Delcídio diz a Moro que Bumlai e Odebrecht estruturam criação do Instituto Lula

Assista os vídeos do depoimento do ex-líder do PT no Senado, delator da Lava Jato, que afirmou que Palocci era o principal interlocutor de Lula com empresários, em processo sobre propina paga pela Odebrecht na compra de terreno para Instituto Lula e de apartamento em São Bernardo do Campo para petista

Julia Affonso, Ricardo Brandt, Luiz Vassallo e Fausto Macedo

23 de maio de 2017 | 11h13

Lula e Delcídio FOTO DIGITAL: ED FERREIRA/AE

Ex-líder do PT no Senado no governo Dilma Rousseff, até ser preso em dezembro de 2016 ao tentar comprar o silêncio do ex-diretor da Petrobrás Nestor Cerveró, o delator Delcídio Amaral (MS) afirmou nesta segunda-feira, 22, ao juiz federal Sérgio Moro que o pecuarista José Carlos Bumlai, amigo de Lula, e o empresário Marcelo Bahia Odebrecht estruturaram a criação do Instituto Lula, aberto em 2011, após o petista deixar a Presidência.

“Ele (Bumlai) falou para mim que ele tinha procurado o Marcelo para ajudar na implementação do Instituto (Lula)”, declarou Delcídio, ouvido por Moro como testemunha de acusação no segundo processo aberto contra Lula, na Lava Jato, em Curitiba.

“Ele estava atuando para essa estruturação a pedido de quem?”, questionou a procuradora da República Isabel Groba, da força-tarefa da Lava Jato.

“Do próprio presidente. Ele foi chamado para organizar isso.”

Delator da Lava Jato, Delcídio detalhou como Bumlai conheceu Lula, em 2002, apresentado pelo ex-governador do Mato Grosso do Sul Zéca do PT. Era um conselheiro da família, uma pessoa que estava lá à disposição para resolver os problemas do dia a dia do ex-presidente e da família também.”

A força-tarefa acusa Lula de crimes de corrupção e lavagem de dinheiro. A denúncia da Procuradoria da República aponta que propinas pagas pela Odebrecht, no esquema de desvios na Petrobrás, que seria liderado pelo ex-presidente, chegaram a R$ 75 milhões em oito contratos com a Petrobrás e incluíram terreno de R$ 12,5 milhões para o Instituto Lula e cobertura vizinha à residência de Lula em São Bernardo de R$ 504 mil.

“A primeira vez que fiquei sabendo do Instituto Lula foi através desse diálogo que eu tive com José Carlos Bumlai, quando ele me falou que estava trabalhando na estruturação do instituto”, afirmou Delcídio a Moro, confirmando o que registrou em sua delação.

Nela, o ex-petista detalhou que no final do governo Lula, em 2010, ele ouviu do pecuarista que ele precisava “estruturar” o instituto para que o “ex-presidente tivesse um local para se estabelecer após o final de seu mandato”.

O delator contou que Bumlai citou a procura de um terreno e a participação da Odebrecht na “estruturação” da criação do Instituto Lula.

Influente. Neste processo em que Lula é réu, o ex-ministro Antonio Palocci (Fazenda/governo Lula e Casa Civil/governo Dilma) é apontado como principal interlocutor com a Odebrecht. O petista era o “Italiano” que aparece nas planilhas secretas da empreiteira e que “Amigo” era o ex-presidente.

“Tenho certeza que o ministro Palocci era pessoa muito influente nessa área de arrecadação”, afirmou Delcídio. O ex-ministro também é réu no caso e foi citado pela delator como o principal arrecadador do PT, de valores legais e de caixa 2.

 

“Eu que vivi a CPI dos Correios, tive uma situação com Marcos Valério reclamando de uma suposta indenização que ele teria para receber para se calar”, contou o delator. “Logo que recebi essa informação tive uma conversa com ele como presidente da CPI.”

“E o que tem a ver com Palocci?”, quis saber Moro.

“Eu alertei o presidente Lula e disse “o senhor não precisa nem preocupar com o tempo, eu vou falar rapidamente. Ó, eu ouvi coisas de Minas Gerais que são complicadas’. Para o senhor ver a importância do ex-mistro Palocci. No dia seguinte, Palocci me liga e diz ‘ você teve com o presidente Lula ontem?'”, teria perguntado o ex-ministro.

Delcídio disse que respondeu: “Tive (sic).” Palocci teria perguntado: “A conversa foi boa?”.

“Para mim, pelo menos, eu tirei um peso da consciência, agora para ele não sei se foi boa. Aí ele disse assim ‘eu agora vou cuidar desse assunto’. Então era uma pessoa que tinha proximidade, intimidade.”

Apartamento. A acusação informa que durante as buscas e apreensões da Operação Aletheia, deflagrada em março de 2016, que tiveram Lula como alvo, “teria sido constatado que Luiz Inácio Lula da Silva ocuparia não apenas o apartamento 122, mas igualmente o apartamento contíguo”.

Ao tornar Lula réu, Moro transcreveu trechos da acusação do Ministério Público Federal, no Paraná. “O referido apartamento teria sido adquirido, em 20 de setembro de 2010, por Glaucos da Costamarques. Segundo a denúncia, por rastreamento bancário, foi possível constatar que o custo da aquisição, no valor de R$ 504 mil, teria sido suportado pelo Grupo Odebrecht”, anota Moro.

O magistrado destacou que ‘muito embora tenha sido encontrado um contrato de locação entre Glaucos da Costa Marques e a esposa do ex-presidente, Marisa Letícia Lula da Silva, não teriam sido identificadas quaisquer provas documentais do efetivo pagamento do aluguel’.

Confissão. No dia 12 de abril, o empresário Marcelo Bahia Odebrecht, também réu nesse processo, confessou a Moro ter comprado o terreno para atender interesses de Lula, após pedido de Paulo Okamotto, presidente do Instituto Lula e também réu do caso, e o pecuarista José Carlos Bumlai – amigo do ex-presidente.

“O prédio IL foi aquele pedido que eu comentei com o sr.  Em meados de 2010, o Paulo Okamotto ou o Bumlai, um dos dois, fez o primeiro approach. Mas depois eu conversei com os dois. Veio dizer que o Bumlai e Roberto Teixeira tinham fechado um terreno que queriam que fosse a futura sede do Instituto Lula”, contou Odebrecht.

“Queriam que a gente comprasse o terreno e doasse. Eu tinha acertado o valor que em tese era para ser doado todo. Vocês não querem, vocês ficam pedindo aos poucos. Se arrancar do provisionamento que eu tenho com Palocci, tudo bem. Mas eu tenho que pegar autorização dele. Eu fui em Palocci e disse: ‘Palocci, pessoal tá querendo Instituto. Tem autorização sua para usar esses recursos no IL?’. Ele disse que sim. Eu fiz a transação, a gente comprou o terreno. Eu pedi a um amigo meu que prestava serviço para a empresa, de confiança, ele comprou o terreno no nome da empresa dele. Depois não andou em frente.”

O empresário e delator da Lava Jato afirmou que uma empresa do grupo acabou comprando o terreno para um empreendimento imobiliário. “Depois não teve interesse. Eles resolveram comprar e depois desistiram. Foi feito um débito e lá na frente um crédito ao saldo Amigo”, afirmou Marcelo Odebrecht.

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