Delator diz que lobista do PMDB agia em nome de ex-diretor da Petrobrás que bancou Pasadena

Delator diz que lobista do PMDB agia em nome de ex-diretor da Petrobrás que bancou Pasadena

Executivo Julio Camargo, da Toyo Setal, detalha contas no exterior abertas por Fernando Baiano e cita ainda propina de R$15 milhões

Redação

15 de novembro de 2014 | 18h51

Por Fausto Macedo e Ricardo Brandt
O executivo de empreiteira Júlio Camargo, um dos delatores da Operação Lava Jato, revelou que o homem apontado como operador do PMDB no esquema de corrupção na Petrobrás, Fernando Antonio Falcão Soares, o Fernando Baiano, agia em nome e “em confiança” de Nestor Cerveró, ex-diretor de Internacional da estatal. Indicado pelos peemedebistas ao cargo em 2005, Cerveró é protagonista do emblemático caso da compra da refinaria de Pasadena, nos EUA, que causou prejuízo de US$ 792 milhões à estatal, segundo o Tribunal de Contas da União.
“Fernando Soares mantinha um compromisso de confiança com o diretor de Internacional Nestor Cerveró”, afirmou Camargo, delator da área empresarial da Lava Jato, ao citar uma cobrança de propina de US$ 15 milhões, feita em uma intermediação de aquisição de sondas de perfuração para a Petrobrás.
Camargo, que atuava pela Toyo Setal – uma das 13 empresas acusadas de cartel na Petrobrás – indicou aos investigadores o roteiro da propina, inclusive nomes de instituições financeiras, onde estão sediadas e valores depositados nas “inúmeras contas” que Baiano mantinha no exterior. Uma delas, na Suiça, aberta em nome da offshore Harley, cujo domínio econômico está em nome do operador do PMDB.
ABAIXO, O PEDIDO DE PRISÃO TEMPORÁRIA DE RENATO DUQUE E FERNANDO SOARES
IMAGEM BANCO CERVERO 6
O executivo citou o pagamento feito por ele para Baiano por meio de uma conta que tinha no banco Winterbothan, no Uruguai. O delator da Toyo Setal sugeriu que Cerveró era um dos beneficiários e disse que os extratos bancários da conta poderão confirmar o fato – numa delação premiada, mais do que fazer acusações, o importante é provar o que se diz a fim de que o delator tenha o benefício da redução de pena.
O Ministério Público Federal sustenta que Baiano, “em razão de sua proximidade com Nestor Cerveró, intercedia ilegalmente, já que de outro modo não se obteria a contratação, em favor de terceiros para que a Petrobrás firmasse com eles contratos que dependiam da área internacional”.
O Ministério Público Federal, que atua na investigação da Lava Jato, faz referência ao contrato de compra das sondas de perfuração e afirma que houve cobrança de “propina e, ao que tudo indica, repassado parte do valor para a Diretoria de Internacional”.
VEJA TRECHO DA DELAÇÃO QUE CITA AS SONDAS DE PERFURAÇÃO
IMAGEM BAIANO CERVERO 1
O relato do delator deu base à sétima fase da Lava Jato, batizada de “ Juízo Final”, deflagrada sexta-feira, quando a cúpula das maiores empreiteiras do País e o ex-diretor de Serviços e Engenharia da Petrobrás Renato Duque, indicado pelo PT, foram presos.
Os termos de seu acordo traz também para o escopo das investigações dados de propina que teria sido distribuída em outras nove obras da Petrobrás realizadas nos governos Luiz Inácio Lula da Silva, a partir de 2003, e Dilma Rousseff, a partir de 2011.
Agora, o foco é o ex-diretor de Internacional da Petrobrás. Cerveró esteve no foco do caso Petrobrás quando a presidente Dilma Rousseff afirmou em março que aprovou a compra de Pasadena – em 2006, quando presidia o Conselho de Administração da estatal – com base em um parecer falho elaborado por ele.
Camargo, em sua delação, deu detalhes de empresas abertas pelo operador do PMDB no exterior por onde transitou dinheiro da propina. Um caso foi o pagamento de US$ 8 milhões para Baiano em duas empresas registradas em seu nome – a Techinis Engenharia e Consultoria recebeu depósito de R$ 700 mil; a Hawk Eyes Administração de Bens, R$ 2,6 milhões. Outras transferências foram realizadas.
VEJA OUTRO TRECHO DA DELAÇÃO
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Além de Camargo, um executivo da Toyo, Augusto Mendonça de Ribeiro Neto, afirmou também em delação premiada que o ex-diretor de Serviços e Engenharia Renato Duque – nome ligado ao PT na Petrobrás – recebeu propina referente às obras das refinarias Repav (São José dos Campos), Repar (Paraná) e Replan (Paulínia, SP), no complexo petroquímico Comperj (RJ) e nos gasodutos Cabiúnas e Gasoduto Urucu Manaus.
“Os depoimentos revelam pagamentos de propinas em obras da Petrobrás, como na Repav, Cabiúnas, Comperj, Repar, Gasoduto Urucu Manaus, Refinaria Paulínea a Renato Duque”, dizem os investigadores.
Os dois executivos apontaram ainda o nome de um ex-gerente da Petrobrás Pedro Barusco. A Lava Jato descobriu que Barusco mantinha US$ 20 milhões ocultos na Suíça.
Segundo os investigadores, os executivos narraram “todo o esquema de cartelização, lavagem e pagamento de vantagens indevidas a agentes públicos, confirmando não só a participação de Alberto Youssef e Paulo Roberto Costa, mas das demais empreiteiras e ainda o envolvimento de Renato Duque, diretor de Serviços da Petrobrás, e Fernando Soares, vulgo Fernando Baiano, outro operador encarregado de lavagem e distribuição de valores a agentes públicos”.
VEJA TRECHO DO PEDIDO DO MPF QUE CITA RENATO DUQUE E FERNANDO SOARES
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“É inquestionável a ativa participação de Renato Duque, Pedro Barusco e Fernando Soares nos fatos criminosos em apuração”, afirma a Procuradoria.
Camargo afirmou que no caso das sondas pediu a Baiano que “agendasse uma reunião com Nestor Cerveró, da qual participaria o executivo e representantes de duas multinacionais. “A reunião de fato ocorreu.”

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