Delator diz que repassou R$ 4 mi para Dirceu via lobista e irmão de ex-ministro

Delator diz que repassou R$ 4 mi para Dirceu via lobista e irmão de ex-ministro

Julio Camargo disse à Justiça Federal que o ex-diretor da Petrobrás Renato Duque o autorizou a pagar o valor para ex-ministro da Casa Civil por meio de Milton Pascowitch e do advogado Luiz Eduardo, irmão e sócio de José Dirceu

Redação

15 de julho de 2015 | 13h17

José Dirceu. Foto: André Dusek/Estadão

José Dirceu. Foto: André Dusek/Estadão

Por Fausto Macedo, Ricardo Brandt, enviado especial a Curitiba, e Julia Affonso

O lobista Julio Gerin Camargo, um dos delatores da Operação Lava Jato, afirmou em interrogatório à Justiça Federal na terça-feira, 14, que o repasse de R$ 4 milhões ao ex-ministro José Dirceu (Casa Civil – Governo Lula) foi feito por meio do lobista Milton Pascowitch e do irmão de Dirceu, o advogado Luiz Eduardo de Oliveira e Silva. Esta é a primeira vez que Camargo cita pagamento de propina para Dirceu.

O ex-ministro é investigado na Lava Jato. Ele e Luiz Eduardo foram sócios da JD Assessoria e Consultoria, empresa sob suspeita da Lava Jato por lavagem de dinheiro de propinas do esquema Petrobrás.

“Eles tinham uma conta corrente comigo, o dr. Renato Duque (ex-diretor de Serviços da Petrobrás) e o dr. Pedro Barusco (ex-gerente da estatal) e dessa conta corrente me foi autorizado a repassar R$ 4 milhões ao dr. José Dirceu, que foi repassado em reais através do seu Milton Pascowitch, pelo que eu me lembro, e talvez em uma ocasião através do irmão dele (Dirceu), Luiz”, afirmou ao juiz federal Sérgio Moro, que conduz as ações da Lava Jato.

Milton Pascowitch, também apontado como lobista no esquema Petrobrás, foi preso pela Lava Jato em 21 de maio. Ele fez delação premiada na qual cravou que o ex-ministro recebia propinas disfarçadas de consultoria. Acusado de operar pagamentos de propina para a empreiteira Engevix, Pascowitch é dono da Jamp Engenheiros e pagou R$ 400 mil do imóvel comprado por José Dirceu, onde funcionava a sede da empresa de consultoria do ex-ministro em São Paulo.

VEJA A ÍNTEGRA DO DEPOIMENTO DE JULIO CAMARGO

O delator depôs como testemunha de acusação no processo em que são réus Renato Duque, o ex-tesoureiro do PT João Vaccari Neto e outros 25 acusados por lavagem de dinheiro. Julio Camargo, que era lobista da Camargo Corrêa e do grupo japonês Mitsui, foi o segundo a ser ouvido nesta terça-feira, em Curitiba, por Moro.

Ele contou que conheceu Dirceu e definiu o relacionamento entre Dirceu e Duque como profissional.

“Havia várias conversas, uma que era parente, o dr. Renato Duque parente do dr. José Dirceu. Evidentemente, como o dr. José Dirceu era na época ministro-chefe da Casa Civil, depois como uma das principais pessoas do partido e como o cargo de diretor de Enegnharia e Serviços era um cargo, era razoavelmente de se entender que o dr. Duque devia um grande respeito ao dr. José Dirceu”, disse Camargo. “Diria que era um relacionamento, primeiro lugar profissional, interesse do dr. José Dirceu em saber como andava a Petrobrás, onde tinha o dr. Renato Duque como um participante da companhia, pessoa aproximada a ele. E, no meu caso específico, o dr. Renato Duque autorizou que fosse repassado ao dr. José Dirceu um valor de R$ 4 milhões”.

No processo, Barusco, Julio Camargo e outros delatores são réus por corrupção e lavagem de dinheiro nas obras de duas refinarias (Repar, no Paraná, e Replan, no interior de São Paulo) e em dois gasodutos.

COM A PALAVRA, O CRIMINALISTA ROBERTO PODVAL, DEFENSOR DE JOSÉ DIRCEU

O advogado Roberto Podval, que coordena o núcleo de defesa de José Dirceu, reafirmou nesta quarta-feira, 15, que o ex-ministro-chefe da Casa Civil no governo Lula ‘não recebeu esses R$ 4 milhões’. “Nem Dirceu, nem seu irmão (o advogado Luiz Eduardo).”

“Reitero categoricamente que Dirceu nem seu irmão receberam esse valor”, afirmou Podval.

O criminalista assinalou que todos os valores recebidos pela JD Assessoria e Consultoria, empresa do ex-ministro, foram contabilizados.

Podval levantou a hipótese de que podem ter usado o nome de Dirceu. “Não posso afirmar se não usaram o nome dele para alguém receber dinheiro. Eu posso afirmar que Zé Dirceu não recebeu, não conhece a história, nem do Pascowitch, nem de ninguém. Não houve esse pagamento para Dirceu. O Zé afirmou para mim que não recebeu nada, nada desse dinheiro.”

“De fato, não tem sentido. Ele (Dirceu) montou a consultoria e o acusam de ter usado a JD para receber dinheiro de propinas. Então, não tem nenhum sentido receber (R$ 4 milhões) e não contabilizar.”

O criminalista Théo Dias, que defende Milton Pascowitch, tem reiterado que não pode se manifestar porque a delação premiada de seu cliente corre sob sigilo.

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