Delegado que caiu da chefia da PF Amazonas após notícia-crime contra Salles vai para delegacia de Volta Redonda

Delegado que caiu da chefia da PF Amazonas após notícia-crime contra Salles vai para delegacia de Volta Redonda

Redação

27 de maio de 2021 | 17h47

O delegado Alexandre Saraiva. Foto: Wérica Lima/ Inpa

O delegado Alexandre Saraiva, ex-superintendente da Polícia Federal do Amazonas que caiu após enviar ao Supremo Tribunal Federal notícia-crime contra o ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles, foi removido da unidade da PF no Estado e transferido para a Delegacia da corporação em Volta Rendonda, no Rio de Janeiro. A informação foi publicada no Boletim de serviço da PF desta quinta, 27. No Twitter, o delegado comentou o retorno para a delegacia que chefiou entre 2009 e 2010.

“No meu primeiro dia de trabalho na DPF Volta Redonda tive a grata surpresa de encontrar essa placa afixada na parede. Ideia nossa para mostrar presença do Estado na Rebio Tinguá. Coisa de mais de dez anos atrás, quando a PF iniciou um trabalho de repressão ao tráfico de animais silvestres nas unidades de conservação do RJ resultando na conhecida Op. Oxossi, que desarticulou organização criminosa internacional que traficava milhares de animais silvestres”, escreveu Saraiva em tweets publicados na segunda, 24.

O delegado tem sido ativo no Twitter na última semana, ainda repercutindo a operação que fez buscas contra o chefe do Ministério do Meio Ambiente na quarta passada, 19. Após a deflagração da ofensiva, o delegado publicou trecho de um salmo bíblico: “Regozijem-se os campos e tudo o que neles há! Cantem de alegria todas as árvores da floresta”.

Saraiva também compartilhou um vídeo sobre a investigação contra Salles por suposta participação em um ‘grave esquema de facilitação ao contrabando’ de madeira, com a hashtag #somostodosakuanduba, em referência ao nome da operação. Além disso, publicou uma foto de um protesto em Brasília contra Salles . A imagem é de uma faixa com a frase “Eu não posso aceitar sossegado qualquer sacanagem ser coisa normal”. Saraiva disse que o texto de de uma música de Milton Nascimento e que utilizou a mesma na notícia-crime que enviou ao STF contra o ministro do Meio Ambiente.

O delegado costuma usar as redes sociais para compartilhar informações sobre as operações da PF, além de comentar sobre as estratégias para a exportação de madeira ilegal identificadas pela corporação. O perfil foi criado logo após o ex-superintendente da PF no Amazonas ser substituído, sendo que, na ocasião, o delegado afirmou ao Estadão que ‘não havia sido comunicado’ sobre a troca no comando da unidade. Na semana seguinte à mudança, Saraiva fez a primeira publicação na rede social afirmando, em letras maiúsculas: “Não vai passar boiada nenhuma!!!”.

A indicação de Saraiva faz referência a fala do ministro do Meio Ambiente na reunião ministerial de 22 de abril de 2020, tornada pública no âmbito no inquérito que apura suposta tentativa de interferência política de Bolsonaro na PF. Na ocasião, Salles disse que era preciso aproveitar a ‘oportunidade’ que o governo federal ganha com a pandemia do novo coronavírus para ‘ir passando a boiada e mudando todo o regramento e simplificando normas’.

Um ano após a fatídica reunião, Saraiva imputou a Salles supostos crimes de obstrução de investigação ambiental, advocacia administrativa e organização criminosa. Segundo o delegado, além de dificultar a ação de fiscalização ambiental, Salles ‘patrocina diretamente interesses privados (de madeireiros investigados) e ilegítimos no âmbito da Administração Pública’ e integra, ‘na qualidade de braço forte do Estado, organização criminosa orquestrada por madeireiros alvos da Operação Handroanthus com o objetivo de obter, direta ou indiretamente, vantagem de qualquer natureza’.

A fala de Salles sobre o ‘passar a boiada’ também foi citada pela Polícia Federal ao pedir a Alexandre de Moraes a abertura da Operação Akuanduba. Os investigadores apontaram que tal ‘modus operandi’ (parecer, caneta) teria sido aplicado na questão das exportações ilícitas de madeira, com a elaboração ‘de um parecer por servidores de confiança em total descompasso com a legalidade’ – um despacho assinado pelo presidente do Ibama, Eduardo Bim, que liberou a exportação de madeira de origem nativa, sem a necessidade de uma autorização específica. O documento foi suspenso por ordem do ministro Alexandre de Moraes.

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