Delegado que livrou Aécio fulmina três delatores da Lava Jato

Delegado que livrou Aécio fulmina três delatores da Lava Jato

Em relatório, Alex Levi Bersan de Rezende afirma que doleiro Alberto Youssef e ex-senador Delcídio Amaral não embasaram suas declarações e lobista Fernando Moura ‘precisa ser avaliado com cautela, por se tratar de pessoa que já foi desacreditada pela Justiça’

Julia Affonso, Luiz Vassallo, Breno Pires e Rafael Moraes Moura

09 Agosto 2017 | 19h54

Alberto Youssef, Delcídio Amaral e Fernando Moura. Fotos: Dida Sampaio/Estadão e Rodrigo Félix Leal/Futura Press

Ao isentar o senador Aécio Neves (PSDB-MG), o delegado da Polícia Federal Alex Levi Bersan de Rezende fulminou três delatores da Operação Lava Jato. Foram alvo do relatório da PF as declarações do doleiro Alberto Youssef, do ex-senador Delcídio Amaral (ex-PT-MS) e do lobista Fernando Moura – que teve benefícios de seu acordo suspensos após dar versões conflitantes.

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Os acordos de delação premiada da Lava Jato têm provocado impasse entre a Polícia Federal e o Ministério Público Federal. Delegados que atuam na investigação têm feito críticas a uma suposta falta de corroboração às declarações dos delatores.

O inquérito Furnas investigava suposto esquema de propinas no âmbito da estatal de energia. Aécio era investigado por corrupção passiva e lavagem de dinheiro.

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Para o delegado, Alberto Youssef teria ‘ouvido dizer de duas pessoas que já faleceram, José Janene e Airton Antônio Daré, inviabilizando a confirmação de seus relatos’. Já Delcídio Amaral teria ‘ouvido dizer do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que negou veemente o diálogo e a dinâmica delitiva narrados pelo ex-companheiro de partido’.

“Os fatos delatados por Alberto Youssef e por Delcídio do Amaral, como ostensivamente consta em seus termos de colaboração, teriam chegado ao conhecimento de ambos por “ouvir dizer” e não foram embasados com nenhum outro elemento de colaboração”, destacou o delegado.

Alex Levi Bersan de Rezende anotou que ‘o único testemunho que corrobora as delações’ é o de Fernando Moura. “E, mesmo assim, precisa ser avaliado com cautela, por se tratar de pessoa que já foi desacreditada pela Justiça e teve seu acordo de colaboração premiada revogado por ter mentido em juízo”, afirmou o delegado.

Depoimentos. Em sua delação, Alberto Youssef apontou influência de Aécio e do ex-deputado José Janene (morto em 2010) na nomeação para diretorias de Furnas entre ‘1994 e 2001 (ou 2002)’. O doleiro declarou ‘ter certeza’ da parceria ilícita entre PP e PSDB, ‘pois José Janene, em mais de uma oportunidade, teria lhe confidenciado as circunstâncias sobre a divisão da propina recebida de Furnas com Aécio Neves’.

O delegado da PF afirmou que Youssef ‘não ofereceu nenhum documento colaborativo que reforçasse a existência da dinâmica delitiva exposta’.

“Ele apresentou, tão somente, as lembranças de sua memória, e, no tocante ao senador mineiro, sujeito desta investigação, apenas relatos que tomou conhecimento por interpostas pessoas, ou seja, além de não ter participado diretamente de ações irregulares que envolviam o PSDB, suas declarações, que são muito vagas, estão embasadas em circunstâncias de ter ouvido os supostos fatos por intermédio de terceiros e, ainda, por intermédia de terceiros falecidos, que não poderiam se manifestar e confirmar se as condutas delituosas atribuídas a Aécio Neves, de fato, existiram”, anotou Alex Levi Bersan de Rezende.

O delator Delcídio Amaral, por sua vez, implicou Aécio no ‘processo de nomeação e de manutenção de diretores de Furnas para o recebimento de propina decorrente da celebração de contratos com a estatal’. O foco da delação do ex-senador, relatou o delegado, era ‘a manutenção de Dimas Fabiano Toledo à frente da diretoria de Engenharia de Furnas, após intervenção de Aécio Neves da Cunha junto ao presidente Lula, por intermédio de José Dirceu’.

O delegado foi taxativo em relação aos dois delatores. “A par das diferenças, duas circunstâncias que aproximam estes dois relatos estão no fato de ambos terem como fonte as
declarações de terceiros e não apresentarem quaisquer outros dados colaborativos para confirmar suas denúncias.”

Segundo o delegado, ‘nenhum dos dois ofereceu documentos, ou quaisquer tipos de vestígio material indiciário ou de prova, que pudessem confirmar seus relatos, e trazer a efetividades esperada de uma colaboração que deseja ser premiada’.

COM A PALAVRA, A DEFESA DE AÉCIO

“Após a realização de inúmeras e detalhadas diligências, incluindo a oitiva de empresários, políticos de oposição e delatores, durante um ano e três meses, a Polícia Federal concluiu que inexistem elementos que apontem para o envolvimento do Senador Aécio Neves em supostas atividades ilícitas relativas a Furnas.

“A partir do conteúdo das oitivas realizadas e nas demais provas carreadas para os autos, cumpre dizer que não é possível atestar que Aécio Neves da Cunha realizou as condutas criminosas que Ihe são imputadas”, diz a conclusão do inquérito.

Assim, estando comprovada a falta de envolvimento do Senador Aécio Neves com os fatos que lhe foram atribuídos, a Defesa aguarda a remessa dos autos à PGR e para que, na linha do que concluiu o denso relatório policial, seja requerido o arquivamento do Inquérito, com sua posterior homologação.

Alberto Zacharias Toron e Luísa Oliver
Advogados

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