Delator diz que Pasadena poderia ‘honrar compromissos políticos’ de Gabrielli

Delator diz que Pasadena poderia ‘honrar compromissos políticos’ de Gabrielli

Agosthilde Mônaco de Carvalho, homem de confiança de Cerveró, afirmou que antes do fechamento do contrato de compra da refinaria, "o presidente Gabrielli já havia indicado a Construtora Norberto Odebrecht para realizar o Revamp (Renovação do Parque de Refino)"

Julia Affonso, Ricardo Brandt e Fausto Macedo

16 Novembro 2015 | 12h46

José Sérgio Gabrielli, ex-presidente da Petrobrás. Foto:  Tasso Marcelo

José Sérgio Gabrielli, ex-presidente da Petrobrás. Foto: Tasso Marcelo

Atualizada às 18h33

Novo delator da Operação Lava Jato, o engenheiro Agosthilde Mônaco de Carvalho declarou à força-tarefa do Ministério Público Federal que o ex-diretor da área Internacional da Petrobrás Nestor Cerveró lhe disse que a compra da refinaria de Pasadena, nos EUA, poderia ‘honrar compromissos políticos’ do então presidente da estatal José Sérgio Gabrielli. “De acordo com as informações fornecidas por Nestor Cerveró, este negócio atenderia ao interesse de Gabrielli em realizar o Revamp (Renovação do Parque de Refino) e ao interesse da área internacional em adquirir a Refinaria”, declarou Mônaco.

Nesta segunda-feira, 16, a Polícia Federal deflagrou a Operação Corrosão, 20ª fase da Lava Jato. A nova etapa da investigação mira em Pasadena, caso emblemático da corrupção instalada na Petrobrás. Segundo o Tribunal de Contas da União, a compra da refinaria causou um prejuízo de US$ 792 milhões.

[veja_tambem]

Segundo o delator, Cerveró afirmou que antes mesmo do fechamento do contrato de compra de Pasadena, “o presidente Gabrielli já havia indicado a Construtora Norberto Odebrecht para realizar o Revamp para 200.000 barris/dia”.

“O diretor Nestor, em tom de desabafo, disse ao depoente que o presidente Gabrielli estava muito interessado em resolver o assunto e dar a obra do Revamp para a Odebrecht”, relatou.

monaco-delacao

Homem de confiança de Cerveró, o engenheiro Agosthilde Mônaco de Carvalho contou que no final de 2004 recebeu determinação do então diretor de Internacional para localizar refinarias de petróleo que estivessem à venda nos Estados Unidos para compra pela Petrobrás. Segundo ele, na época era parte do plano estratégico da companhia o escoamento da produção excedente de petróleo para o exterior.

Agosthilde Mônaco de Carvalho afirmou que em janeiro de 2005, durante um telefonema com o presidente da Astra Oil Alberto Failhaber, então proprietária de Pasadena, soube que a empresa tinha acabado de adquirir a refinaria e teria interesse em revendê-la.

“Nesta ligação o Sr. Alberto Failhaber, perguntado sobre as condições da refinaria, disse que a mesma precisava “tomar um banho de loja” para ficar nos padrões de qualidade técnica da Petrobrás, uma vez que ela foi comprada na “bacia da almas”, posto que o antigo proprietário (Crown), por problemas financeiros, quase não mais investia em manutenção preventiva, os equipamentos estavam desgastados e mal conservados, tinham problemas de segurança operacional, a mão de obra desmotivada e, principalmente, sem crédito para aquisição de óleo, matéria prima operacional”, declarou.

monaco-delacao2

O delator contou à força-tarefa da Lava Jato que levou essas informações a Cerveró. Segundo ele, o então diretor da Petrobrás disse, ‘abrindo um sorriso’: “Nós também podemos comprar esta refinaria na bacia das almas, pois a Astra, sendo uma empresa de trading não tem estrutura técnica nem capital para fazer um adequado investimento, além do mais, se chegarmos a um acordo com ela (Astra), um Revamp da refinaria deixará bastante satisfeito o presidente da Petrobrás, pois sei que ele tem alguns compromissos políticos a saldar, portanto com Pasadena mataremos dois coelhos com uma única cajadada: refinar o óleo de marlim nos Estados Unidos e o presidente Gabrielli poder honrar seus compromissos políticos.”

O braço-direito de Cerveró afirmou à força-tarefa da Lava Jato que uma comissão visitou a refinaria de Pasadena para avaliação. “Nesta visita, ocorrida entre os dias 29 a 31 de março de 2005, verificou que a mesma realmente encontrava-se em péssimas condições de conservação, se comparada às refinarias brasileiras e que seriam necessárias várias reformas na Refinaria para que ficasse em boas condições; que todos os membros da comissão observaram que a Refinaria não estava em boas condições; que foi elogiada a localização física, mas não a condição operacional da Refinaria; que ao retornar ao Brasil comunicou esses fatos ao Diretor Nestor e recebeu a mesma informação, “não se meta, Mônaco, isso é coisa da Presidência”.

monaco-delacao3

Agosthilde Mônaco de Carvalho declarou ainda que Cerveró lhe mostrou um e-mail, datado de 25 de maio de 2006, encaminhado pelo então diretor de Serviços da Petrobrás Renato Duque – braço do PT na estatal – no qual ‘o responsável da Construtora Norberto Odebrecht relata o convite às outras construtoras para dividirem a obra de Revamp da refinaria de Pasadena’.

“As outras construtoras convocadas para a rodada eram Andrade Gutierrez, Camargo Corrêa, Queiroz Galvão e Ultratec; que o sr. Alberto Failhaber contou ao depoente, em uma das visitas que fez a sede da Petrobrás, que tentaram “empurrar goela abaixo” o Revamp de 200.000 barris/dia e a contratação da Construtora Norberto Odebrecht para fazer a obra”, relatou o delator.

COM A PALAVRA, JOSÉ SÉRGIO GABRIELLI

Reafirmo que a aquisição da Refinaria de Pasadena em 2006 foi uma operação coerente com o Plano de Negócios da Companhia, em vigor desde 1997, com orientações estratégicas para um mercado brasileiro de combustíveis, que não crescia desde aquele ano, mas tinha perspectivas de aumentar a produção do seu petróleo Marlim. Nos EUA havia um boom de aquisições de refinarias com baixa capacidade de processamento de petróleo pesado, para que o comprador, geralmente produtor de petróleo pesado, fizesse os investimentos necessários para processar este tipo de petróleo e capturar as margens relevantes. Assim orientava o Plano de Negócios da Petrobras aprovado pelo Conselho de Administração antes de 2003.

A Refinaria foi adquirida por um valor de cerca de 7900 dólares por barril de capacidade de destilação, no ano em que as 11 operações de aquisições de refinarias no mundo foram transacionadas entre 3 mil e poucos dólares por barril e 18,9 mil dólares, com uma média de 10,9 mil dólares por barril. Pasadena foi adquirida assim por menos do valor médio de aquisições de refinarias daquele ano.

O mercado mudou radicalmente a partir de 2008, com a crise financeira internacional e com a expansão da oferta de petróleo leve nos EUA e a Refinaria enfrentou problemas até 2013, quando passou novamente a ser um bom negócio com a queda dos preços da matéria prima leve no Texas e altas margens de refino que continuam até hoje em 2015. O mercado de refino é cíclico e a Refinaria sofre estas subidas e descidas do mercado.

A partir de 2008 com a intensificação dos conflitos com o sócio belga na refinaria, a Petrobras não realizou qualquer pagamento até que a Justiça americana decidisse o valor da segunda metade, quando, em meados de 2012, a operação foi concluída para cumprir as decisões judiciais.

Se alguém se locupletou com operações fraudulentas relacionadas com a aquisição, que pague por seus erros, depois das investigações policiais e o devido processo legal. Corrupção é um caso de polícia e como tal deve ser tratado, dentro dos marcos legais vigentes na democracia brasileira. Se houve comportamento inadequado de alguns, que se cumpra a Lei.

As delações premiadas destes corruptos confessos não fazem acusações diretas a minha pessoa, sempre se referindo a “ouvir dizer”, ” fulano comentou”, ” sicrano disse” e portanto, acredito, as investigações vão concluir pela falsidade das ilações.

COM A PALAVRA, A ODEBRECHT

“Em 2006, procurada pela Petrobras sobre interesse em ser uma das empresas responsáveis pela modernização da planta localizada nos EUA, a Odebrecht, que atua naquele país desde 1990, manifestou interesse em prestar o serviço preferencialmente em consórcio com outra empresa do setor, como é de praxe e autorizado pela Petrobras. Apesar do interesse demonstrado pela empresa, a Petrobras acabou não dando prosseguimento ao processo e nenhuma obra nesse sentido foi realizada à época. No caso em questão, vale ressaltar que a citação ao nome da Odebrecht foi feita por um delator, fazendo menção a uma suposta afirmação de um ex-diretor da Petrobras, que, por sua vez, teria sido baseada em suposta frase atribuída ao ex-presidente da estatal.”

COM A PALAVRA, O ADVOGADO EDSON RIBEIRO, QUE DEFENDE NESTOR CERVERÓ

As declarações dos delatores devem ser analisadas com reservas. É público e notório que só aqueles que delatam ficam livres. A utilização sistemática de prisões preventivas como método para  obtenção de delações premiadas induz os acusados a preferir a  liberdade imediata do que contestar as acusações. Portanto, não podemos aceitar como verdadeiro tudo que se declara. A liberdade, fim dos acusados, torna-se mais importante do que os
meios para sua obtenção.