Delator da OAS diz que contratos firmados na gestão Luiz Marinho em São Bernardo do Campo movimentaram propinas de R$ 20 milhões

Delator da OAS diz que contratos firmados na gestão Luiz Marinho em São Bernardo do Campo movimentaram propinas de R$ 20 milhões

Apontado como chefe da separação de propinas da construtura, José Ricardo Nogueira Breghirolli foi ouvido em CPI; ex-prefeito chama comissão de 'factoide' e diz que afirmações do delator são 'inventadas'

Rayssa Motta e Fausto Macedo

06 de maio de 2021 | 10h49

Em operação desde agosto do ano passado, a CPI da OAS instalada na Câmara Municipal de São Bernardo do Campo, na Grande São Paulo, ouviu nesta semana o ex-superintendente administrativo da empreiteira, José Ricardo Nogueira Breghirolli, que afirmou em depoimento aos vereadores ter conhecimento de propinas na ordem de R$ 20 milhões em obras contratadas durante a gestão do ex-prefeito Luiz Marinho (PT), reeleito em 2012. O petista é hoje presidente do diretório estadual do partido.

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Apontado como chefe da separação de propinas da construtura, o executivo também afirmou que a campanha do petista à reeleição, em 2012, recebeu repasses não declarados da empresa.

De acordo com Breghirolli, os desvios foram operacionalizados nas obras do projeto Habitação São Bernardo e do conjunto habitacional Três Marias, na recuperação e urbanização do entorno do córrego Ribeirão dos Couros, na construção do Complexo Esportivo São Bernardo e nos lotes 1 e 2 financiados pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). “Essas obras que o pessoal pedia para debitar mais”, afirmou.

A Câmara Municipal de São Bernardo do Campo. Foto: Divulgação

Pivô da abertura da comissão parlamentar, instalada mais de um ano depois que vieram a público trechos de sua delação premiada homologada pelo Supremo Tribunal Federal na esteira da Operação Lava Jato, Breghirolli se desligou definitivamente da em 2015, sob os rumores de corrupção envolvendo a empreiteira. De acordo com ele, enquanto esteve no cargo, as ordens de pagamento vinham de três ex-diretores: Carlos Henrique Lemos, Marcel Vieira e César Mata Pires Filho – este último já falecido. As entregas, por sua vez, seriam feitas em espécie no escritório da própria OAS, na capital paulista, segundo o depoimento.

Breghirolli não soube nomear os políticos e agentes públicos destinatários do dinheiro, porque, segundo ele, o trabalho de negociação e operacionalização das propinas era dividido propositalmente para evitar que os funcionários envolvidos tivessem conhecimento de detalhes do suposto esquema.

“Eu recebia somente a demanda da área de engenharia responsável e disponibilizava o recurso”, explicou. “Era bem trabalhado em células dentro da empresa para que, a nossa área não poderia saber para quem era o recurso e quem pegava o recurso não poderia saber de que forma que eu fazia com que esse recursos chegasse. Era para blindar as áreas e não ter a informação do todo.”

Após o depoimento, a comissão aprovou a convocação de Léo Pinheiro, ex-presidente da OAS, e dos dois ex-diretores da empreiteira citados por Breghirolli para prestar esclarecimentos.

A delação de Breghirolli, bem como os nomes dos supostos destinatários da propina, ainda estão sob sigilo. O vereador Julinho Fuzari (PSDB), relator da comissão, propôs um requerimento, aprovado pelos pares, para que seja formalizado um pedido ao Ministério Público Federal de acesso à lista com os nomes de todos os políticos e agentes públicos mencionados na delação.

Quando um acordo de colaboração é fechado, o delator deve dizer quais provas pode oferecer para corroborar seus relatos. No caso da Odebrecht, por exemplo, mais de terços dos procedimentos abertos a partir das colaborações de executivos e funcionários da empreiteira foram arquivados no Supremo Tribunal Federal a pedido da Procuradoria Geral da República – escassez de provas é justamente o motivo mais comum.

COM A PALAVRA, O EX-PREFEITO LUIZ MARINHO

“É mais uma inverdade e uma falácia. Todas as contas da minha campanha à reeleição foram devidamente aprovadas pela Justiça Eleitoral. Em nenhuma das campanhas que participei recebi ou autorizei o recebimento de quaisquer recursos não contabilizados. Vale lembrar que a história recente mostra como as delações premiadas foram construídas no nosso País e o que as pessoas, sob pressão, são capazes de inventar.

Desafio esse delator a provar essas invenções.

E é lamentável que no momento em que ultrapassamos a marca de mais de duas mil e duzentas mortes por covid-19 na cidade os vereadores da base do atual prefeito mostrem que, a exemplo do chefe deles, não se preocupam com a vida dos são-bernardenses. Se prestam a servirem de instrumentos para a perseguição política em vez de construir soluções para que mais mortes sejam evitadas.

Assim como o Congresso Nacional a Câmara Municipal de São Bernardo deveria investigar a conduta do atual prefeito e a aplicação dos recursos públicos destinados ao enfrentamento da pandemia.

Essa CPI é mais um factoide de quem não sabe o que fazer para chamar atenção, desviar a atenção para os verdadeiros problemas da cidade e que não gosta muito de trabalhar.”

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