Delator relata propina em pacotes de R$ 30 mil a ex-dirigentes da Eletronuclear

Delator relata propina em pacotes de R$ 30 mil a ex-dirigentes da Eletronuclear

Fernando Carvalho, ligado à Andrade Gutierrez, revelou que dinheiro foi entregue em um café no Botafogo Praia Shopping, na zona sul do Rio

Julia Affonso e Fausto Macedo

19 de julho de 2016 | 07h37

LINS0957 - RJ - 10/12/2015 - DEMISSÕES EM ANGRA/ESPECIAL - ECONOMIA OE - (ESPECIAL) - Obras paralizadas da construção da Usina de Angra 3 em Angra dos Reis litoral sul do Rio de Janeiro. Após sofrer o baque das paralisações das obras de Angra 3, sob investigação por suspeita de formação de cartel das empreiteiras participantes do consórcio Angramon, a cidade de Angra dos Reis, na Costa Verde do Rio de Janeiro, foi abalada novamente pelas demissões no estaleiro Brasfels, um dos últimos que resistia à crise na Sete Brasil. A Sete encomendou as sondas que estavam sendo construídas pelo estaleiro, agora paralisado, e seriam alugadas pela Petrobras. A cidade teme que essas demissões afetem a atividade econômica na cidade de Angra, já que só o estaleiro pretende dispensar 2 mil pessoas até o fim de dezembro. A estimativa do governo municipal é que há cinco empregos indiretos para cada trabalhador no Brasfels. Não é a primeira cidade do Rio que fica à deriva após cancelamento de projetos envolvendo a Petrobras. O episódio lembra o ocorrido com Itaboraí, na região metropolitana do Rio, após a demissão de diversos trabalhadores do Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj). Foto: FABIO MOTTA/ESTADÃO

Obras paralizadas da construção da Usina de Angra 3 em Angra dos Reis litoral sul do Rio de Janeiro. Foto: FABIO MOTTA/ESTADÃO

Um dos delatores da Operação Pripyat, o executivo Fernando Carvalho, ligado à Andrade Gutierrez, afirmou que pagou propina a três ex-diretores da Eletronuclear pessoalmente, em pacotes de dinheiro. O empreiteiro citou como beneficiários o ex-diretor de Administração e Finanças Edno Negrini, o ex-diretor de Planejamento, Gestão e Meio Ambiente Persio Jordani e o ex-superintendente de Gerenciamento de Empreendimentos Luiz Messias.

Os três ex-dirigentes da subsidiária da Eletrobrás estão presos preventivamente desde 6 de julho quando a operação foi deflagrada. O Ministério Público Federal afirma que o alto escalão da Eletronuclear pegou R$ 26,4 milhões em propinas das obras da Usina de Angra 3. O ex-presidente da estatal Othon Pinheiro e cinco ex-dirigentes dos cargos mais importantes da subsidiária da Eletrobrás teriam recebido valores ilícitos de obra de R$ 1,2 bilhão, segundo força-tarefa dos procuradores.

Na decisão que deflagrou a Operação Prypiat, em 6 de julho, o juiz Marcelo Bretas, da 7ª Vara Federal Criminal, do Rio, anotou. “Fernando Carvalho disse que pagou pessoalmente a propina de Edno Negrini, Pérsio Jordani, Luiz Messias em pacotes de dinheiro com valor estimado em R$ 30 mil em aproximadamente cinco encontros com cada um, realizados no período de maio de 2010 a maio de 2011. Fernando Carvalho foi responsável pelos pagamentos em dinheiro após maio de 2011 até maio de 2013.”

Parte da propina paga pela Andrade Gutierrez, segundo a Procuradoria da República, foi dividida entre cinco ex-dirigentes do alto escalão da estatal. A investigação mostra que ele dividiram 1,2% do valor total da obra: ex-diretor técnico Luiz Soares (0,3%), Edno Negrini (0,3%), Persio Jordani (0,2%), Luiz Messias (0,2%) e ex-superintendente de Construção José Eduardo Costa Mattos (0,2%).

“Em relação ao pagamento de propina aos demais funcionários da Eletronuclear, o acerto foi feito em dinheiro; que, logo após a retomada do contrato, o depoente se reuniu com cada um separadamente, Luiz Messias, Edno Negrini e Persio Jordani, reconhecendo o compromisso de pagamento de propina acertada; … que para Edno e Pérsio o dinheiro era entregue em um café em um encontro mais rápido, podendo ser no Botafogo Praia Shopping ou uma cafeteria comum de shopping”, afirmou Fernando Carvalho na delação.

Cálculos do Ministério Público Federal apontam que Luiz Soares e Edno Negrini receberam até R$ 3,6 milhões e Luiz Messias, José Eduardo Costa Mattos e Persio Jordani receberam até R$ 2,4 milhões em propinas da construtora. O cálculo pode até estar subestimado considerando que foram identificados pagamentos da Andrade Gutierrez para a Flexsystem no valor de R$ 5 milhões.

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