Delator diz que doou para deputados do PT e do PSDB no Sul

Augusto Mendonça, da Setal, afirma que pagou cerca de R$ 150 mil para Henrique Fontana e Adilson Troca por atuação legal em prol de estaleiros

Redação

04 Fevereiro 2015 | 11h39

Por Ricardo Brandt, enviado especial a Curitiba, Julia Affonso e Fausto Macedo

O executivo Augusto Ribeiro Mendonça, da Setal Engenharia, Construções e Perfurações, afirmou em seu depoimento à Justiça Federal que fez doações e também pediu contribuição à construtora Engevix para dois candidatos a deputado do Rio Grande do Sul do PT e do PSDB que ajudaram na instalação de estaleiros no Estado – que constroem embarcações e unidades para plataformas da Petrobrás -, Henrique Fontana e Adilson Troca.

“O que eu havia colocado para o Gerson (Almada, executivo da Engevix) é que como nós, que temos estaleiro no Rio Grande do Sul, precisávamos apoiar deputados que eram identificados com a essa causa e que auxiliaram, em muito, a nossa instalação no Estado. Um era do PT, Henrique Fontana, e outro era do PSDB, Adilson Troca”, afirmou Mendonça, em depoimento ontem no processo penal que envolve a Engevix.

Questionado por um advogado se ele lembrava o valor que foi doado às campanhas, ele afirmou que a Setal contribuiu com “aproximadamente R$ 150 mil. “Não lembro direito, entre R$ 100 mil e R$ 150 mil.”

Segundo a Justiça Eleitoral, Fontana e Troca receberam, nas campanhas de 2014, R$ 50 mil e R$ 60 mil, respectivamente, da Toyo Setal (formada pela empresa do delator).

Sem propina e acerto. O delator afirmou, porém, que os valores doados para os dois candidatos não foram feitos em troca de contratos vencidos por acerto ou pagamentos de propina, como no caso das obras das refinarias Abreu e Lima, em Pernambuco, alvo central da Operação Lava Jato.

“Só queria deixar claro que esse assunto não tem absolutamente nada a ver com o tema que estamos discutindo aqui”, afirmou o delator, ao ser ouvido pelo juiz federal Sérgio Moro. “É uma atividade que não tem nada a ver com Diretoria de Abastecimento da Petrobrás, aonde nunca discutimos em ‘clube’, nunca houve esse acerto. Porém, são atividades extremamente importantes para a indústria e que tem um apoio do governo e da Petrobrás e da ANP (Agência Nacional do Petróleo) a nível de conteúdo local”, explicou ele.

Mendonça afirma ter ligado pessoalmente para o executivo da Engevix, réu da Lava Jato por corrupção, lavagem de dinheiro e formação de organização criminosa – preso desde o dia 14 de novembro de 2014 – para pedir doação aos dois parlamentares.

“Esse é um tema muito discutido e delicado. Houveram discussões de leis no Congresso, quando se discutiu partilha, e a contribuição de parlamentares nessa discussão sempre foi muito importante”, justificou Mendonça.

Tanto o Setal, como parte da Toyo Setal, como a Engevix têm estaleiros no Rio Grande do Sul. A primeira é uma das donas do estaleiro EBR, que constrói módulos da plataforma P-74, em São José do Norte. A Engevix opera o estaleiro EGR.

A defesa do executivo da Engevix nega qualquer irregularidade em contratos da Petrobrás. A tese da defesa é de que a empresa foi vítima de achaques por parte dos ex-diretores que recebiam propina de 1% a 3% nos contratos de obras da estatal petrolífera, segundo denúncias da Lava Jato.

COM A PALAVRA, O DEPUTADO HENRIQUE FONTANA.

“O deputado Fontana não recebeu recursos do doleiro Alberto Youssef. A campanha do Fontana recebeu sim recursos da empresa Toyo Setal, uma das grandes empresas da indústria naval brasileira que, entre outros investimentos, está construindo o estaleiro EBR, em São José do Norte-RS. A contribuição desta empresa se deu de forma absolutamente legal, com emissão de recibo eleitoral e faz parte da prestação de contas da nossa campanha – publicada no site do Tribunal Regional Eleitoral. Por este e por tantos outros motivos, Fontana segue reafirmando a necessidade da reforma política e defendendo que o financiamento de campanhas eleitorais deva ser com recursos públicos ou de pessoas físicas. Para esta doação, o deputado conversou diretamente com representante da empresa e jamais teve contato com esta face ilegal do financiamento através do doleiro.”

COM A PALAVRA, O DEPUTADO ADILSON TROCA.

“Desde o início da minha vida pública trabalho pelo desenvolvimento e pela criação de oportunidades de emprego para a comunidade. Foi assim como vereador e atualmente como deputado. Em âmbito estadual, sempre tive atenção especial para Rio Grande, São José do Norte e região. Cidades que estavam ficando para trás em termos de desenvolvimento econômico. Em razão disso, tenho orgulho de ter participado ativamente de todo o processo que resultou na criação do Polo Naval. Desde 2010 lutamos pelo estaleiro EBR. Empreendimento que desde seu lançamento poderia gerar até 5 mil empregos.

Algo com tanto potencial de melhorar as condições de trabalho e desenvolvimento de nossa região merece nosso total apoio. Sempre exerci minhas atividades com toda transparência. Por isso mesmo sempre tive minhas contas aprovadas pelos órgãos competentes. Quanto às doações de campanha, faço questão de deixar claro que todos recursos que recebi vieram de forma totalmente legal e transparente, tudo declarado e que pode ser conferido por qualquer pessoa no site do Tribunal Eleitoral.

A empresa Toyo fez doações a diversos candidatos que representam o Sul do Estado, como pode ser verificado nas prestações de contas. Em 25 de Agosto de 2014, recebi da Toyo, na minha conta de campanha, o valor de R$ 60.000,00, através de transferência eletrônica (TED nº 3.619.350). O valor foi declarado já na 2ª parcial da Prestação de Contas que prestei ao Tribunal Regional Eleitoral ainda no mês de Agosto. Tudo conforme a legislação. Tudo transparente. Tudo público e aprovado pelo Tribunal Regional Eleitoral.

Faço questão que todos estes fatos sejam esclarecidos. Sou um homem público com transparência em meus atos. Espero rigor e agilidade nas investigações, pois tenho completa tranquilidade dos meus atos, da maneira como conduzo meus mandatos e orgulho da minha trajetória. Continuarei sempre lutando pela nossa região e por nosso Rio Grande do Sul.”

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