Delator diz que encontrou Duque ‘umas 10 vezes’ para dar propina

Shinko Nakandakari afirmou à Justiça que pagou R$ 1 milhão parceladamente entre julho de 2011 e março de 2012

Redação

06 de março de 2015 | 11h30

Por Ricardo Brandt, enviado especial a Curitiba, Julia Affonso e Fausto Macedo

Em depoimento à Justiça Federal, no Paraná, nesta quinta-feira, 5, o engenheiro Shinko Nakandakari, um dos 11 supostos operadores de propina na Diretoria de Serviços da Petrobrás, afirmou que encontrou o ex-diretor da estatal Renato Duque ‘umas 10 vezes’ para entregar cerca de R$ 1 milhão em espécie. Segundo ele, o dinheiro foi dado, entre julho de 2011 e março de 2012, diretamente a Duque. Antes deste período, as quantias iam para o ex-gerente da empresa Pedro Barusco, outro delator da Operação Lava Jato e braço direito de Duque, que repassava ao ex-diretor.

“Acho que umas 10 vezes, viu, doutor”, disse Shinko ao juiz federal Sérgio Moro, que conduz as ações penais da Lava Jato. “R$ 100 mil (em cada oportunidade). Quando eu falo R$ 100 mil, às vezes é R$ 150 mil. A primeira vez que eu entreguei foi no restaurante Al Mare, do hotel Fasano. Depois, como ele ia muito ao restaurante do Windsor Atlântica, então, eu passei a encontrar com ele lá.”

VEJA O DEPOIMENTO DE SHINKO NAKANDAKARI

Shinko foi o primeiro dos operadores na Diretoria de Serviços a fazer acordo de delação premiada. Há duas semanas, ele fez seu primeiro depoimento em regime de delação premiada e revelou ter pago propina “em espécie’ para Duque. Ao ser perguntado por Moro se havia repassado R$ 1 milhão a Duque, Shinko respondeu. “Em parcelas”, disse. “Que eu passei direto para ele, né? Eu para ele. O restante eu passei para o Pedro Barusco.”

Duque chegou a ser preso em novembro pela Operação Juízo Final, sétima fase da Lava Jato que mirou o braço empresarial do esquema de corrupção na estatal petrolífera. Dias depois, no entanto, o ministro Teori Zavascki, do Supremo Tribunal Federal (STF), mandou soltar o ex-diretor. Duque nega ter recebido propinas. Reiteradamente, o ex-diretor tem declarado que não participou de nenhum esquema de corrupção na Petrobrás.

O delator contou ao juiz como era feito o cálculo da propina. Ele afirmou ter pago em nome da Galvão Engenharia entre o segundo semestre de 2008 e o final de 2013.

“Uma das formas de se calcular a propina é quando você pega as bases contratuais, porque tem um valor de referência. E também tem o aditivo aprovado. Essas são as formas das empresas fazerem os cálculos para pagamento da propina, porque alia o valor do contrato, o prejuízo, os juros bancários, os aditivos. Fazendo esse balanço, a empresa verifica o que se pode pagar”, disse.

Há duas semanas, quando Shinko disse, em delação premiada, ter agido em nome da Galvão, a empresa informou que “os pagamentos feitos (a Shinko) resultaram de prática de extorsão e concussão, conforme relatado às autoridades competentes”. Segundo a Galvão Engenharia, por meio de sua assessoria de imprensa, “o sr. Shinko Nakandakari nunca foi funcionário da empresa”.

A reportagem entrou em contato com a Petrobrás, mas a empresa não respondeu.

COM A PALAVRA, A GALVÃO ENGENHARIA.

“Foi o próprio executivo Erton Medeiros Fonseca que revelou a atuação do senhor Shinko Nakandakari como intermediário da extorsão sofrida pela empresa. Os contratos da companhia foram obtidos licitamente.”