Delator relata ‘ameaça velada’ um dia antes de interrogatório da Lava Jato

Delator relata ‘ameaça velada’ um dia antes de interrogatório da Lava Jato

Fernando de Moura, ligado ao PT, que comprometeu o ex-ministro José Dirceu em sua delação, disse que mentiu para o juiz Sérgio Moro, após desconhecido abordá-lo de moto e perguntar sobre netos que vivem no Sul

Julia Affonso, Fausto Macedo e Ricardo Brandt, enviado especial a Curitiba

28 de janeiro de 2016 | 23h48

Fernando Moura. Foto: Reprodução

Fernando Moura. Foto: Reprodução

O empresário e lobista ligado ao PT Fernando Moura, delator da Operação Lava Jato, afirmou nesta quinta-feira, 28, que mentiu diante do juiz federal Sérgio Moro em interrogatório na ação penal que tem como réu o ex-ministro José Dirceu, desdizendo o conteúdo das revelações de sua delação premiada, por ter se sentido vítima de uma “ameaça velada”.

“Um dia antes, eu estava em Vinhedo, de eu vir para a audiência, eu fui trocar minha carta de motorista (…) Saí do despachante, estava na Avenida 9 de Julho uma pessoa me abordou: ‘oi, tudo bem? Como estão seus netos no Sul’. Eu falei: ‘estão bem obrigado’. E o cara falou ‘dá um abraço no Léo (filho) e tchau’”, contou Moura, diante de quatro procuradores da Lava Jato e de dois de seus advogados – que deixaram a defesa do lobista, após o episódio.

Na sexta-feira, 22, Moura foi interrogado no processo em que é réu ao lado de Dirceu e outros alvos da Lava Jato, por corrupção e lavagem de dinheiro na Petrobrás. Diante de Moro, deu a entender que não havia dito o que estava registrado em sua delação premiada, no tocando a participação do ex-ministro na indicação de diretores na estatal e também na sugestão para que ele deixasse o País, durante o escândalo do mensalão.

“Fiquei completamente transtornado com isso.”

Moura disse que ocultou o fato da família e de seus defensores, até ontem, quando sua delação foi colocada sob análise.

“Eu fiquei preocupado porque eles moram em uma cidade pequena que chama Venâncio Aires, que não tem proteção nenhuma.”

Moura foi perguntado sobre a fisionomia da pessoa. “Devia ter mais ou menos uns 40 anos de idade, um pouco maior do que eu, tenho 1 metro e 80, 1 metro e 85, branca. Não conheço, imagino que nem possa ser amigo dos meus filhos, porque eu conheço mais ou menos os amigos do meus filhos, e meus amigos não tem amigos em Vinhedo.”

O delator diz que precisa de uma segunda chance. “Eu interpretei como uma ameaça velada.”
O procurador Roberson Pozzobon, da força-tarefa da Lava Jato, quis saber se ele não perguntou a pessoa se ela não era amiga de seu filho, Léo.

“O sr não perguntou se ele era amigo do seu filho?”

“Não, não perguntei nada, porque ele disse manda um abraço para o Léo e saiu. Na hora eu entrei em choque, porque como é que você me pergunta dos meus netos primeiro, ao invés de perguntar dos meus filhos. Só quem me conhece sabe que eu tenho dois netos no Rio Grande do Sul. Quem não me conhece não sabe.”

Os procuradores perguntaram detalhes sobre a fisionomia da pessoa e do fato. “Devia ter mais ou menos uns 40 anos de idade, um pouco maior do que eu, tenho 1 metro e 80, 1 metro e 85, branca. Não conheço, imagino que nem possa ser amigo dos meus filhos, porque eu conheço mais ou menos os amigos do meus filhos, e meus amigos não tem amigos em Vinhedo.”

Segundo ele, a abordagem aconteceu em Vinhedo – interior de São Paulo e onde fica a residência de José Dirceu -, quando ele tinha saído de um despachante e se dirigia a uma farmácia. “Era umas dez e meia da manhã.”

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