Delator liga ‘pagamentos dos gaúchos’ a doleiro ‘Tonico’

Delator liga ‘pagamentos dos gaúchos’ a doleiro ‘Tonico’

Executivo Valter Lana (foto), da Odebrecht, apontou à Lava Jato um suposto interlocutor do ministro Eliseu Padilha (Casa Civil) e repasses a Paulo Bernardo 'Filósofo', Marco Maia 'Aliado' e outros personagens em 2010

Julia Affonso, Ricardo Brandt e Fausto Macedo

23 de abril de 2017 | 05h55

Valter Lana. Foto: Reprodução

Valter Lana. Foto: Reprodução

À Operação Lava Jato, o executivo Valter Lana, delator da Odebrecht, detalhou como se deu o pagamento de propina sobre obras da Linha 1 da Empresa de Trens Urbanos de Porto Alegre S.A. – Trensurb (São Leopoldo – Novo Hamburgo), no Rio Grande do Sul. Lana entregou o nome de ‘Ibanez’, um suposto interlocutor do ministro da Casa Civil, Eliseu Padilha (PMDB), para receber valores.

Tabela entregue pelo delator aponta pagamento de propina de R$ 1.490.909,00, em 2010.

Documento

Paulo Bernardo ‘Filósofo’ teria recebido R$ 934 mil em quatro parcelas entre novembro de 2009 e outubro de 2010. A tabela aponta cinco pagamentos, entre julho e novembro de 2010, no total de R$ 734 mil a Marco Maia ‘Aliado’. Para Marco Arildo ‘Sucesso’, R$ 260.389,00 em quatro parcelas entre julho e novembro de 2010. Foi destinado, segundo o delator, para Humberto Kasper ‘Jornalista’, um pagamento de R$ 38.718,00 em 21 de setembro de 2010.

“Os pagamentos dos gaúchos, Eliseu Padilha, Marco Maia, Marco Arildo e Kasper, foram todos equacionados através do doleiro Tonico. Esses recursos todos eram distribuídos através do Nilton Coelho. Nunca fiz entrega. Acho eu, tenho certeza que o Nilton se relacionava com os três para entregar esses… Não foi ele que combinou, mas foi ele que fazia”, declarou.

“No caso do Eliseu Padilha, o que eu posso dizer é o seguinte: não era também, mas Nilton entregava para uma pessoa de nome Ibanez. Ibanez trabalhava com ele no escritório político, não sei se trabalha, acho que trabalha até hoje.”

O Ministério Público Federal quis saber se Eliseu Padilha indicou ‘essa pessoa Ibanez’.

“Sim, acho que devia ser uma pessoa de confiança. Eu não posso afirmar se foi só ele, mas ele eu tenho certeza que era a pessoa que Nilton chegou a comentar comigo que tinha estado com Ibanez. Como a turma não me reclamava, entendi que estava tudo ok”, declarou.

“Quem lhe falou o nome dessa pessoa foi o próprio Eliseu Padilha?”, questionou o Ministério Público Federal.

“Foi”, disse Valter Lana.

A Trensurb é uma sociedade de economia mista, vinculada ao Ministério das Cidades e tem por acionistas a União (99,8558%), o Estado do Rio Grande do Sul (0,1116%) e o município de Porto Alegre (0,0326%). Foi criada em 1980 e iniciou sua operação comercial em 1985.

O delator afirmou ter destinado a suposta propina a Paulo Bernardo.

“No caso de Paulo Bernardo ou Filósofo. Paulo Bernardo identificou um empresário de Curitiba, cujo nome é Ernesto Kruger. Esse Ernesto Kruger é um empresário curitibano, a ele que eu passava as tais das senhas. No caso do Paulo Bernardo, o recurso era retirado em São Paulo, era avisado ao Kruger. Tem um shopping em Curitiba, no Alto da XV, em que ele tem alguma função lá nesse shopping. Eu lembro de me encontrar algumas vezes no escritório dele dentro do shopping, subir uma escada. Outras vezes me encontrava na área de alimentação do shopping. É um shopping mais simples. Outras vezes falei por telefone. Falava um endereço, depois passava uma senha”, afirmou.

COM A PALAVRA, O MINISTRO ELISEU PADILHA

“O ministro Eliseu Padilha disse que confia nas instituições brasileiras, razão pela qual registra que tem certeza de que com a abertura das investigações lhe será garantida a oportunidade para exercer amplamente seu direito de defesa.”

COM A PALAVRA, O EX-MINISTRO PAULO BERNARDO

“Paulo Bernardo nega ter feito esse pedido e informa que não teve qualquer conversa com executivos da Odebrecht para tratar da inclusão da obra no PAC. Ela foi incluída de maneira absolutamente lícita e atendendo a reivindicação da bancada federal do RS, sem qualquer participação da empresa Odebrecht. Verônica Sterman, advogada.”

COM A PALAVRA, O DEPUTADO MARCO MAIA

“O deputado desconhece o teor das delações mentirosas feitas pelos delatores da Odebrecht. Repudia a divulgação seletiva e vazada de supostos depoimentos. Reafirma que todas as contribuições para as suas campanhas eleitorais foram realizadas dentro do que prevê a legislação eleitoral e, declaradas ao Tribunal Superior Eleitoral e aprovadas sem nenhuma restrição. O deputado também já autorizou seu advogado para que adote as providências criminais cabíveis contra aqueles que se valem da delação para, imputando falsidades a terceiros, obterem benefícios para si, escapando de suas verdadeiras responsabilidades.”
Assessoria de Comunicação – deputado Marco Maia.

COM A PALAVRA, MARCO ARILDO CUNHA

A reportagem não localizou o empresário. Na semana passada, após a abertura de inquérito, Marco Arildo se manifestou desta forma.

“Não são verdadeiros os fatos relatados em delação premiada, por executivos da Odebrecht, sobre suposta solicitação de recursos escusos para qualquer fim. A execução da obra de extensão da Trensurb seguiu e respeitou todas as condicionantes estipuladas pelo Tribunal de Contas da União para realização da mesma. Tenho todas as contas de minha gestão aprovadas pelos órgãos de controle. Essas são acusações injuriosas, e vou provar minha total inocência e fazer que reparem os danos de imagem e profissional que me causaram. Estou à disposição da Justiça para o cabal esclarecimento dos fatos.”

COM A PALAVRA, A TRENSURB

A Trensurb não se manifesta em relação ao conteúdo das delações.

Quanto à realização da obra em si, ela foi 100% concluída em 2015, com a finalização da atualização tecnológica dos sistemas de controle de tráfego e energia do metrô. O custo final, considerando-se dois aditivos que incluíram serviços complementares, foi de R$ 404.381.407,97 (valor referido à data-base de janeiro de 2001). Esse valor atualizado para 2015, quando do fim da obra, considerando-se os índices de reajuste anual previstos em contrato chegou a R$ 881.049.593,01. Segue um breve histórico do empreendimento:

A licitação para a obra de expansão da Linha 1 da Trensurb – em que o Consórcio Nova Via foi declarado vencedor – teve seu edital publicado em março de 2001 e foi concluída em maio de 2002, mas o Tribunal de Contas da União somente autorizou sua execução em novembro de 2007. Assinado em dezembro de 2007, o contrato com o consórcio teve valor inicial (valor referido à data-base de janeiro de 2001) de R$ 323.977.829,28. A ordem de início de serviços foi emitida em fevereiro de 2008, porém, o início efetivo da execução física da obra ocorreu apenas em fevereiro de 2009, a partir de sua inclusão no PAC.

O prazo contratual inicial era de quatro anos para a execução da obra, mas devido à inclusão de serviços complementares demandados pelos municípios de São Leopoldo e Novo Hamburgo, como a conclusão da Estação Industrial, que teria apenas suas fundações executadas, a canalização do Arroio Luiz Rau e a execução de um novo sistema viário – além da atualização tecnológica do Centro de Controle Operacional da Trensurb e dos sistemas de controle de tráfego e energia, necessária à operação do novo trecho – esse prazo foi estendido. As duas primeiras novas estações tiveram início da operação comercial em julho de 2012 e as outras três em maio de 2014. Os serviços de atualização tecnológica do Centro de Controle Operacional da Trensurb e dos sistemas de controle de tráfego e energia foram concluídos em agosto de 2015.

Os serviços complementares demandados pelos municípios resultaram num aditivo de valor de R$ 75.155.907,36 (preço referido à data-base de janeiro de 2001), enquanto a atualização do Centro de Controle Operacional gerou um aditivo de R$ 5.247.671,33 (preço referido à data-base de janeiro de 2001). Com isso, chegou-se a um total de R$ 404.381.407,97 (valor referido à data-base de janeiro de 2001). O valor final atualizado (2015) do contrato com o Consórcio Nova Via chegou a R$ 881.049.593,01 devido aos reajustes anuais previstos em contrato.
Considerando-se, além do contrato com o consórcio, valores de compensação ambiental, desapropriações, uma nova linha de transmissão de energia e um repasse de recursos à prefeitura de São Leopoldo para a execução de um loteamento para reassentamento de 540 famílias, o valor global do empreendimento chegou a R$ 952.470.528,93.
As empresas que constituíram o Consórcio Nova Via foram: Construtora Norberto Odebrecht S/A, Construtora Andrade Gutierrez S/A, Toniolo Busnello S/A e Trans Sistemas de Transportes S/A.

COM A PALAVRA, HUMBERTO KASPER

A reportagem não localizou Humberto Kasper. O espaço está aberto para sua manifestação.

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