Delator da Odebrecht diz que presenteou Serra com 30 garrafas de vinho

Pedro Novis, ex-presidente da empreiteira, contou à força-tarefa da Lava Jato que no aniversário do tucano mandava entregar 'Alma Viva' e outros chilenos a até R$ 1,5 mil a unidade

Fabio Leite

19 de abril de 2017 | 05h00

O ex-presidente da Odebrecht Pedro Novis disse em depoimento de delação premiada que além das supostas transferências de dinheiro para contas no exterior e de pagamentos de caixa 2 para campanhas eleitorais, a empreiteira presenteou o senador José Serra (PSDB) com caixas de vinhos caros em seu aniversário entre os anos de 2007 e 2010, quando o tucano foi governador de São Paulo.

“O Serra faz aniversário no dia de São José, 19 de março. Eu tinha o hábito de mandar para ele, todo ano, uma caixa de vinho”, relatou Novis aos procuradores da Lava Jato em depoimento dado em dezembro. Ao todo, foram 30 garrafas de vinho, cujos preços variam entre R$ 500 e R$ 1,5 mil a unidade, como o chileno Alma Viva.

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Questionado por um dos procuradores sobre a relevância dos presentes na relação da Odebrecht com Serra, Novis disse que era ‘só uma lembrança’, mas confirmou que os vinhos eram pagos pela empreiteira. “Ele era casado com uma moça muito simpática, uma chilena. Enquanto ele foi casado com ela eu mandava uma caixa de vinho chileno. Depois mandei outros”, disse.

Novis era o funcionário da Odebrecht mais próximo de Serra. Disse ter conhecido o senador em 1983, quando ele era secretário de Planejamento do governo Franco Montoro, e se tornado amigo dele depois que passaram a ser vizinhos, no bairro Alto de Pinheiros, em São Paulo. Por esse motivo, um dos codinomes atribuídos a Serra na planilha de pagamentos ilícitos da Odebrecht era ‘Vizinho’.

Em sua delação, Novis relata ter feito contribuições ilegais a Serra desde a campanha presidencial de 2002. Naquela eleição, porém, não lembra os valores repassados ao tucano. Entre 2004 e 2012, foram R$ 37,4 milhões pagos a intermediários do tucano em dinheiro, por meio de caixa 2, ou transferência bancária, para contas na Suíça e nos Estados Unidos.

Em todos os casos, afirmou o executivo da Odebrecht, o próprio Serra lhe indicava para quem o dinheiro deveria ser repassado. Em 2010, por exemplo, foram mais de R$ 23 milhões ao ex-tesoureiro do PSDB Márcio Fortes, em dinheiro, e ao empresário Ronaldo Cezar Coelho, em transferências feitas a uma offshore na Suíça.

Os pagamentos supostamente ilícitos ligados a Serra foram confirmados por outros dois executivos da Odebrecht que também assinaram termo de colaboração com o Ministério Público Federal (MPF) e apresentaram documentos que podem comprovar os pagamentos. As denúncias serão investigados por inquérito aberto no Supremo Tribunal Federal (STF), uma vez que o senador tem foro privilegiado.

Frustração. Apesar dos inúmeros pagamentos relacionados a campanhas políticas e dos presentes de aniversário, Pedro Novis disse ao procuradores que Serra não agiu diretamente para favorecer a Odebrecht quando foi prefeito ou governador de São Paulo, entre 2005 e 2010.

“Serra sempre foi uma expectativa frustrada pelas derrotas nas eleições e frustrada pela falta de retribuição”, disse Novis. O executivo disse que a empreiteira ‘apostou’ no tucano nas eleições por acreditar que ganharia com as medidas que ele planejava implementar no setor de infraestrutura do País caso fosse eleito presidente. “Essa aposta foi feita, mas infelizmente não se materializou”.

COM A PALAVRA, O SENADOR JOSÉ SERRA

“O senador José Serra reitera que não cometeu nenhuma irregularidade e que suas campanhas foram conduzidas pelo partido, na forma da lei. Como afirmou o ex-presidente da Odebrecht Pedro Novis em depoimento, Serra jamais tomou medidas que tenham beneficiado a empreiteira em nenhum dos diversos cargos que ocupou em sua longa carreira pública. O senador José Serra sempre pautou sua carreira política na austeridade em relação aos gastos públicos. A abertura da investigação é útil para comprovar a lisura de sua conduta.”

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