Delator relata reunião com Dirceu, Vaccari, Duque e Bob, em 2013

Delator relata reunião com Dirceu, Vaccari, Duque e Bob, em 2013

Milton Pascowitch disse à Lava Jato que em encontro em sua residência, no Rio, ex-ministro preso tratou sobre nova licitação da Petrobrás envolvendo empresas que pagavam propina

Redação

06 de agosto de 2015 | 06h03

José Dirceu. Foto: André Dusek/Estadão

José Dirceu. Foto: André Dusek/Estadão

Atualizada às 17h21

Por Ricardo Brandt, enviado especial a Curitiba, Julia Affonso e Fausto Macedo

O operador de propinas Milton Pascowitch afirmou em sua delação premiada que José Dirceu – preso desde segunda-feira, 3, pela Operação Pixuleco – participou de uma reunião em sua casa, no Rio, em que participaram ele, o ex-tesoureiro do PT João Vaccari Neto, o ex-diretor de Serviços da Petrobrás Renato Duque e Roberto Marques, o Bob, que era braço-direto do ex-ministro.

“Se discutia a necessidade de que alguém intercedesse junto ao diretor (da Petrobrás) José Eduardo Dutra para que fossem licitados novos contratos de terceirização de mão de obra”, afirmou Pascowitch, em depoimento prestado ao Minitério Público Federal.

O encontro teria ocorrido em 2013, quando Dirceu estava às vésperas de ser preso no Mensalão, condenado a 7 anos e 11 meses de cadeia por corrupção ativa.

Duque, havia deixado a Petrobrás e atuava como consultor em sua empresa D3TM Consultoria – usada para receber propina, segundo a Lava Jato – mas ainda exerceria influência na estatal.

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Os contratos discutidos no encontro eram da Hope Serviços e da Personal Service, que pagavam propina para o esquema de Dirceu, segundo apontam os procuradores da Lava Jato.

A Hope tem contrato bilionário de terceirização de mão de obra técnica e a Personal serviços de recepção e limpeza. Segundo Pascowitch, no início da gestão da diretoria de Duque, por volta de 2003, 2004, o grupo político de Dirceu, representado pelo lobista Fernando de Moura se aproximou da Hope. “Estabelecendo um ‘relacionamento comercial'”, que teria perdurado até o Mensalão.

“Na ocasião do Mensalão, a área política se afastou dessas demandas, tendo sido estabelecido um ‘interlocutor’, entre as áreas, que no caso foi a pessoa de Julio Camargo”, registra o delator. “Antes do Mensalão esse recebimento era feito diretamente dos interessados da área política.”

Divisão. “Hope pagava 1,5% do valor bruto constante de planilha com o valor
faturado dos contratos, o que significava 3% líquido. A Personal pagava valores fixos mensais, apurados de acordo com cada contrato”, informa o MPF no pedido de prisão de Dirceu e dos outros alvos da Pixuleco.

“Esses recursos somavam uma média de R$ 500 mil mensais, alcançando R$ 700 mil a R$ 800 mil.” Pascowitch apontou a divisão dos valores. “A Fernando Moura (representante de Dirceu na Petrobrás) cabiam R$ 180 mil/mês. Duque, informou Milton, recebia uma ‘cota’ de 40% dos valores ilícitos que restavam depois de deduzida a parcela mensal de R$ 180 mil, o que equivalia a cerca de R$ 280 mil mensais; Dirceu, 30%”, informou o delator, que disse ficar com outros “30%”.

Pascowitch acrescentou ainda que após certo momento, “por autorização de Dirceu, Luiz Eduardo (seu irmão) e Roberto Marques passaram a receber R$ 30 mil cada”. “Quando havia sobras por parte de Dirceu (quando este não precisava de recursos), elas ficavam com Vacarri.”

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Representante dos pagamentos das duas empresas a partir de 2008 ou 2009, após o lobista Moura se desentender com Julio Camargo, Pascowitch afirma saber que a Hope teria pago os valores até final de 2013 e que a Personal continuou até ser deflagrada a Lava Jato, em março de 2014.

“O prazo de contratos haviam sido encerrados, havendo necessidade de nova licitação”, explicou o delator, que confirmou ter entregue R$ 10 milhões em propina na sede do PT.

Segundo Pascowitch, “Duque atuava diretamente no direcionamento dos convites em novos procedimentos licitatórios”. O delator afirmou que a Hope e a Personal ganharam os novos contratos, mas não soube dizer se os pagamentos voltaram a ocorrer.

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COM A PALAVRA, AS DEFESAS
JOSÉ DIRCEU
A defesa de José Dirceu classifica como desnecessária e sem fundamento jurídico a prisão preventiva do ex-ministro, decretada pela Justiça Federal do Paraná nesta segunda-feira (3), e afirma que irá recorrer da decisão nos próximos dias.

Segundo o advogado Roberto Podval, o ex-ministro cumpre prisão domiciliar e já havia se colocado à disposição da Justiça por diversas vezes para prestar depoimento e esclarecer o trabalho de consultoria prestado às construtoras sob investigação.

“Como já havíamos argumentado no habeas corpus preventivo, José Dirceu não se enquadra em nenhuma das três condições jurídicas necessárias para a decretação de uma prisão preventiva: ele não apresenta risco de fuga, não tem como obstruir o trabalho da Justiça nem tampouco é capaz de manter qualquer suposta atividade criminosa”, afirma.

“Mesmo sem entrar no mérito apresentado pelo Ministério Público para justificar a prisão, o argumento da Procuradoria de que Dirceu teria cometido crime desde a época em que era ministro da Casa Civil até o período de sua prisão pela Ação Penal 470 também não tem fundamento porque, hoje, as atividades da JD Assessoria e Consultoria foram encerradas no ano passado e o meu cliente não tem qualquer contato ou recebeu qualquer recurso do delator Milton Pascowitch.”

Roberto Podval alerta para o cálculo equivocado apresentado pela Polícia Federal sobre os supostos recebimentos ilícitos por meio da JDA. Na coletiva pela manhã, o delegado Márcio Anselmo afirmou que o montante chegaria a R$ 39 milhões. “Esse é o total faturado pela empresa em 8 anos de atividade, quando atendeu a cerca de 60 clientes de quase 20 setores diferentes da economia”, diz Podval. “Não há qualquer razoabilidade imaginar que os pagamentos de multinacionais de diversos setores da indústria teriam relação com o suposto esquema criminoso na Petrobrás.”

Desde 2006, a JDA foi contratada por empresas como a Ambev, Hypermarcas, Grupo ABC, Telefonica, EMS, além dos empresários Carlos Slim e Gustavo Cisneros. Todos, quando procurados pela imprensa, confirmaram a contratação do ex-ministro para orientação de negócios no exterior ou consultoria política.

“Querem apontar a JDA como uma empresa de fachada, o que é muito inconsistente”, completa Roberto Podval. “O ex-ministro sempre teve profundo reconhecimento internacional e desenvolveu importantes laços de relacionamento com destacadas figuras públicas ao longo de toda sua trajetória e militância política. Esse era o ativo e o valor de José Dirceu como consultor, sem que nunca fosse exigido dele, por parte dos clientes, o envio de relatórios ou qualquer outro tipo de comprovação dos serviços prestados.”

A defesa do ex-ministro reitera que o trabalho de consultoria nunca teve qualquer relação com contratos da Petrobrás e que Dirceu sempre trabalhou para ajudar as construtoras na abertura de novos negócios no exterior, em especial em países como Peru, Cuba, Venezuela e Portugal.

Nota à imprensa do criminalista Roberto Podval, defensor de Dirceu

JOÃO VACCARI NETO
O criminalista Luiz Flávio Borges D’Urso reagiu enfaticamente aos termos da delação de Milton Pascowitch, que afirmou ter entregue propina em dinheiro vivo para o ex-tesoureiro do PT. Pascowitch disse que pagou R$ 10 milhões em espécie na sede do PT, em São Paulo. Vaccari está preso em Curitiba, base da Lava Jato, desde abril de 2015.

“Não procede qualquer afirmação, nem desse delator nem de qualquer outro, de que o sr. Vaccari tenha recebido qualquer quantia em espécie. Na verdade, cumprindo sua função de tesoureiro do PT, o sr.Vaccari sempre solicitou doações legais ao partido”, declara D’Urso.

O advogado afirmou que todas as doações solicitadas pelo ex-tesoureiro “foram invariavelmente realizadas por depósitos bancários, com o respectivo recibo”.
“De tudo foi prestado contas às autoridades competentes”, declarou Luiz D’Urso. “Vale lembrar, mais uma vez, que palavra de delator não é prova. E que até hoje nenhuma palavra que acuse o sr. Vaccari nas várias delações foi objeto de comprovação.”

PARTIDO DOS TRABALHADORES
“O Partido dos Trabalhadores refuta as acusações de que teria realizado operações financeiras ilegais ou participado de qualquer esquema de corrupção. Todas as doações feitas ao PT ocorreram estritamente dentro da legalidade, por intermédio de transferências bancárias, e foram posteriormente declaradas à Justiça Eleitoral.”

Rui Falcão, presidente nacional do PT”

COM A PALAVRA, A HOPE
“A Hope informa que sempre colaborou e continuará colaborando com as autoridades. A empresa tem certeza de que, ao final das apurações, tudo será esclarecido.”

COM A PALAVRA, A ASSESSORIA DE IMPRENSA DO EX-MINISTRO JOSÉ DIRCEU

NOTA 1 – Sobre três maiores pagadores à JD Assessoria e Consultoria

A assessoria do ex-ministro José Dirceu informa que é equivocada e sem qualquer fundamento a afirmação, registrada pelo blog, de que a JD Assessoria e Consultoria teria faturado “R$ 21,3 milhões em depósitos mensais e ininterruptos realizados por apenas três grupos empresariais”.

Embora a reportagem não esclareça quais seriam as três empresas nem a fonte da informação, basta lembrar que a relação e os valores de todos os contratos da JDA tornaram-se públicos quando a Justiça Federal do Paraná levantou, ainda em março, o sigilo sobre as informações, recebendo ampla atenção de toda a mídia nacional.

Entre os três maiores contratos da empresa do ex-ministro, existe apenas uma construtora investigada na Operação Lava Jato, a UTC, que faturou contra a JDA R$ 3,086 milhões, entre 2012 e 2014, conforme contratos e notas fiscais encaminhada à Justiça. A empresa com maior faturamento contra a JDA é um laboratório farmacêutico brasileiro e a segunda, uma multinacional mexicana.

Em nota divulgada na segunda-feira (3), o advogado Roberto Podval também já havia alertado para o cálculo equivocado apresentado pela Polícia Federal sobre os supostos recebimentos ilícitos por meio da JDA. Na coletiva daquela manhã, o delegado Márcio Anselmo afirmou que o montante chegaria a R$ 39 milhões. “Esse é o total faturado pela empresa em 8 anos de atividade, quando atendeu a cerca de 60 clientes de quase 20 setores diferentes da economia”, diz Podval. “Não há qualquer razoabilidade imaginar que os pagamentos de multinacionais de diversos setores da indústria teriam relação com o suposto esquema criminoso na Petrobras.”

Desde 2006, a JDA foi contratada por empresas como a Ambev, Hypermarcas, Grupo ABC, Telefonica, EMS, além dos empresários Carlos Slim e Gustavo Cisneros. Todos, quando procurados pela imprensa, confirmaram a contratação do ex-ministro para orientação de negócios no exterior ou consultoria política.

NOTA 2 – Sobre o escritório Unicon Contabilidade

A assessoria do ex-ministro José Dirceu informa que a Unicon é a empresa responsável pela contabilidade da JD Assessoria e Consultoria desde sua fundação. Os pagamentos à Unicon são relativos aos serviços prestados em todo o período.

NOTA 3 – Sobre contrato com empresa de Zaida Sisson

A assessoria do ex-ministro José Dirceu refuta com veemência a ilação, apontada por investigadores da Operação Lava Jato, segundo registra este blog, da existência de “uma triangulação entre a JDA e a consultora Zaida Sisson em um esquema de propina oculto em forma de consultoria”.

“Não há nada mais inverossímil. Pelo contrário, a parceria com a consultora Zaida Sisson só comprova, além da documentação já apresentada pela defesa, que o ex-ministro efetivamente prestou consultoria, no Peru, para construtoras investigadas na Lava Jato”, afirma o advogado Roberto Podval. “O detalhamento do trabalho prestado pela JDA e por Zaida Sisson depõe contra a tese dos investigadores de que os contratos do ex-ministro com as empreiteiras seriam mera fachada para recebimentos ilícitos oriundos da Petrobras”.

Zaida Sisson trabalhou em parceria com o ex-ministro na prospecção de negócios no Peru para clientes da JD Assessoria e Consultoria, conforme a defesa de José Dirceu vem afirmando publicamente desde janeiro. No período de parceria, a empresa de Zaida Sisson no Brasil, a Blitz Trading recebeu da JDA R$ 364,3 mil por seus serviços prestados.

A JDA prestou consultoria no Peru às construtoras Engevix, OAS, Galvão Engenharia e UTC, que já reconheceram publicamente a razão da contratação. Todas as informações sobre os contratos foram encaminhadas pela defesa do ex-ministro à Justiça Federal do Paraná.

 

 

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