira, em tramitação há mais de dez anos na Câmara dos Deputados’.

Eles abordam um objetivo que é caro à classe: fixação de mandato para o diretor-geral, o que evitaria exonerações a toque de caixa. “Outro movimento importante é estabelecer o mandato ao Diretor-Geral, com escolha baseada em critérios técnicos, republicanos e com limites impostos pela lei.”

“O dirigente máximo da Policia Federal deve ter o poder de formar a sua própria equipe, sem pressões de cunho político, partidário ou sob o risco de ser exonerado”, argumentam.

LEIA A CARTA DE SALVADOR

“Os Delegados de Polícia Federal reunidos na cidade de Salvador, Bahia, por ocasião do IV Simpósio Nacional de Combate à Corrupção, reafirmam suas convicções acerca dos valores, missão, significado e importância da Polícia Federal para o Estado Brasileiro.

Nos últimos dias, veículos de imprensa de todo o Brasil destacaram comentários do Presidente da República sobre a nomeação para cargos diretivos da Polícia Federal.

A lei atribui ao chefe do Poder Executivo a prerrogativa de nomear e exonerar o Ministro da Justiça e o Diretor-Geral da Polícia Federal.

Respeitamos a autoridade conferida nas urnas ao Presidente da República. Somos uma carreira hierárquica e disciplinada, reconhecida pela qualificação técnica e admirada por toda a população brasileira.

Contudo, a Polícia Federal não deve ficar sujeita a declarações polêmicas em meio a demonstrações de força que possam suscitar instabilidades em um órgão de imensa relevância, cujos integrantes são técnicos, sérios, responsáveis, e conhecedores de sua missão institucional.

Em várias oportunidades em governos passados a instituição sofreu pressões e tentativas de intervenção.

Diante do que parece ser mais uma delas, é necessário e urgente que a Polícia Federal conquiste garantias constitucionais e legais para se tornar, de fato e de direito, uma polícia de estado e não de governo.

Neste sentido, medidas legislativas são fundamentais para impedir qualquer tentativa de interferência na Polícia Federal.

O primeiro passo é a aprovação da proposta de emenda constitucional que confere autonomia administrativa e financeira, em tramitação há mais de dez anos na Câmara dos Deputados.

Outro movimento importante é estabelecer o mandato ao Diretor-Geral, com escolha baseada em critérios técnicos, republicanos e com limites impostos pela lei.

O dirigente máximo da Policia Federal deve ter o poder de formar a sua própria equipe, sem pressões de cunho político, partidário ou sob o risco de ser exonerado.

Tal medida traria estabilidade para o órgão, conferindo previsibilidade administrativa. Nos últimos dois anos, a instituição teve quatro diretores diferentes.

Não é produtivo que pessoas se perpetuem no comando, nem que sejam breves ao ponto de sequer poderem implementar os projetos.

A Polícia Federal enfrenta nos últimos anos dificuldades operacionais, estruturais e financeiras por conta de seguidos contingenciamentos sem o direito de encaminhar sua própria proposta orçamentária diretamente ao Congresso Nacional.

É praticamente impossível planejar a reposição de mais de quatro mil cargos policiais vagos. Além do mais, é necessário promover concursos complexos para atrair os melhores profissionais do mercado e dispor de meios para treinar e capacitar todo esse contingente.

Não se confunde autonomia com independência ou ausência de controle. Defendemos uma autonomia, com regras claras, limites e com os critérios definidos pelo Congresso Nacional.

Essa mudança não vai implicar em aumento de custos aos cofres públicos. A Polícia Federal deve ser vista como um investimento. Por intermédio de suas investigações, devolve ao Estado um valor muito acima do seu orçamento.

Chamar a Polícia Federal de gasto significa ignorar todo o benefício que ela traz para sociedade, principalmente evitando e combatendo a corrupção.

A Polícia Federal já demonstrou à sociedade brasileira que merece toda sua confiança, respeito e apoio.

Por isso, a ADPF, entidade representativa nacional dos Delegados Federais, espera que o Congresso Nacional, renovado, cuja base de campanha foi exatamente a valorização das instituições de segurança e o combate à corrupção, possa contribuir na aprovação de um sistema de proteção contra qualquer possibilidade de interferência na Polícia Federal, a fim de garantir a continuidade no combate à corrupção e ao crime organizado.

A Polícia Federal tem 75 anos de história. Como diz o trecho do hino que aprendemos ainda na academia: “Somos fortes na linha avançada!”. Com base neste princípio, a ADPF permanecerá atenta na defesa incondicional da instituição e no aprimoramento de sua atuação.”

Salvador, 23 de agosto de 2019.

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