Delator relata entrega de dinheiro a ‘caixa do Jaques Wagner’

Delator relata entrega de dinheiro a ‘caixa do Jaques Wagner’

Veja depoimento de empresário Mário Suarez, que revelou acerto e repasse de propina a petistas por obra na Bahia de prédio para a Petrobrás

Ricardo Brandt e Fausto Macedo

22 de janeiro de 2021 | 08h18

O delator Mário Seabra Suarez , um dos donos da empreiteira baiana Mendes Pinto Engenharia (MPE), detalhou em depoimento à Justiça Federal, em Curitiba, prestado no final de 2020, a entrega de propina a Carlos Daltro, apontado como o “caixa do Jaques Wagner”, senador do PT que foi ministro da Casa Civil e governador da Bahia.

O valor era parte de um acerto de R$ 9,6 milhões de corrupção, no contrato de construção do prédio sede da Petrobrás, em Salvador, assinado no fim do segundo mandato do ex-presidente Lula e véspera da eleição de Dilma Rousseff. O esquema envolveu as empreiteiras OAS e Odebrecht e dirigentes petistas da Petrobrás e da Petros (fundo de pensão dos servidores da estatal) e é alvo de uma ação penal da Lava Jato, em fase final.

“Os pagamentos ao PT Bahia, eles também não chegaram a ser os R$ 3,2 milhões (acordados), foi bem menos, e esses pagamentos foram feitos a uma pessoa chamada Carlos Daltro, é conhecido como caixa do Jaques Wagner”, afirmou o empresário, ao ser interrogado pelo juiz federal Luiz Antonio Bonat, titular da Operação Lava Jato, em Curitiba.

Suarez detalhou no depoimento prestado por videoconferência ao juiz da Lava Jato, em 25 de novembro de 2020, as entregas de valores feitas ao aliado de Wagner – o petista não é réu nessa ação penal. Seria uma pequena parte de um total de R$ 3,2 milhões, destinados ao “PT da Bahia”.

“Eu, pessoalmente, cheguei a entregar duas vezes ao Carlos Daltro o valor de R$ 75 mil cada uma delas, uma delas, ele esteve no meu escritório e outra eu estive no escritório dele levando o dinheiro, R$ 75 mil.” No interrogatório, Suarez diz que os pagamentos ao PT da Bahia eram feitos pelo sócio Paulo Affonso Mendes Pinto, no Edifício Salvador Trade, onde ficava seu escritório.

Réu no processo da Lava Jato, que está em fase final, Suarez fez acordo de delação premiada em 2019 e confessou que a Mendes Pinto fraudou a concorrência e foi contratada para gerenciar a construção do prédio, o Edifício Torre Pituba – que foi pago pela Petros e seria alugado para a Petrobrás.

O papel da MPE era contratar o projeto de engenharia e as construtoras que realizaram a obra: OAS e Odebrecht. Um negócio total de R$ 320 milhões, dos quais 6% – equivalente a R$ 19,2 milhões – seriam destinados a empresa de Suarez e seu sócio, que teria que devolver 50% do valor para os dirigentes da Petros, da Petrobrás e do PT “nacional e da Bahia”.

Delação Mário Seabra Suarez. Foto: Reprodução

“Por determinação de Vaccari, ficou definido que o valor acima seria repartido da seguinte forma: 1/3 para o PT Nacional, representado por João Vaccari, 1/3 para Petros, representada por Newton Carneiro e Wagner Pinheiro, e Petrobrás, representada por Armando Tripodi, que era chefe de gabinete de Sérvio Gabrielli, e 1/3 para o PT da Bahia, representado por Carlos Daltro, que era caixa de campanha de Jaques Wagner”, registra o termo de delação de Suarez, fechado em 2019, com a força-tarefa da Lava Jato.

Carlos Eduardo Nascimento Daltro é ex-OAS e atual empresário na Bahia, conhecido por sua relação com Wagner. Seu nome também foi citado por delatores da Odebrecht como operador do petista e alvo de outras investigações, como nos contratos da Arena Fonte Nova – os dois tiveram pedido de prisão feito pela Polícia Federal, mas foi negado. Daltro tem sociedade em algumas empresas, como a Graça Participações.

Nem Daltro, nem o senador petista são réus nesta ação penal. Os acusados que serão julgados por Bonat são Tripodi – o ex-chefe de gabinete de Gabrielli, que é do PT da Bahia -, ex-dirigentes da Petrobrás, como Renato Duque, da Petros e do PT, como o ex-tesoureiro João Vaccari e o marqueteiro Valdemir Garreta.

Para Tripodi, teria sido pago R$ 1 milhão, entre fevereiro e novembro de 2010. “R$ 100 mil por mês, por volta disso”, segundo Alexandre Suarez, filho de Mario Suarez e sócio nos negócios. Valor que saiu da terça parte destinada aos dirigentes da Petros e Petrobrás: “foi repassado R$ 1 milhão para o seu Armando Tripodi, que era chefe de gabinete do Sérgio Gabrielli”.

Propinas

Os delatores tiveram papel operacional crucial para o acerto de propinas da OAS e Odebrecht com os dirigentes petistas. A Mendes Pinto e outras empresas de Mário Suarez e Paulo Affonso Mendes Pinto serviram para desvios e repasses de corrupção no negócio da construção do prédio custeada pela Petros para ser locada e servir de sede administrativa da Petrobrás na Bahia. Além de contratos fictícios, fraudes na concorrência, eles confessaram o uso de doleiros, contas na Suíça e outros ilícitos que serviram para ocultar o dinheiro da corrupção.

Delação Mário Seabra Suarez. Foto: Reprodução

A ação tem como réu também o ex-presidente da OAS José Aldemário Pinheiro, o Léo Pinheiro, que virou delator da Lava Jato, no final de 2019, e os responsáveis pelo setor de propinas da empreiteira. Tanto executivos da OAS como da Odebrecht confessaram o acerto e os pagamentos de propina ao PT e aos dirigentes da estatal e da Petros.

O processo em fase final tem além da delação de Léo Pinheiro, a confissão e provas de entrega de propinas na sede nacional do PT, em São Paulo. Pelo menos R$ 2 milhões teria sido pagos no esquema, que vai da eleição de Dilma, em 2010, à Lava Jato, em 2014 e a reeleição da petista.

COM A PALAVRA, O ADVOGADO PABLO DOMINGUES, QUE DEFENDE O SENADOR JAQUES WAGNER

A delação trata de fatos requentados e sem qualquer elemento de corroboração, método já rechaçado pelas Cortes Superiores, por não ser meio de prova válido. No caso em específico, os delatores alegam supostos fatos que sequer teriam presenciado, que souberam “por ouvir dizer” de terceiro já falecido. Portanto, mais uma delação premiada feita em moldes não democráticos e que certamente não deverá ser considerada pelo Poder Judiciário.

COM A PALAVRA, ARMANDO TRIPODI

A defesa de Armando Tripodi não foi localizada até a publicação desta reportagem. Interrogado pelo juiz Bonat, em junho de 2019, Armando Tripodi negou todas as acusações da denúncia. Disse que não teve nenhuma relação com a contratação da obra, nem com a Petros. Afirmou que as mensagens atribuídas a ele não retratam crimes. “Em resumo, o senhor nega totalmente a acusação?”, perguntou Bonat. “Nego totalmente a acusação, doutor.”

Tripodi afirmou nunca ter conversado com “Vaccari sobre negócios da Petrobrás”. “Primeiro eu não tinha nenhuma decisão sobre negócios da Petrobrás, a minha tarefa e minhas conversas com ele era sobre atividades que a chefia de gabinete tinha que responder que era qual era a posição que nós defendíamos perante os projetos legislativos.” “Nunca conversei sobre nenhuma obra. Ou investimento, ou ajuda, ou qualquer coisa.”

Documento

COM A PALAVRA, O ADVOGADO LUIZ FLÁVIO BORGES D’URSO, QUE DEFENDE VACCARI

João Vaccari Neto, por meio de sua defesa, negou envolvimento nos fatos narrados. Em outra ocasião, informou por meio de nota do advogado, o criminalista Luiz Flávio Borges D’Urso, que é vítima de acusações sem prova.

“Mais uma vez se verifica um delator, interessado no acordo para diminuição de sua pena, acusar o Sr. João Vaccari Neto de forma inverídica e destituída de qualquer prova a confirmar a palavra desse delator.

O Sr. Vaccari jamais foi tesoureiro de campanha política de quem quer que seja, sendo tão somente tesoureiro do PT, partido para o qual sempre solicitou doações legais, as quais foram depositadas em conta bancária, com o devido recibo e prestação de contas às autoridades.

Prof. Dr. Luiz Flavio Borges D’Urso
Advogado Criminalista”

COM A PALAVRA, CARLOS DALTRO

A reportagem busca contato com a defesa de Carlos Daltro. O espaço está aberto para manifestações.

COM A PALAVRA, JOSÉ SERGIO GABRIELLI

A reportagem busca contato com a defesa de Carlos Daltro. O espaço está aberto para manifestações.

Assista ao depoimento do delator Mario Suarez ao juiz da Lava Jato

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