Delegado da PF nega vazamento de ‘imagens’ de condução de Lula

Delegado da PF nega vazamento de ‘imagens’ de condução de Lula

Em ofício ao juiz Sérgio Moro, Igor Romário de Paula afirma que nenhuma imagem feita durante a 24ª fase da operação Lava Jato foi cedida a 'qualquer pessoa, empresa ou veículo de comunicação'; defesa do ex-presidente sugere a Moro ouvir jornalistas

Mateus Coutinho, Julia Affonso e Luiz Vassallo

28 Março 2017 | 15h43

Lula. Foto: Ricardo Nogueira/EFE

Lula. Foto: Ricardo Nogueira/EFE

O delegado Igor Romário de Paula, da força-tarefa da Lava Jato no Paraná, afirmou em ofício encaminhado nesta segunda-feira, 27, ao juiz Sérgio Moro que nenhuma imagem feita durante a condução coercitiva do ex-presidente Lula foi cedida “a qualquer pessoa, empresa ou veículo de comunicação por parte da Polícia Federal”. Ele reiterou ainda que foram adotados na operação os mesmos parâmetros das outras operações da PF.

A defesa do ex-presidente, por sua vez, contestou a manifestação do delegado e, citou depoimentos dos envolvidos no filme PF a Lei é Para Todos à imprensa e matérias jornalísticas veiculadas em fevereiro deste ano que afirmam que a equipe de filmagem teve acesso ao suposto vídeo da condução coercitiva do petista. Diante disso, os defensores de Lula reiteraram nesta segunda os pedidos feitos a Moro no dia 22 para que a produção do filme se abstenha de utilizar as filmagens da PF e que a revista Veja não divulgue o vídeo. Os advogados pedem ainda que seja apurada a eventual responsabilidade criminal de agentes públicos que estariam envolvidos no suposto vazamento.

Segundo a PF, em todas as unidades em que possui a tecnologia disponível, a corporação utiliza câmeras nos uniformes dos agentes para registrar as operações policiais, prática adotada em outros países como os EUA e que serve para a própria Polícia Federal registrar eventuais irregularidades durante o cumprimento de medidas judiciais, como a resistência dos investigados em cumprir mandados.

Para os advogados de Lula, teria havido vazamento. “Como se vê, está-se diante de inegável confissão de veículos de imprensa e de pessoas envolvidas com a própria produção do filme de que a Polícia Federal deu a eles acesso às gravações realizadas contra ordem deste Juízo — além de entrevistas com agentes públicos que deveriam observar sigilo em relação ao tema”, segue a petição assinada pelos criminalistas Cristiano Zanin Martins, Roberto Teixeira e Alfredo de Araújo Andrade. Para eles, “há narrativas diversas e harmoniosas que indicam a prática de condutas penalmente relevantes”.

Caso o juiz da Lava Jato não acate o primeiro pedido, os advogados pedem ainda que sejam ouvidas as pessoas que”confessaram ter tido acesso às gravações realizadas pela Polícia Federal”. Os defensores chegam ainda a sugerir ao juiz da Lava Jato que caso “necessite de maiores esclarecimentos”, isso “será possível mediante a oitiva” de jornalistas da Veja e do jornal Zero Hora que publicaram as matérias citando o uso do vídeo pelos envolvidos no filme PF a Lei é Para Todos e até do delegado da PF Luciano Flores.

OS AUTOS DA CONDUÇÃO COERCITIVA DE LULA

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Em decisão do dia 24, Moro apontou que não caberia a ele decidir sobre censura a veículos de imprensa ou à produção do filme, e pediu à PF explicações sobre o suposto vídeo em cinco dias. Na segunda, o delegado Igor Romário de Paula informou ao magistrado que não houve nenhuma irregularidade durante o cumprimento do mandado de condução coercitiva do ex-presidente, realizada durante a 24ª fase da Operação, em 4 de março de 2016.

“Em momento algum as imagens realizadas naquela data foram fornecidas a terceiros, sendo anexadas ao processo eletrônico correspondente somente imagens do depoimento realizado e posteriormente degravado”, assinalou o delegado. Ele reiterou ainda que todos os procedimentos adotados pelas forças policiais foram feitos “com a absoluta discrição, sem o uso de viaturas ou uniformes ostensivos, em local reservado e diverso de unidade policial”

O delegado lembrou ainda que mesmo com a intensa cobertura da imprensa na data não foi divulgada “qualquer imagem que atente contra a intimidade e privacidade do investigado”. Agora cabe a Moro analisar e decidir quais providências tomar diante da manifestação do delegado e das novas solicitações da defesa de Lula.

A reportagem entrou em contato com a revista Veja e o jornal Zero Hora para saber se iriam comentar o caso, mas não obteve nenhum retorno ainda.

COM A PALAVRA, ASSESSORIA DA PRODUÇÃO DO FILME:

Procurada por meio de assessoria, a produção do filme PF a Lei é Para Todos informou que a obra é inspirada em fatos reais e a contribuição da PF se deu no sentido de pesquisa de material para a produção. Segundo a produção, os produtores e roteiristas buscaram os delegados que participaram da investigação para obterem informações que subsidiaram o roteiro, que é ficcional. A produção informou ainda que a obra não utilizará nenhuma imagem real.