Delator entregou extratos de contas na Suíça com pagamentos para Duque

Delator entregou extratos de contas na Suíça com pagamentos para Duque

Julio Camargo, operador de propinas na Petrobrás, indicou US$ 10 milhões em depósitos entre 2006 e 2012 para esquema de corrupção da Diretoria de Serviços

Redação

02 de março de 2015 | 20h08

Por Julia Affonso, Fausto Macedo e Ricardo Brandt, enviado especial a Curitiba

O consultor Julio Gerin Camargo, um dos delatores da Operação Lava Jato, entregou à Justiça Federal os extratos bancários de suas contas na Suíça, por onde passaram US$ 10 milhões destinados ao ex-diretor de Serviços Renato Duque e ao seu braço direito, o ex-gerente de Engenharia Pedro Barusco no esquema de corrupção e propina na Petrobrás.

Ao todo, são 59 depósitos, realizados entre dezembro de 2006 e abril de 2012, que totalizam US$ 10.452.005,53 e € 1.410.059,30. Os valores saíram de contas operadas pelo delator, em bancos no exterior, e foram parar em sete contas indicadas por Barusco e Duque.

São sete contas registradas em 6 bancos: Santander Suisse Swift, Lloyds Bank, Credit Suisse, Banco Cramer, Commerzbank e Deutsche Bank.

Cópia de extrato de conta na Suiça que delator diz que usou para pagar propina a Renato Duque

Cópia de extrato de conta usada por delator para pagar propina

As contas que foram usadas para Camargo pagar propina a Duque e Barusco foram Rheem Peak, Torrey Corporation, Korat Investen, Sharky, Drenos, Maranelle e Maynard Services.

A conta preferencial usada por Duque e Barusco foi a Rheem Peak no Banco Santander Suisse Swift, na qual foram feitos 29 depósitos.


Ao todo, o delator afirmou que movimentou US$ 74 milhões em propinas e consultorias nas contas no exterior, entre 2005 e 2012, em nome de suas empresas offshores, como a Treviso e Piemonte. Camargo era consultor no Brasil das gigantes japonesas Toyo Engiineering Corporation e a Samsung Heavy Industries, na intermediação de contratos com a Petrobrás – esta última, alvo de propina na construção de navios-sondas.

Para identificar os repasses que diziam respeito à propina da Diretoria de Serviços – cota do PT no esquema – entre o total movimentado por ele no exterior, Camargo entregou oito tabelas em que separou quais valores eram referentes aos pagamentos, para facilitar a identificação dos valores dentro dos extratos. Uma dessas tabelas é a de “Renato Duque/Pedro Barusco”. Os repasses variavam entre US$ 20 mil e até US$ 900 mil e € 122 mil e € 154.016,29. Duque e Barusco receberam 27 depósitos em 2007, ano em que houve o maior número de transações. A maior parte do dinheiro foi mandada pela empresa Piemonte.

As planilhas mostram ainda diversos valores iguais repassados no mesmo dia ou em datas próximas. Em 13 de fevereiro de 2009, por exemplo, a Piemonte repassou a um banco em Genebra duas parcelas de € 152.006,68. Em uma semana, em 20 e 27 de agosto de 2009, Camargo depositou na Suíça US$ 450 mil e US$ 475 mil, respectivamente.

Cópia de extrato de conta no Uruguai usada por delator Julio Camargo

Cópia de extrato de conta no Uruguai usada por delator Julio Camargo

Réu confesso. Barusco, ex-gerente de Engenharia e braço direito de Duque, firmou acordo de delação premiada também em dezembro do ano passado, depois de Camargo ter revelado seu envolvimento. Disse que era uma espécie de contador da propina paga a Duque, no período do esquema. Barusco entregou também quatro planilhas à força-tarefa da Lava Jato indicando a totalidade de contratos alvo de propina na área de Serviços.

O dossiê Barusco revela que os desvios ocorreram entre 2003 e 2011, durante os dois primeiros governos do ex-presidente Lula e o primeiro ano da gestão Dilma Rousseff, ambos do PT.
 Naquele período, segundo registra o documento, a estatal firmou 87 contratos em valores globais de R$ 47,1 bilhões e US$ 12,92 bilhões (R$ 35,4 bilhões, pela cotação desta quinta-feira, 5).
Renato Duque, preso em 14 de novembro pela Lava Jato, foi solto dias depois, por decisão do Supremo Tribunal Federal (STF). Braço estratégico do PT no esquema de corrupção na Petrobrás, o ex-diretor de Engenharia é o próximo agente público a ser denunciado pela Lava Jato por corrupção, lavagem de dinheiro e organização criminosa.
Ele nega qualquer envolvimento com esquema de corrupção. Tem reiterado que nunca exigiu nem recebeu vantagens indevidas e nega envolvimento com o cartel de empreiteiras beneficiadas nos contratos da estatal.