Delator entregou planilha ‘Temer’, documentos e anotação de partilha dos R$ 15 mi de propinas, pagos em 2014

Delator entregou planilha ‘Temer’, documentos e anotação de partilha dos R$ 15 mi de propinas, pagos em 2014

JBS deu detalhes para a Procuradoria-Geral da República dos repasses de propinas feitos em forma de doações oficiais ao PMDB, pagamento de serviços do marqueteiro Duda Mendonça e entregas de dinheiro vivo para Eduardo Cunha

Ricardo Brandt, Fábio Serapião, Fabio Leite, Beatriz Bulla e Julia Affonso

25 de maio de 2017 | 10h00

Responsável pela operacionalização dos pagamentos para políticos do Grupo J&F, o delator Ricardo Saud entregou à Procuradoria-Geral da República (PGR) uma planilha com registro do repasse de R$ 15 milhões para o PMDB na campanha eleitoral de 2014, supostamente por ordem do presidente Michel Temer.

No registro entregue no anexo 31 da delação premiada de Saud, fechada com a força-tarefa da Operação Lava Jato, na PGR, e homologada pelo ministro Edson Fachin, do Supremo Tribunal Federal (STF), há doações oficiais ao partido e R$ 3 milhões relacionado ao ex-deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ) e R$ 1 milhão.

São oito registros de pagamentos, com datas, beneficiários e empresa do grupo que pagou. Na versão contada pelos delatores, os R$ 15 milhões vinham da “conta Dilma”, que chegou a ter US$ 30 milhões à disposição da campanha presidencial, por acerto do dono da J&F Joesley Batista com o ex-ministro da Fazenda Guido Mantega.

O valor teria sido parte da “compra” de apoio dos caciques do PMDB, que envolveu repasses ainda para Renan Calheiros (PMDB-AL), Eunício Oliveira (PMDB-RO), Jader Barbalho (PMDB-PR), entre outros.

No mesmo anexo, Saud entregou aos investigadores uma anotação manuscrita que mostra como foi feita a divisão do valor destinado a Temer.

A anotação de Saud relaciona os R$ 15 milhões a suposto pedido do tesoureiro da campanha de reeleição de Dilma Rousseff, o ex-ministro Edinho Silva.

“Temer: – 15.000.000,00 A pedido Edinho PT”, registra a anotação.

Abaixo do valor total supostamente relacionado à Temer, segue a anotação, há registros de datas – uma delas rasurada – e valores, com os destinatários e pedidos.

Partilha. A anotação manuscrita registra a partilha dos R$ 15 milhões associados a Temer. 

O primeiro registro está associado à data de 29 de agosto de 2014 e tem dois valores. Um deles “R$ 9.000.0000,00 ao PMDB Nacional”. Outro indica “R$ 2 milhões. Campanha Paulo Skaffi (sic), autorizado por Temer, pagar para empresa JEMC, escritório de consultoria de Duda Mendonça, publicitário do mesmo”.

Skaf, presidente da Federação das Indústrias de São Paulo (Fiesp), foi candidato a governador de São Paulo pelo PMDB, apoiado por Temer, e teve como marqueteiro Duda Mendonça, ex-Lula, que deixou o posto após o mensalão.

Sobre esse repasse, o lobista ad J&F em Brasília ainda juntou uma cópia da nota fiscal do pagamento à empresa de Duda Mendonça e uma planilha com o registro da saída na empresa, com uma anotação à caneta “PMDB MT Paulo Skaf”.

Na delação de Joesley, ele entregou uma gravação em que pediu ajuda ao deputado afastado Rodrigo Rocha Loures (PMDB-PR) para conseguir ‘alinhar’ a defesa com o marqueteiro Duda Mendonça sobre a nota de R$ 2 milhões que teria sido paga.

“Eu tenho R$ 2 milhões de nota do Duda”, disse Joesley a Loures. “Tem as notas, não tem é o serviço”, completou. “A minha preocupação é que eu tenho, de alguma forma, encontrar o Duda, para combinar com ele o que falar, porque eu não tenho o serviço”, explicou ao parlamentar afastado, que foi assessor especial da Presidência indicado por Temer até março deste ano.

“Pessoalmente, não tenho relação com o Duda, que eu saiba, o Temer também não tem. Eu sei que o Paulo Skaf tem boa relação com o Duda, e fala com ele”, disse o deputado, referindo-se . “Não sei se você tem relação com o Paulo, mais eu posso falar com o Paulo, e verificar como é que a gente encaminha isso”, sugeriu.

Na conversa com Joesley, Loures indaga o empresário se havia alguma investigação a respeito dos R$ 2 milhões. Ao ouvir que não havia, o deputado recomendou não procurar Duda Mendonça. “É que nem mexer em esterco de vaca seco, vai lá, passa rápido, vai entrar em decomposição, e em um ano não tem mais nada”, disse Loures, ex-assessor de Temer.

Eduardo Cunha e Michel Temer. FOTO: DIDA SAMPAIO/ESTADAO

Cunha. Na planilha “Temer” entregue pelo delator da JBS, consta o valor de R$ 3 milhões, sem data definida, associado à anotação “Transferido p/ EC (Dep Câmara)”. Seria o dinheiro destinado ao ex-deputado Eduardo Cunha, que está preso em Curitiba, pela Lava Jato, desde outubro de 2016.

Na anotação feita à caneta e entregue nesse anexo da delação, também há o registro de pagamento para Cunha e com a data rasurada e detalhes da entrega e ordenamento.

“3.000.000,00 Temer pede para repassar à Eduardo Cunha. Valor entregue em espécie no Rio de Janeiro.”

Os pagamentos de propinas para Cunha, via operador Lucio Funaro – ambos presos – foram o pivô do encontro entre o dono do Grupo J&F Joesley Batista e Temer, no “porão” do Palácio do Jaburu, na noite do dia 7 de março. Com um gravador escondido, o delator registrou conversa com o presidente em que relatou crimes de corrupção e obstrução à Justiça.

 

José Yunes. FOTO: FELIPE RAU/ESTADÃO

Amigo. Por fim, há registro na anotação à caneta feita por Saud de suposto pagamento de R$ 1 milhão entregue ao amigo de Temer José Yunes, que ocupava cargo de assessor na Presidência, até 2016.

No manuscrito, há registro da data 2/9/2014 e, à frente, “Temer pede para entregar ao Sr. Yunes. O valor em espécie Florisvaldo entregou pessoalmente a ele”.

Já na planilha feita em computador, o único valor sem identificação é o de R$ 1 milhão. No campo em que estão anotada a empresa que pagou, consta “Marcelo/MG”, e no campo do destinatário “Vlr em espécie”.

Yunes é amigo pessoal de Temer, foi tesoureiro do PMDB em São Paulo e assessor da Presidência, mas pediu demissão do cargo no finald e 2016, depois de ter o nome citado na mega delação premiada da Odebrecht.

O lobista da empreiteira em Brasília, Claudio Melo Filho, que tinha a mesma função de Ricardo Saud da JBS, disse que por acerto com Eliseu Padilha, de doação feita em benefício de Temer, mandou um envelope com parte de R$ 4 milhões para Yunes em 2014.

Nos documentos de prova entregues por Saud aos procuradores da PGR, o ele registra que o endereço, no entanto, onde foi levado R$ 1 milhão supostamente a pedido de Temer para Yunes, é o da Argeplan Arquitetura e Engenharia, que pertence a outra amigo do presidente, o coronel reformado da Polícia Militar João Baptista Lima Filho.

Em um desses documentos com os endereços da Argeplan, Saud faz uma anotação a caneta na qual diz: “Endereço onde Florisvaldo entregou dinheiro do MT”.

Florisvaldo Oliveira é funcionário do grupo J&F e também assinou acordo de colaboração. Em seu depoimento, ele contou também como entregou valores para Eduardo Cunha, no Rio, para um emissário de nome Altair.

Provas. O material entregue pelos delatores tem ajudado os investigadores a buscar elementos sobre os repasses de propinas da JBS a mando de Temer. O ministro Edson Fachin, relator da Lava Jato no Supremo, autorização abertura de inquérito contra o presidente.

No anexo do depoimento entregue pela defesa de Saud, ele detalha a partilha dois valores e as entregas dos R$ 15 milhões.

As gravações e a delação de Joesley e outros seis executivos da J&F desencadearam na quarta-feira, 17, a Operação Patmos, desdobramento da Lava Jato, que encurralou Temer e presidente e senador afastado do PSDB, Aécio Neves.

Joesley relatou aos procuradores da PGR como conheceu Temer, detalhou os acertos com medalhões do PMDB e explicou como gravou o presidente no Jaburu, em março, quando disse ter buscado uma orientação sobre como proceder em relação aos pagamentos para o ex-presidente da Câmara e seu operador de propinas, que estavam presos e ameaçando fazer delação.

COM A PALAVRA, MICHEL TEMER

O presidente Michel Temer afirmou em entrevista à colunista do Estadão Vera Maglhães, no dia 20, que não vai renunciar à Presidência, se disse vítima de “armação”, negou que tenha participado de um plano para comprar o silêncio do ex-deputado Eduardo Cunha e disse estranhar que a delação da JBS, que o atingiu, tenha sido selada “no momento em que a economia começa a se recuperar”.

Temer disse estar convencido da capacidade de rearticulação política do governo, deu sua versão para o encontro que teve com Joesley Batista, da JBS, em março.

“Esse sujeito me ligou seguidamente, ao longo de vários dias, me pedindo para ser recebido”, afirmou o presidente. Segundo ele, a segurança da Presidência vive repreendendo-o por “atender o celular”. “Eu tenho o hábito, que a segurança do Planalto vive reclamando, de atender o celular, responder mensagem. É um mau hábito pela liturgia do cargo, mas que eu adquiri da experiência parlamentar”, disse Temer.

Segundo ele, depois de muita insistência por parte de Joesley, ele concordou em recebê-lo no Palácio do Jaburu. Questionado sobre o horário tardio da conversa, Temer disse que a razão foi o fato de que, anteriormente, ele compareceu à festa de aniversário da carreira do jornalista Ricardo Noblat. “Disse a ele: estou na festa do Noblat. Se quiser, passa mais tarde no Jaburu. E ele concordou.”

Temer afirmou que já conhecia Joesley, e que tem o costume de receber empresários para conversas. “Já recebi dezenas de empresários. Em São Paulo, no Jaburu, no Planalto. Muitas dessas reuniões acontecem fora da agenda”, disse o peemedebista.

Questionado sobre os assuntos tratados na reunião, alguns deles a confissão de crimes como o suborno a um procurador e supostamente a dois juízes, Temer disse ter atribuído o teor da conversa ao fato de Joesley ser alguém acuado por investigações e contrariado por não obter acesso que tinha antes a altas autoridades do governo. “Logo de cara, vi que ele era um falastrão”, afirmou.

Ele afirmou ter achado “estranho” o teor da conversa, mas que não levou a sério as afirmações. “Mas você veja que comecei a ser cada vez mais monossilábico, quando a conversa dele começou a enveredar para o pedido de que precisaria ter acesso a esse ou aquele setor do governo.”

Temer afirmou que a divulgação do áudio da conversa demonstra que ele não deu aval à compra do silêncio do ex-deputado Eduardo Cunha, conforme se divulgou inicialmente. “Veja que ele diz que está mantendo uma boa relação com ele, e incentivo que deveria manter, apenas isso.”

Sobre o eventual interesse em evitar uma delação de Cunha, Temer evoca o fato de o ex-aliado tê-lo arrolado como testemunha: “Que silêncio do Cunha eu poderia comprar? Se ele me mandou 21 perguntas num processo e 17 em outro, todas claramente tentativas de me incriminar, e o próprio juiz Sergio Moro tratou de indeferir?”.

A respeito da sugestão para que Joesley procurasse o ex-assessor especial da Presidência e deputado afastado Rodrigo Rocha Loures, Temer disse que apenas confirmou uma sugestão do empresário. “Falei que poderia falar com o Rodrigo sobre assuntos do grupo, como poderia falar o Moreira, ou o Padilha”, justificou.

Temer disse acreditar que Rocha Loures “deve ter sido seduzido” pela promessa de receber R$ 500 mil ao longo de 20 anos. Questionado pelo Estadão se tomou conhecimento, em algum momento, da negociação de recursos por Rocha Loures, ou se autorizou a transação, o presidente negou.

Afirmou que o suborno ao deputado foi negociado pela obtenção de um acordo no Cade que foi negado. “O Cade resolveu? Não resolveu! Ele estava desesperado porque a Maria Silvia saneou o BNDES, ele teve de mudar a operação da empresa para outro país porque fechamos a torneira do BNDES”, afirmou o presidente.

Temer atacou os governos do PT e criticou os termos da delação oferecida ao grupo JBS. “Fui vítima de bandidos que saquearam o País nos governos passados e não obtiveram acesso ao nosso. E negociaram um acordo pelo qual querem sair impunes!”, afirmou o presidente, para em seguida dizer que tentará todos os recursos jurídicos para tentar anular o inquérito aberto contra ele no STF, que, segundo sua avaliação, se baseou em provas armadas.

Ele afirmou que não renunciará e que tentará recompor a base de sustentação do governo para aprovar as reformas. “Querem me tirar para continuar com as mesmas reformas que eu propus, com o meu programa. A quem interessa desestabilizar o governo?”, questionou o presidente.

Temer disse “estranhar” que a crise tenha sido “criada” justamente quando a economia começava a dar sinais de reação. E repetiu os dados que dissera no pronunciamento, de que a JBS lucrou com o câmbio e a venda de ações nos dias que antecederam a Operação Patmos.

COM A PALAVRA, ROCHA LOURES

Procurado, o deputado Rodrigo Rocha Loures (PMDB/PR) disse nesta sexta-feira, 19, por meio da assessoria de imprensa, que não iria se manifestar a respeito da delação da JBS.

COM A PALAVRA, SKAF

A campanha de Paulo Skaf ao governo do Estado de São Paulo, em 2014, não recebeu nenhum tostão do grupo JBS. Também não houve autorização para que ninguém solicitasse valores ao grupo. Todos os gastos e doações da campanha foram declarados à Justiça Eleitoral e constam da prestação de contas apresentada ao Tribunal Regional Eleitoral em 2014, sem nenhum reparo.

COM A PALAVRA, DUDA

O marqueteiro Duda Mendonça não foi localizado pela reportagem. Ele já admitiu ao Ministério Público Federal que recebeu recursos de caixa 2 da empreteira Odebrecht para a campanha de Skaf, em 2014. O presidente da Fiesp negou ter havido recursos ilícitos na sua campanha a governador.

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