Delator da Lava Jato diz que ‘responsabilidade é da diretoria da Petrobrás’

Paulo Roberto Costa depôs na Justiça Federal e afirmou que 'diretoria aprovava tudo isso'

Redação

28 Abril 2015 | 20h34

Por Ricardo Brandt, Mateus Coutinho e Julia Affonso

O ex-diretor de Abastecimento da Petrobrás Paulo Roberto Costa afirmou à Justiça Federal nesta terça feira, 28, que ‘a responsabilidade é da diretoria da Petrobrás’. Ao falar sobre o esquema cartelizado de empreiteiras e situações que deram margem a desvios, Costa foi categórico. “Eu vejo na imprensa, às vezes, que toda responsabilidade é de Paulo Roberto Costa e de Renato Duque (ex-diretor de Serviços da estatal petrolífera). Não é. A responsabilidade é da diretoria da Petrobrás. Porque a Petrobrás tem uma diretoria. A responsabilidade é da diretoria que aprovava isso tudo.”

Paulo Roberto Costa está preso em regime domiciliar. Ele depôs nos processos da Operação Lava Jato. É o primeiro delator do caso. Revelou repasses de porcentuais sobre contratos para partidos políticos e admitiu ter recebido valores desviados de contratos bilionários da Petrobrás. Como delator, ele é obrigado a depor em todas as ações decorrentes da Lava Jato.

Em um trecho de seu novo depoimento, na Justiça Federal em Curitiba, base da Lava Jato, ele afirmou que as empreiteiras UTC Engenharia e Odebrecht lhe “apresentaram sistemática de cartel na Petrobrás”.
Segundo ele, representantes da Odebrecht e da UTC Engenharia “fizeram o primeiro contato do cartel de empreiteiras em sua área”.

“A partir da entrada de mais obras e mais empreendimentos essas empresas começaram a me procurar e eu tomei conhecimento com mais detalhe dessa sistemática do cartel dentro da Petrobrás”, declarou Costa, ouvido em cinco processos criminais envolvendo as empreiteiras Camargo Corrêa, OAS, UTC, Galvão Engenharia, Mendes Júnior e Engevix.

“Foi a partir do final de 2006, início de 2007, que eu tive mais aproximação e mais contato com essas empresas e fiquei conhecendo com mais detalhes esse processo todo, que eu não tinha conhecimento no início da minha gestão (2004), por não ter obra.”

Costa é o primeiro delator da Lava Jato. Foto: Dida Sampaio/Estadão

Costa é o primeiro delator da Lava Jato. Foto: Dida Sampaio/Estadão

Costa afirmou ao juiz federal Sérgio Moro – que conduz os processos da Lava Jato – que foi a partir das obras da Refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco (iniciada em 2007), e do Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj), iniciado no mesmo ano, que ele tomou conhecimento do esquema sistematizado de cartelização nas obras da estatal.

E do que o sr. tomou conhecimento?, questionou o juiz federal Sérgio Moro.

“As empresas me procuraram mostrando interesses em fazer as obras. As grandes empresas que estavam no cartel participaram com exclusividade desse processo”, respondeu Paulo Roberto Costa.
O magistrado pediu para que o delator apontasse quais empresas especificamente o teriam procurado. Ele respondeu:

“Eu tive mais contato com a UTC e com a Odebrecht.”

VEJA A ÍNTEGRA DO INTERROGATÓRIO DE COSTA

O presidente da UTC, Ricardo Pessoa, que estava preso em Curitiba desde o dia 14 de novembro, ganhou habeas corpus nesta terça feira, 28, do Supremo Tribunal de Federal (STF). Ele vai cumprir prisão preventiva em casa.
Foi nesses contatos que Costa diz ter sido apresentado ao esquema de cartel e corrupção, com detalhamento. Ele citou Pessoa e dois executivos da Odebrecht, Márcio Faria e Rogério Araújo.

Em suas delações, o ex-diretor confessou que recebeu US$ 23 milhões na Suíça, por indicação dos executivos da Odebrecht. Ao ser indagado sobre sua nomeação para a Diretoria de Abastecimento da Petrobrás, no início do primeiro governo Lula, o delator detalhou que foram os ex-deputados do PP José Janene (PR, morto em 2010) e Pedro Corrêa (PE, preso em Curitiba) que fizeram a primeira reunião para indicação de seu nome ao cargo.

A negociação, segundo ele, durou quatro meses e foi aprovada não só pelo Ministério de Minas e Energia como pela Presidência da República.

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