Delator diz que doleiro atendia ‘operações maiores’ de ex-governador de Minas

Delator diz que doleiro atendia ‘operações maiores’ de ex-governador de Minas

Cláudio Barboza, o ‘Tony’, contou ao Ministério Público Federal do Rio que Camilo Lelis de Assunção, doleiro estabelecido em Belo Horizonte e preso na Operação 'Câmbio, desligo', usou conta de empresa ligada a Newton Cardoso (MDB)

Julia Affonso

22 Maio 2018 | 11h30

Newton Cardoso (MDB-MG). Foto: Gustavo Lima/Câmara dos Deputados

O doleiro Cláudio Barboza, o ‘Tony’, delator da Operação ‘Câmbio, desligo’, afirmou que o doleiro Camilo Lelis de Assunção, de Belo Horizonte, usou uma conta no exterior ligada a uma empresa da família do ex-governador de Minas Newton Cardoso (MDB), o Newtão, para operar.

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A Operação ‘Câmbio, desligo’ foi deflagrada pela Procuradoria da República no dia 3 na maior ofensiva já desfechada contra o mercado paralelo da moeda americana no País, culminando na prisão de 35 doleiros históricos, que agem desde os anos 1970 em praças diversas e comunicação com escritórios em paraísos fiscais.

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As declarações foram prestadas em 28 de fevereiro e fazem parte do anexo 39 da delação de ‘Tony’.

Cardoso governou Minas entre 1987 e 1991. O emedebista, de 80 anos, foi deputado federal por três mandatos (1979-1983, 1995-1996 e 2011-2015).

Camilo foi preso preventivamente em 3 de maio na ‘Câmbio, desligo’. O doleiro está custodiado no sistema penitenciário estadual do Rio.

‘Tony’ relatou que, em 90% de suas transações com Camilo, o doleiro de BH lhe vendia dólares. Em contrapartida, ‘Tony’ entregava reais em São Paulo para Camilo. Segundo o delator, um funcionário de Camilo, identificado por Alexandre Silva, o ‘Alex’, ia a seu escritório, na capital paulista, ‘recolher os recursos de reais em espécie’.

Aos procuradores, ‘Tony’ contou que, ‘em algumas oportunidades’, vendeu dólares para Camilo no exterior e recebeu reais em Belo Horizonte. “Nas operações que Camilo vendia dólares ao colaborador, Camilo já comentou com o mesmo que o dinheiro era oriundo da empresa Demetal, relacionada à família de Newton Cardoso”, afirmou.

O ex-governador Minas e seu filho, o deputado federal Newton Cardoso Júnior (MDB-MG) são sócios na Companhia Siderúrgica Pitangui. A empresa, inaugurada em novembro de 1970, tem sede no terceiro andar de um prédio em Belo Horizonte.

‘Tony’ contou ao Ministério Público Federal que Camilo relatou a ele que tinha ‘dificuldades para pagar contas na Ásia para saldar as operações de dólar cabo’. O delator disse que apresentou ao doleiro de Belo Horizonte um homem identificado como Alexsander Queiroz, que trabalhava com assessoramento financeiro.

“O colaborador sabe dizer que a empresa Demetal é a empresa que tinha necessidade de movimentar mais dólares e que precisava receber recursos na Ásia; que acredita que a conta aberta na Europa por Alexsander foi aberta em noma da empresa Demetal”, contou.

De acordo com o anexo 39, ‘Tony’ começou a operar com Camilo e com José Carlos Maia Saliba, outro doleiro de Belo Horizonte, no ano 2000. O delator narrou que conheceu os dois por intermédio de José Bacha, ‘principal doleiro de Belo Horizonte’. O juiz federal Marcelo Bretas, da 7.ª Vara Federal, do Rio, expediu contra Saliba um mandado de prisão temporária.

“Em meados dos anos 2000, já com uma idade avançada o sr. José Bacha se afastou do dia-a-dia da casa de câmbio, momento no qual Saliba e Camilo assumiram as operações. A partir do ano de 2010, os doleiros saíram do varejo e começam a atender operações maiores, notadamente do s. Nilton Cardoso, ex-governador de Minas Gerais”, afirmou.

“Os colaboradores (os delatores ‘Tony’ e Vinicius Claret, o ‘Juca’, também doleiro) acreditam que Saliba e Camilo ainda estejam na ativa no mercado de câmbio. No período compreendido entre 2011 e 2016, os colaboradores compraram 12,7 milhões de dólares, e venderam 8,6 milhões de dólares.”

Procurados, o ex-governador de Minas Gerais Newton Cardoso e o deputado Newton Cardoso Júnior não comentaram.

COM A PALAVRA, O ADVOGADO MARCELO LEONARDO, QUE DEFENDE CAMILO LELIS ASSUNÇÃO

“Camilo não é doleiro e nunca operou para o ex-governador e nem para ninguém. Há, na investigação, apenas a palavra de delator, sem qualquer prova de corroboração.”

COM A PALAVRA, CARLOS ALBERTO ARGES JUNIOR, QUE DEFENDE JOSÉ CARLOS MAIA SALIBA

“José Carlos Maia Saliba é advogado militante e desconhece qualquer operação de câmbio envolvendo envolvendo o ex-governador. E que tais declarações são meras ilações proferidas pelos delatores no intuito de beneficia-los.”

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