Delator entrega à Lava Jato ‘conversas’ com marqueteiro do PMDB

Delator entrega à Lava Jato ‘conversas’ com marqueteiro do PMDB

Leandro Andrade, da Odebrecht, afirma que foram pagos R$ 11,6 milhões à agência Prole, responsável pela campanha peemedebista no Rio, em 2012

Julia Affonso, Luiz Vassallo e Fausto Macedo

25 de abril de 2017 | 10h30

mensagem

mensagem1
Um dos delatores da Odebrecht na Operação Lava Jato, o executivo Leandro Andrade entregou aos investigadores mensagens trocadas em 2012 com o dono da agência Prole, Renato Pereira, responsável pela campanha do PMDB no Rio. Segundo o delator, as mensagens se referem à entrega de R$ 11,6 milhões em espécie, entre junho e agosto daquele ano, ordenada pelo então secretário da Casa Civil, Pedro Paulo (PMDB), da gestão Eduardo Paes (PMDB).

“Eu me lembro de ter trocado com o Renato BBMs (mensagens), porque como era um valor muito significativo, que eu nunca tinha feito, a chance de dar errado o planejamento era muito grande”, relatou o delator.

O executivo disse que ‘aconteceram atrasos, aconteceram problemas de entrega’ dos valores.

“Eu tenho algumas dessas cópia dessas trocas de mensagens do Renato, ele me cobrando, dizendo que o doleiro não foi, que houve problema na entrega”, declarou.

Andrade afirmou que Renato Pereira recebeu os valores do Setor de Operações Estruturadas, o departamento de propinas da Odebrecht.

O executivo narrou à Lava Jato que este valor fazia parte de um montante de R$ 23 milhões acertados pelo executivo-delator da empreiteira Benedicto Junior, o ‘BJ’, no primeiro semestre daquele ano, com Eduardo Paes como contribuição eleitoral para a campanha à sua reeleição para a prefeitura do Rio.

Documento

O propósito para os pagamentos feitos, afirmou o delator, ‘era manter o acesso privilegiado da companhia a agenda de Eduardo Paes, permitindo que pudéssemos tratar diretamente com ele, sem burocracia ou qualquer dificuldade, sobre atrasos de pagamentos ou qualquer problema na execução de nossos contratos’.

Uma das mensagens entregue pelo delator é de 3 de julho de 2012. Renato escreve a Leandro. “Bom dia! Nossas apresentações serão novamente quinta e sexta?”

O executivo da Odebrecht retorna. “Pedi para a partir de agora ser sempre quarta!! Vai ser sempre naquele endereço? Assim checo com o contato e já passo as informações!!”

Em seguida, o dono da Prole afirma. “Sim. Lá mesmo. Obrigado.”

Em 6 de agosto daquele ano, uma nova troca de mensagens.

“Olá. Tudo bem? A reunião q havia não aconteceu. E ateh agora não remarcaram. Abs”, escreve Renato a Leandro.

“Esta prog para essa semana ! ! So falata (sic) confirmarem se quarta ou quinta, ok?”, responde o executivo da Odebrecht.

Acerto. Leandro Andrade relatou à Lava Jato que Pedro Paulo pediu pagamentos destinados a Renato Pereira no primeiro semestre de 2012, em reunião no Palácio da Cidade, prédio onde o prefeito despacha e faz reuniões em Botafogo, no Rio.

“Nessa reunião, ele (Pedro Paulo) me pediu que dentro dos valores que o Eduardo Paes fosse pago, nesse valor que era para ser pago para a campanha, ele gostaria que eu fizesse um pagamento para a empresa de marketing da campanha, uma empresa chamada Prole, cujo dono chama-se Renato Pereira. Eu não conhecia o Renato, não me lembrava de ter conhecido em nenhum lugar. Eu perguntei para ele como eu entraria em contato com o Renato. Nesse momento, ele falou: ‘não se preocupe, ele está aqui na sala ao lado’. O Renato já estava na sala esperando, ele mandou o Renato entrar. Fizemos pagamentos. Combinei na frente do Pedro Paulo, entre eu, Pedro Paulo e Renato, que pagamentos iam ser feitos através de caixa 2, recursos não contabilizados. O Renato Pereira me pediu, me deu o endereço da Prole, me disse que iria receber esses recursos, ele mesmo ia receber esses recursos na agência de publicidade dele que fica na Urca”, detalhou o delator.

“Após a conversa com o Renato, o Renato saiu da sala e ainda tinha ficado um saldo a programar com o Pedro Paulo. Ele me disse que num segundo momento me daria as informações do que fazer com isso.”

Segundo o delator, o valor entregue ao publicitário ‘seria sempre em espécie, sempre em caixa 2’. Leandro Andrade disse que operacionalizou os pagamentos por meio do Setor de Operações Estruturadas, o departamento de propinas da Odebrecht.

“Eu mandava os e-mails para a Lucia (Tavares, secretária), dando o endereço do Renato, na Urca ou no Jardim Botânico, dizendo o dia e o valor que ia ser. Teve alguns problemas e o Renato precisou me contatar através de BBM”, declarou.

Além do pagamento à agência Prole, o delator apontou pagamentos no exterior a pedido de Pedro Paulo. A solicitação foi repassada em um envelope ‘entregue por portador’, segundo Leandro Andrade.

“Ele (Pedro Paulo) tinha um valor, ele usou X desse valor para pagar ao Renato Pereira, sobrou um saldo, ele não tinha ainda um planejamento dele do que fazer desse saldo, falou que me contataria depois para fazer isso. Um dos contatos foi: ‘Estou mandando o portador te levar um documento’. Esse documento era uma conta corrente para depositar com um valor”, afirmou.

O primeiro pagamento, segundo o delator, no exterior, foi feito em julho de 2012.

“Recebi um envelope e um desses valores era um depósito no exterior. Depósito no exterior somando US$ 5,7 milhões. Eram duas empresas, duas contas correntes.”

De acordo com Leandro Andrade, houve ainda uma terceira solicitação.

“O Pedro Paulo mandou também, uma segunda vez, um portador com uma mensagem que eu deveria pagar o valor para dois candidatos que fazia parte da base de apoio dele: um era o Brizola Neto, eu não conheci, não sei se foi ele ou quem que ele mandou pegar, mas a interlocução foi que ele deveria retirar esse valor no nosso escritório, e o outro foi uma candidata chamada Cristiane brasil, em chamou a atenção porque ela era do PDT, filha daquele Roberto Jefferson”, afirmou.

COM A PALAVRA, A AGÊNCIA PROLE

A reportagem ligou para a agência Prole, deixou recado e os contatos. O espaço está aberto para manifestação.

COM A PALAVRA, A ASSESSORIA DE IMPRENSA DO DEPUTADO PEDRO PAULO E DO EX-PREFEITO EDUARDO PAES
Conforme foi afirmado pelos próprios delatores em nenhum momento a empresa recebeu qualquer tipo de vantagem ou benefício em obras da Prefeitura do Rio. Além disso, Benedicito Junior foi enfático ao afirmar em seu depoimento que nunca pagou propina a Eduardo Paes.

COM A PALAVRA, A DEPUTADA CRISTIANE BRASIL

“O STF não solicitou investigação contra mim e não há nada a meu respeito senão um comentário sem qualquer prova feito por um dos delatores da operação. Esclareço que os poucos contatos que já tive com profissionais da companhia se limitaram a raros eventos institucionais. Estou, como sempre estive, à disposição da justiça e da sociedade para esclarecer o que for necessário.”

COM A PALAVRA, O VEREADOR BRIZOLA NETO

“Me causou perplexidade e revolta a matéria veiculada na imprensa citando meu nome como ‘possível destinatário’ em esquema de corrupção. Baseada em uma simples suposição, a matéria dá a entender que eu teria recebido dinheiro do ex-prefeito Eduardo Paes para a minha campanha. Na ocasião estava no PDT e rompi com o partido fundado por meu avô justamente por não concordar com a aliança com Eduardo Paes. Inclusive fui processado por Paes e pelo então secretário Pedro Paulo pelas inúmeras denúncias que fiz sobre seus desmandos durante meu segundo mandato como vereador da cidade do Rio de Janeiro. Sempre pautei minha atuação pelo exemplo de ética, honestidade e respeito ao povo aprendido com meu avô Leonel Brizola. É lamentável que estejamos vivendo tempos no Brasil em que reputações são enxovalhadas pela prática que se tornou comum de denuncismos sem provas. Reitero que nunca me envolvi em nenhum tipo de negociata e estou à disposição para prestar qualquer esclarecimento. Vereador Leonel Brizola Neto”

Tudo o que sabemos sobre:

operação Lava JatoOdebrechtEduardo Paes

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.