Delcídio diz à PF que Dilma o consultou em 2003 sobre nomeação de Cerveró na Petrobrás

Delcídio diz à PF que Dilma o consultou em 2003 sobre nomeação de Cerveró na Petrobrás

Preso por suspeita de tramar contra a Lava Jato, senador petista negou ter procurado ministros do Supremo para interceder por ex-diretor da estatal

Andreza Matais, Ricardo Brandt, Fausto Macedo e Julia Affonso

27 Novembro 2015 | 19h26

Delcidio. Foto: André Dusek/Estadão

Delcidio. Foto: André Dusek/Estadão

Atualizada às 22h43

O senador Delcídio Amaral (PT-MS) disse à Polícia Federal que em 2003 foi consultado pela então ministra de Minas e Energia, Dilma Rousseff, “acerca da possível nomeação” de Nestor Cerveró para a Diretoria Internacional da Petrobrás, mas ressaltou que a petista conhece o executivo há mais de uma década e mantinha “contato permanente” com ele quando era secretária estadual no Rio Grande do Sul.

Delcídio também disse aos policiais que tratou com o banqueiro André Esteves sobre a situação de Cerveró, que está preso desde janeiro na Operação Lava Jato, contradizendo o executivo, que afirmou em depoimento já ter conversado com o senador apenas sobre conjuntura macroecnômica.

O senador e o banqueiro foram presos na última quarta-feira, acusados de tentar comprar o silêncio de Cerveró para que não fossem citados em delação premiada. Os investigadores afirmam que André Esteves, dono do BTG Pactual, fazia parte da estratégia e se encarregaria de providenciar mesada para manter a família do ex-diretor de Internacional da Petrobrás.

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No depoimento de apenas cinco páginas, a qual o Estado teve acesso, Delcídio mencionou espontaneamente a presidente Dilma três vezes. “A então ministra (da Casa Civil no governo Lula) Dilma já conhecia Nestor Cerveró desde a época em que ela atuou como secretária de Energia no Governo Olívio Dutra, no Rio Grande do Sul”, declarou o senador.

“Como a área de exploração de gás era bastante desenvolvida naquele Estado, havia contatos permanentes entre a Diretoria de Gás e Energia da Petrobrás e a Secretaria comandada pela Dilma Rousseff.”

Ele disse que “se manifestou favoravelmente” à indicação de Cerveró para o cargo”, em face da experiência que tiveram conjuntamente no âmbito da Diretoria de Gás e Energia. Cerveró acabou nomeado. É a primeira vez que o senador expõe a relação da presidente Dilma com o ex-executivo da Petrobrás.

No ano passado, questionada pelo “Estado”, Dilma, já como presidente, acusou Cerveró de ter omitido cláusulas contratuais sobre a compra da refinaria de Pasadena (EUA), quando era presidente do Conselho de Administração da Petrobrás. A Lava Jato confirmou que o negócio envolveu pagamento de propina a agentes públicos. No depoimento, Delcídio afirmou que não acompanhou a transação porque na época era presidente da CPI dos Correios, que investigou o mensalão, e o PT estava contrariado com ele.

Banqueiro. A PF questionou Delcídio se ocorreu a conversa com Esteves, na qual trataram sobre uma “operação de postos de gasolina”. Essa operação é suspeita de ter rendido propina ao senador Fernando Collor (PTB-AL). Aos investigadores, o senador respondeu laconicamente que “sim”.

O senador disse que se encontrou com o advogado de Cerveró, Edson Ribeiro, também preso, “nos últimos três meses em uma ou duas ocasiões, a fim de tratar de créditos que ele (Ribeiro) afirmava ter junto à Petrobrás’. Ao menos um desses encontros ocorreu no Hotel Royal Tulip, em Brasília, no início de novembro – no dia 4, Bernardo Cerveró, filho do ex-diretor da estatal, gravou a conversa que levou as prisões do petista, de um assessor do seu gabinete no Senado, do banqueiro e do advogado.

O delegado Thiago Delabary perguntou a Delcídio se ele tinha “algum interesse” na soltura de Cerveró e ele respondeu afirmativamente. O senador fez uma ressalva: “Substancialmente, por motivos pessoais, em razão de ter trabalhado com ele (Cerveró) na Petrobrás, por conhecer a família e presumir o sofrimento a que vinha sendo submetido. Por questões humanitárias.”

Delcídio contou que em 1999 foi nomeado diretor de Gás e Energia da estatal petrolífera “atendendo a convite do então presidente da República Fernando Henrique Cardoso”. Ele disse que conhece Cerveró “desde a época em que trabalhou na Petrobrás, esclarecendo que a área em que ele (Cerveró) atuava dentro da empresa (Gerência Executiva de Energia) ficava subordinada à Diretoria de Gás e Energia”.

Delcídio afirmou que soube “apenas pela imprensa” da negociação entre Cerveró e o Ministério Público Federal para uma delação premiada. Explicou que teve “uma experiência negativa” em decorrência do acordo de delação de Paulo Roberto Costa, que lhe atribuiu envolvimento em irregularidades no Programa de Geração de Energia da Petrobrás, e que a Procuradoria-Geral da República “arquivou tal notícia”.

Segundo o senador petista, nas reuniões com o advogado “houve a participação de Bernardo, filho de Nestor Cerveró, com o propósito de expor ao declarante as dificuldades que seu pai vinha enfrentando”. “Precisamente, Bernardo pretendia que o declarante, valendo-se de sua posição, buscasse conversar com os ministros do Supremo Tribunal Federal a respeito de habeas corpus que estavam tramitando na Suprema Corte.

Em conversa gravada por Bernardo Cerveró, filho de Nestor Cerveró, o senador se compromete a fazer gestões junto a ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) para agilizar a concessão de habeas corpus para o ex-diretor da Petrobrás, réu da Lava Jato.

Apesar de ter afirmado a Bernardo que já havia estabelecido contato com alguns ministros do Supremo, o senador afirma que isso não ocorreu e que apenas buscava dar “palavras de conforto”.

Delcídio relatou que esteve há cerca de um mês com o ministro Dias Toffoli “a fim de tratar de assuntos institucionais relacionados ao Tribunal Superior Eleitoral (Corte que Toffoli preside), os quais não guardam qualquer relação com Nestor Cerveró”.

Delcídio afirmou à PF que “não disse (a Bernardo Cerveró) que esteve com Teori (Zavascki, ministro relator da Lava Jato no Supremo) nem com qualquer outro ministro do STF, não solicitou a Toffoli nem a Renan (Calheiros, presidente do Senado), tampouco ao vice-presidente da República, Michel Temer, que estabelecessem contato com o ministro Gilmar Mendes para tratar de assuntos relacionados a Cerveró”.

O congressista não negou ter prometido Bernado Cerveró “que providenciaria essa interlocução, mas de fato tratou-se de palavras de conforto”. Ele reiterou: “Jamais procurou por qualquer ministro do STF, conforme lhe fora solicitado por Bernardo, uma vez que tal iniciativa seria infrutífera”.

No trecho 20 minutos e 48 segundos do áudio em que faz menções a “José Eduardo” e “STJ”, Delcídio disse que se referia a conversa mantida com o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, na qual “houve comentário por parte dele (Delcídio) no sentido de que possivelmente haveria decisão favorável a Marcelo Odebrecht (empreiteiro preso desde 19 de junho na Lava Jato) em habeas corpus que tramitava no Superior Tribunal de Justiça”.

O petista citou ainda preocupação de Michel com Jorge Zelada (ex-diretor da Petrobrás preso pela Lava Jato) em trecho gravado na conversa com Bernardo Cerveró. À PF, ele informou que “se referiu ao vice-presidente Michel Temer, que, segundo informações que se tinha na época, mantinha relação com Jorge Zelada.”[veja_tambem]