Delator diz que lobista indicou diretor da Petrobrás ‘com apoio do PMDB’

Delator diz que lobista indicou diretor da Petrobrás ‘com apoio do PMDB’

Eduardo Musa, em depoimento à Justiça Federal, afirmou ao juiz da Lava Jato que João Henriques, operador do PMDB, lhe contou sobre escolha de Jorge Zelada para área Internacional da estatal

Julia Affonso, Fausto Macedo e Ricardo Brandt

03 Novembro 2015 | 08h00

O operador de propinas do PMDB João Augusto Henriques

O operador de propinas do PMDB João Augusto Henriques

O ex-gerente geral de Internacional da Petrobrás Eduardo Costa Vaz Musa, alvo da Operação Lava Jato que fez delação premiada, afirmou à Justiça Federal que o lobista João Augusto Henriques lhe disse que indicou Jorge Zelada para o comando da diretoria daquela área da estatal petrolífera com apoio do PMDB de Minas. “O João Augusto (Henriques) disse ‘eu fiz o Zelada. com apoio do PMDB mineiro.”

Zelada é réu da Lava Jato, acusado de corrupção passiva e lavagem de dinheiro. Os investigadores descobriram uma fortuna do ex-diretor da Petrobrás alojada em conta secreta no Principado de Mônaco.

João Augusto Henriques teve papel decisivo no cerco ao deputado Eduardo Cunha (PMDB/RJ). Ele revelou ter feito transferência de ‘um milhão e pouco de dólares’ para uma conta no exterior. Segundo ele, a remessa foi feita para a conta de um filho do deputado peemedebista Fernando Diniz, de Minas, que já morreu. Henriques diz que ‘soube depois’ que a conta era do presidente da Câmara.

O juiz federal Sérgio Moro, que conduziu a audiência na última sexta-feira, 30, perguntou a Eduardo Musa. “(Henriques) chegou a dar detalhes de como fez o Zelada?” Musa respondeu. “Não, que eu me lembre não. Eu conhecia o João Augusto de outros tempos de Petrobrás. Fomos tomar um café. Ele foi mais detalhado e falou que tinha feito o diretor Zelada com apoio do PMDB. Ele disse que o PMDB estava cobrando muito o resultado e que ele (Henriques) estava com dificuldade, que era do interesse dele e da manutenção do diretor que essa contratação saísse.”

As audiências da Lava Jato na Justiça Federal no Paraná, base da grande operação, são filmadas e anexadas aos autos dos processos criminais. A pedido de Eduardo Musa, porém, a câmera não focou seu rosto. Ela ficou fixa em um ponto no teto da sala do juiz Moro.

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A contratação a que Eduardo Musa se referiu no depoimento é relativa ao navio sonda Vantage, para águas profundas (três mil metros). Segundo ele, não houve licitação e, supostamente por decisão de Zelada, foi incluída a Vantage. O negócio rendeu propina de US$ 550 mil para Musa, conforme ele próprio admitiu.

O juiz Moro perguntou. “O sr. declarou em delação que recebeu valores nessa contratação. Pode esclarecer?”

Musa disse. “Sim, recebi, é um assunto delicado, eu acho que ninguém tem orgulho. Trabalhei 31 anos na Petrobrás e acho que fiz um bom trabalho lá. Realmente lamento muito ter cedido a isso. O que se deu é que fui procurado depois que a comissão foi formada e foi mandado incluir a Vantage.”

Em seu relato ao juiz Moro, ele apontou Hamylton Padilha, outro lobista, representante de empresas multinacionais do setor de petróleo. Padilha também fez delação premiada. Afirmou ter pago propina para o ex-diretor de Internacional da Petrobrás por contrato de construção de navio-sonda. A área era cota do PMDB no esquema de cartel e corrupção na estatal, acusa a força-tarefa do Ministério Público Federal. Padilha confirmou que o operador de propinas do partido João Augusto Henriques e outro lobista, Raul Schmidt, eram os intermediários das propinas paga aos agentes públicos e políticos.

Eduardo Musa disse ao juiz Moro, na audiência de sexta, 30, que foi procurado por Hamylton Padilha. “Ele me abordou dizendo que essa contratação da Vantage era de interesse de um grupo que apoiava o diretor (Zelada) e que o diretor tinha interesse nessa contratação. Quem de fora que estava coordenando era o João Augusto (Henriques). Ele me ofereceu, então, se a contratação fosse efetivada, pagamento de um milhão de dólares quando a sonda começasse a operar.”

“O que exatamente o sr. Padilha disse ao sr?”, indagou o juiz Moro. “Que grupo o apoiava?”

“O Padilha eu já conhecia de outras oportunidades. Não vou dizer que éramos amigos, ele representava uma empresa para operar a Petrobrás 10000, já tinha bastante conhecimento. Ele me disse que o que fosse cobrado da Vantage estaria incluída uma divisão, incluído o diretor e o pessoal que apoiou ele”, disse Eduardo Musa.

“E quem seria o pessoal que deu apoio a ele?”, insistiu o juiz da Lava Jato. “Depois me foi dito pelo João Augusto (Heneiques) que era o PMDB mineiro.”

Moro perguntou ao ex-gerente geral de Internacional da estatal se efetivamente ele recebeu o US$ 1 milhão combinado. “Em 2009 eu saí (da Petrobrás), a contratação ocorreu posteriormente à minha saída. Por volta de 2010 tive um almoço com o Hamylton Padilha. Não me lembro se eu propus ou se ele é quem propôs reduzir a metade a que eu tinha direito e ele já pagaria, não precisava esperar a unidade funcionar. Efetivamente recebi os valrfoes, mais precisamente um depósito de 500 mil e um de 50, no mesmo dia.”

“De dólares?”, questionou o magistrado.

“De dólares”, respondeu Musa.

“E o sr. recebeu como?”

“Através de depósito em uma conta na Suíça”, informou o ex-gerente que virou delator.

“Que conta era essa?”

“Uma conta, se não me engano, no banco Julius Bar de uma empresa offshore chamada Debase.”

“Essa empresa era do sr?”, perguntou Sérgio Moro.

“Eu era o beneficiário.”

O PMDB afirma que nunca autorizou ninguém a falar em nome do partido ou arrecadar valores de origem ilícita para a legenda.

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