Delegados defendem autonomia da PF e prometem acompanhar investigação sobre denúncia de interferência na operação que prendeu Milton Ribeiro

Delegados defendem autonomia da PF e prometem acompanhar investigação sobre denúncia de interferência na operação que prendeu Milton Ribeiro

É fundamental destacar que a Polícia Federal é órgão de Estado e não de Governo", afirma a Associação Nacional dos Delegados de Polícia Federal

Rayssa Motta, Fausto Macedo e Pepita Ortega

24 de junho de 2022 | 05h00

Reunião do ministro da Educação Milton Ribeiro com prefeitos em Brasília, com a presença dos pastores Gilmar Santos e Arilton Moura na organização. Foto: Instagram Milton Ribeiro - 13/01/2021

Reunião do ministro da Educação Milton Ribeiro com prefeitos em Brasília, com a presença dos pastores Gilmar Santos e Arilton Moura na organização. Foto: Instagram Milton Ribeiro – 13/01/2021

A Associação Nacional dos Delegados de Polícia Federal (ADPF) disse nesta quinta-feira, 23, que vai acompanhar a investigação aberta pela corporação para verificar se houve interferência no inquérito que levou o ex-ministro da Educação, Milton Ribeiro, à prisão.

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“A associação permanecerá vigilante para evitar prejuízos a qualquer investigação e atenta para que o trabalho de excelência da Polícia Federal não sofra questionamentos. Nesse sentido, a ADPF acompanhará a investigação anunciada pela direção da Polícia Federal à denúncia de possível interferência apresentada pelo delegado que conduz a investigação”, diz o comunicado.

A entidade afirma ainda que a corporação “não pode estar exposta a interferências externas”. “É fundamental destacar que a Polícia Federal é órgão de Estado e não de Governo”, defende a ADPF.

A investigação interna foi anunciada mais cedo pela direção nacional da Polícia Federal. Em nota, a corporação disse que abriu um “procedimento apuratório para verificar a eventual ocorrência de interferência, buscando o total esclarecimento dos fatos”.

A iniciativa foi motivada por uma mensagem enviada pelo delegado federal Bruno Calandrini, responsável pela investigação da Operação Acesso Pago, que prendeu o ex-ministro e pastores do gabinete paralelo do Ministério da Educação (MEC), a colegas envolvidos no caso. O Estadão teve acesso ao texto. O delegado diz que a investigação foi “prejudicada” pelo “tratamento diferenciado concedido pela PF ao investigado Milton Ribeiro” na operação.

O ponto questionado foi a decisão da Polícia Federal em São Paulo de manter o ex-ministro no Estado, mesmo após a Justiça Federal ter determinado a transferência imediata para Brasília, onde corre a investigação. Calandrini afirma que a investigação foi “obstaculizada” e por uma “escolha” tomada “à revelia da decisão judicial”. O delegado diz ainda que não tem “autonomia investigativa e administrativa” para conduzir o inquérito com “independência e segurança institucional”

“Vejo a operação policial como investigação na essência e o momento de ouro na produção da informação/prova. O deslocamento de Milton para a carceragem da PF em SP é demonstração de interferência na condução da investigação”, escreveu. “No entanto, o principal alvo, em São Paulo, foi tratado com honrarias não existentes na lei, apesar do empenho operacional da equipe de Santos que realizou a captura de Milton Ribeiro, e estava orientada, por este subscritor, a escoltar o preso até o aeroporto em São Paulo para viagem à Brasília.”

Leia toda a mensagem do delegado:

Muito obrigado a todos pelo empenho na execução da Operação Acesso Pago.

A investigação envolvendo corrupção no MEC foi prejudicada no dia de ontem em razão do tratamento diferenciado concedido pela PF ao investigado Milton Ribeiro.

Vejo a operação policial como investigação na essencia e o momento de ouro na produção da informação/prova.

O deslocamento de Milton para a carceragem da PF em SP é demonstração de interferência na condução da investigação, por isso, afirmo não ter autonomia investigativa e administrativa para conduzir o Inquérito Policial deste caso com independência e segurança institucional.

Falei isso ao Chefe do CINQ ontem, após saber que, por decidão superior, não iria haver o deslocamento de Milton Ribeiro para Brasília, e, manterei a postura de que a investigação foi obstaculizada ao se escolher pela não transferência de Milton à Brasília à revelia da decisão judicial.

As equipes de Gyn, Brasília, Belém e Santos, que cumpriram a missão de ontem, trabalharam com obstinação nas ruas e no suporte operacional, um trabalho hercúleo para o cumprimento dos mandados durante a Operação Acesso Pago, literalmente se esforçaram 24/7 e foram aguerridos em capturar todos os alvos. Faço referência especial às equipes de GYN que, mesmo após a prisão, ainda escoltaram os presos via terrestre, para a SR/PF/DF, incontinenti.

No entanto, o principal alvo, em São Paulo, foi tratado com honrarias não existentes na lei, apesar do emoenho operacional da equipe de Santos que realizou a captura de Milton Ribeiro, e estava orientada, por este subscritor, a escoltar o preso até o aeroporto em São Paulo para viagem à Brasília,

Quantos presos de Santos, até ontem, foram levados para a carceragem da SR/PF/SP?

É o que tinha a manifestar em lealdade a vocês que cumpriram a missão de ontem com o espírito do verdadeiro policial feceral.

Abraço.

 

 

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