Delator diz que deu R$ 600 mil em espécie a Luiz Argôlo

Ricardo Pessoa, dono da UTC, afirmou que dinheiro saiu do caixa 2 da empreiteira, controlado pelo doleiro Alberto Youssef

Redação

18 de setembro de 2015 | 15h27

O ex-deputado Luiz Argôlo está preso desde abril deste ano. Foto: Reprodução

O ex-deputado Luiz Argôlo está preso desde abril deste ano. Foto: Reprodução

Por Julia Affonso, Ricardo Brandt, Fausto Macedo e Mateus Coutinho

O dono da empreiteira UTC Engenharia, Ricardo Pessoa, afirmou em depoimento na quinta-feira, 17, que deu R$ 600 mil ao ex-deputado Luiz Argôlo (ex-PP, hoje afastado do SD-BA) para campanha eleitoral de 2012, na Bahia. Segundo o executivo, os recursos saíram do caixa 2 da empresa, controlado pelo doleiro Alberto Youssef, personagem central da Operação Lava Jato.

“Eu fiz uma contribuição para Luiz Argolo de R$ 150 mil para o partido, já era Solidariedade, eu acho. Eu dei também recursos a ele nessa fase de 2012 para que ele fizesse campanha dos prefeitos e vereadores ou coisa parecida”, disse o empreiteiro.

A ÍNTEGRA DO DEPOIMENTO DE RICARDO PESSOA

Ricardo Pessoa explicou as transações ao juiz federal Sérgio Moro, que conduz as ações da Lava Jato. “Oficiais foram os R$ 150 mil para o partido ou para a campanha dele. O que ele fez em 2012 foi tudo em espécie, 3 ou 4 parcelas que totalizaram R$ 600 mil. Quem entregou foi Alberto Youssef. Eu tinha recursos de caixa 2 com Alberto Youssef, o volume era alto. Posso dizer que Alberto Youssef era quem guardava os recursos do caixa 2 da UTC. Era só dizer para Alberto que ele podia sacar e fornecer para o Luiz Argôlo.”

Presidente da UTC Engenharia, ele é apontado pelo Ministério Público Federal e pela Polícia Federal como o presidente do ‘clube vip’ das empreiteiras que se apossaram de contratos bilionários da Petrobrás entre 2004 e 2014. O empreiteiro é um dos delatores da Lava Jato.

Pessoa foi preso em novembro de 2014, na Operação Juízo Final, etapa da Lava Jato que derrubou o braço empresarial do esquema de propinas na estatal. O delator foi para regime domiciliar em março deste ano.

‘Tem deputado que está na Câmara para defender construtoras e bancos’, diz Argôlo

Luiz Argôlo está preso desde 10 de abril deste ano. Ele é acusado de corrupção e lavagem de dinheiro e responde a uma ação penal na 13ª Vara Federal, em Curitiba, base da Lava Jato.

No depoimento, o executivo contou que conheceu Luiz Argôlo no fim de 2011 ou no início de 2012. Segundo ele, Alberto Youssef levou o então parlamentar à UTC.

“O deputado Luiz Argôlo era um deputado promissor, jovem, e foi com o Alberto lá conversar comigo e trocar ideias sobre política, sobre o que podia ser feito. Eu considerava, e considero, o Luiz Argôlo como um parlamentar que tivesse futuro, tinha boas ideias, era baiano. Depois que ele foi a primeira vez, na segunda vez eu já sabia que ele, filho do Manoelito Argôlo, tinha um reduto eleitoral no interior da Bahia que era interessante e tinha boas relações no Congresso. Eu resolvi me relacionar com ele”, contou Ricardo Pessoa.

A ÍNTEGRA DO DEPOIMENTO DE ALBERTO YOUSSEF

O empreiteiro confirmou pagamento de propina à diretoria de Abastecimento da Petrobrás, ligada ao PP – este partido com PT e PMDB são suspeitos de lotear diretorias da Petrobrás para arrecadar propina em grandes contratos, mediante fraudes em licitações e conluio de agentes públicos com empreiteiras organizadas em cartel. O esquema instalado na estatal foi desbaratado pela força-tarefa da Lava Jato. O executivo disse não saber se Luiz Argôlo era beneficiário da propina oriunda de contratos da estatal.

‘As obras que ganhamos sempre houve propina’, diz Ricardo Pessoa

Delator vai pagar multa de R$ 51 milhões

De acordo com o empreiteiro, Argôlo, cujo apelido seria Bebê Johnson, esteve em seu escritório ‘umas 5 ou 6 vezes’ entre 2011 e 2014. Nos encontros, afirmou Ricardo Pessoa, eram tratados repasses da UTC para Argôlo.

“A conversa era a três, geralmente, na minha sala”, disse. “Eu acho que o próprio Luiz Argolo também abordou sobre contribuições políticas até para aumentar seu reduto eleitoral com contribuições na eleição para prefeito. Nessa eleição para prefeito, ele queria aumentar a sua base, com vistas à reeleição em 2014.”

As audiências da 13ª Vara Criminal Federal, onde tramitam as ações sobre propinas na estatal, são filmadas. Os relatos das testemunhas e dos acusados  são gravados em áudio e vídeo. No depoimento do empreiteiro, porém, a câmera aponta para o teto – a pedido da defesa de Pessoa, o rosto do executivo não é mostrado a partir do momento em que ele começa a delatar.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.