Delator de empresa deu caminho do dinheiro da propina de Duque, Barusco, Fernando Baiano, Costa e Youssef

Redação

03 de dezembro de 2014 | 17h21

Por Ricardo Brandt, enviado especial a Curitiba, Fausto Macedo e Julia Affonso

Considerada até agora uma das provas mais cabais para identificação do caminho do dinheiro da propina na Petrobrás, a delação premiada do executivo Julio Gerin de Almeida Camargo – do grupo Toyo Setal – apontou contas na Suíça, Nova York e no Uruguai por onde movimentou pelo menos US$ 74 milhões entre 2005 e 2012 e os contratos que serviram para movimentar o dinheiro de caixa-2 do PT, PMDB e PP.

Num dos oito depoimentos que prestou à força-tarefa da Operação Lava Jato, o delator afirmou que os valores e contratos são das movimentações feitas com o ex-diretor de Serviços da Petrobrás Renato de Souza Duque (indicado pelo PT ao cargo), o lobista Fernando Antônio Soares Falcão, o Fernando Baiano (operador do PMDB), o ex-diretor de Abastecimento Paulo Roberto Costa e o doleiro Alberto Youssef (para o PP).

São mais de dez contas, sendo que quatro delas especificamente para pagar propina. São duas na Suíça, uma no Uruguai e outra em Nova York abertas em nome de suas empresas de fachada, usadas para fornecer notas de serviços fictícios. Eram esse contratos que serviam para esquentar e movimentar o dinheiro da propina, desviado da Petrobrás.

Uma dessas contas foi aberta no Banco Winterbothan, no Uruguai, em nome da Piement Ltd, em 2006. A conta foi usada para movimentar US$ 40 milhões – faltando ainda US$ 13 milhões – referentes à intermediação feita pelo operador do PMDB, na construção de sondas de perfuração de águas profundas. O contrato envolveu a Diretoria Internacional e o ex-diretor Nestor Cerveró.

Segundo ele, tal conta foi utilizada “para efetivar pagamentos em contrato mantido com Fernando Soares, tendo feito transferências para diversas contas indicadas por ele, em torno de dez contas. ” “Pagou propina por meio desta conta mediante transferências para contas indicadas por Renato Duque e Pedro Barusco, aproximadamente três contas. E que também fez pagamentos de propina usando tal conta em favor de Paulo Roberto Costa, mediante transferências para contas indicadas por Alberto Youssef, sempre concentradas na Ásia”, afirmou Camargo. Ele apresentou os extratos de 2006 a 2008 dessa conta no Uruguai.

Na Suíça, o delator apontou contas que abriu no Credit Suisse em 2005. Uma delas, de nome “Pelego”, foi usada para pagar as propinas. Camargo apontou pelo menos seis contas no banco, mas só a Pelego foi usada para caixa 2, segundo ele.

“Os recursos remetidos para a conta no Credit Suisse eram decorrentes de contratos de consultoria firmado por intermédio das empresas Auguri, Treviso e Piemote com consórcios e outras empresas contratos pela Petrobrás.”

Ele apontou que a conta no banco suíço serviu para movimenta dinheiro de Duque, Barusco, Costa e Youssef. Nessa conta não houve movimento em nome de Baiano. Foram ao todo US$ 18,6 milhões nessa instituição financeira.

A partir de 2011, o executivo da Toyo Setal afirmou que passou a movimentar seis contas no banco Cramer, na Suíça. “A conta Vigela”, segundo ele, foi usada para “efetuar pagamentos de propinas” para o operador do PMDB. Os pagamentos foram feitos para a conta de uma empresa offshore de nome Hailey, no BCP Geneve, da Suíça, “indicada por Fernando Soares, em setembro de 2011 e outubro de 2011, cada um por valor de US$ 500 mil”.

O delator da Toyo Setal apresentou ainda uma conta aberta no Marryl Lynch, em Nova York. “(Aberta) tão somente para operacionalizar o pagamento a Fernando Soares, por intermédio de Alberto Youssef”, explicou ele. Foram duas conta abertas em nome das empresa Treviso e Piemonte. Por meio delas, “remeteu mediante contrato de cambio ” três pagamentos de US$ 1.535.985 cada entre setembro e novembro de 2010.

PP paga PP

A conta no banco Cramer foi usada segundo Camargo para pagar Duque e Costa. “Também efetivou pagamentos do Cramer Suisse em conta indicada por Renato Duque”, afirmou ele. O pagamento foi em nome da offshore “Drenos”, com conta no mesmo banco, em Lugano.

“O beneficiário dos pagamentos na conta Drenos é o próprio Renato Duque”, disse Camargo, que afirmou ter certeza do que diz. Ele apontou três depósitos: “US$ 20 mil e US$ 50 mil em dezembro de 2011 e US$ 930 mil em abril de 2012.”

Em sua delação, o executivo da Toyo explicou que entre 2011 e 2012 transferiu dinheiro do banco Cramer para contas indicadas pelo doleiro Alberto Youssef para pagar propina para Costa e para Duque e Barusco em dinheiro em espécie.

“Efetuou duas transferências de US$ 2.350.000,00 em outro de 2011 e junho de 2012, em conta da RFY Import & Export Ltd, e outro pagamento de US$ 400.000,00 em julho de 2012, em conta da DGX Import & Export”, explicou ele. Ambas empresas de fachada de Youssef usadas para lavar dinheiro.

“A origem dos recursos no exterior mantido nas contas do Banco Cramer se deu nos contratos de consultoria firmados com os consórcios e empresas contratadas pela Petrobrás, sendo que posteriormente remetia os valores ao exterior mediante contratos de câmbio, sob argumento de distribuição de lucros, dividendos”, explicou Camargo.

A defesa de Duque, por meio da assessoria de imprensa, informou que o ex-diretor nega qualquer acusação sobre ilícitos cometidos na Petrobras. Ele se colocou à disposição de todos os órgãos envolvidos nas apurações sobre a Petrobras para esclarecimentos.

“As delações de Julio Camargo e Augusto Ribeiro são caluniosas. Os delatores, que são criminosos confessos, visam a, com as falsas acusações, receber um prêmio ao final, traduzido em isenção ou redução drástica de pena. Renato Duque nega as acusações e irá se defender de acordo com o ordenamento jurídico brasileiro”, afirmou o advogado Alexandre Lopes, que representa o engenheiro.

A criminalista Beatriz Catta Preta, que defende o ex-gerente da Petrobrás Pedro Barusco, não quis se manifestar. O advogado de Nestor Cerveró, Edson Ribeiro, informou que as sondas citadas na delação “foram construídas pela Samsung e locadas pela Petrobrás por uma empresa criada pela Petrobrás e a Mitsui, não havendo qualquer irregularidade na contratação”.