Delação de executivos da Camargo Corrêa trará novos nomes da Petrobrás

Delação de executivos da Camargo Corrêa trará novos nomes da Petrobrás

Dalton Avancini e Eduardo Leite, presos há 103 dias pela Operação Lava Jato, decidem contar o que sabem da corrupção na Petrobrás; novos nomes da estatal poderão ser citados

Redação

27 Fevereiro 2015 | 22h17

Por Ricardo Brandt, enviado especial a Curitiba, Julia Affonso e Fausto Macedo

Após 103 dias presos na custódia da Polícia Federal no Paraná, base da Operação Lava Jato, dois altos executivos da empreiteira Camargo Corrêa fecharam acordo de delação premiada, na noite desta sexta-feira, 27,  com a força-tarefa que investiga cartel e corrupção na Petrobrás. Além de revelarem novos nomes de funcionários da estatal envolvidos no esquema, as novas colaborações têm como objetivo ampliar o foco da investigação para outras estatais e para obras do setor elétrico.

Em troca de uma eventual redução de pena e da liberdade quase imediata, o diretor-presidente da Camargo Corrêa Construções e Participações S.A., Dalton dos Santos Avancini, e o vice, Eduardo Hermelino Leite, o Leitoso, resolveram contar o que sabem sobre o cartel que teria controlado contratos bilionários da Petrobrás entre 2004 e 2012. Cada um concordou em pagar multa de R$ 5 milhões.

 

Os executivos da Camargo Corrêa Eduardo Leite (esq.) e Dalton Avancini/Reprodução

Os executivos da Camargo Corrêa Eduardo Leite (esq.) e Dalton Avancini/Reprodução

Avancini e Leite são os primeiros executivos de uma grande empreiteira envolvida no escândalo que se dispõem a revelar os segredos da corrupção na Petrobrás. Após horas de reunião com investigadores da Lava Jato, eles se comprometeram a apresentar documentos e apontar nomes de outros dirigentes da Petrobrás envolvidos no esquema.

Até agora, estão no escopo da investigação da Lava Jato as Diretorias de Serviços, Internacional e Abastecimento, que foram ocupadas por Renato Duque, Nestor Cerveró e Paulo Roberto Costa, respectivamente – indicados politicamente pelo PT, PMDB e PP.

Eles se comprometem a apresentar muitos documentos e apontar nomes de outros dirigentes da Petrobrás. As delações não vão se restringir aos negócios suspeitos da Petrobrás. Deverão ser citados contratos de outras estatais.

Belo Monte. As delações não vão se restringir aos negócios suspeitos da Petrobrás. Uma das obras que podem entrar no rol de projetos que foram alvo do cartel de empreiteiras é a construção da Usina de Belo Monte. A extensão das investigações para outros setores era uma das principais metas da força-tarefa com as novas delações.

Foram quase dois meses de negociações intensas. De um lado, advogados constituídos pelos executivos da Camargo Corrêa. De outro, procuradores da República e delegados da Polícia Federal que compõem a força-tarefa da Lava Jato.

Os dois deverão permanecer na Custódia da PF em Curitiba por mais 15 dias, pelo menos. Uma das exigências da força tarefa é que os alvos da Lava Jato completem quatro meses confinados, a contar da data da prisão, que ocorreu no dia 14 de novembro de 2014, quando foi deflagrada a Operação Juízo Final, sétima fase da Lava Jato que fez ruir o poderoso braço econômico do cartel.

Ambos são réus por corrupção ativa, formação de organização criminosa e lavagem de dinheiro. Nas próximas duas semanas deverão realizar de 4 a 5 depoimentos em regime de delação.

Um terceiro dirigente da Camargo Corrêa, João Ricardo Auller, presidente do Conselho de Administração, também está preso na PF pela mesma acusação. Mas ele ficou de fora do acordo com a força tarefa.

Não foi uma negociação tranquila com os executivos da Camargo Corrêa. Ao contrário, tensas reuniões marcaram a elaboração do acordo. Durante cerca de dois meses as propostas e condições dos dois lados se arrastaram.

Há cerca de 10 dias o diálogo foi cortado e o pacto caminhou para o fracasso. Um ponto que fez emperrar por largo período o debate é relativo a desvios em outras estatais. Os executivos relutam em apontar situações relativas a contratos com outras estatais. A força tarefa, então, advertiu que iria interromper a negociação. Mas logo os entendimentos foram retomados.

Outros 13 personagens do escândalo já firmaram acordo de colaboração, entre eles o ex-diretor de Abastecimento da estatal, Paulo Roberto Costa, o doleiro Alberto Youssef, executivos que atuaram pela empreiteira Toyo Setal e o engenheiro Shinko Nakandakari, que declarou ter levado “dinheiro em espécie” para o ex-diretor de Serviços da Petrobrás Renato Duque.

Defesas. O criminalista Celso Vilardi declarou na noite desta sexta feira, 27, que confirmado o acordo vai substabelecer os poderes que lhe foram outorgados pelo executivo Dalton Avancini e permanecer na defesa de João Ricardo Auller. Segundo o advogado, Auller “não tem interesse em qualquer tipo de acordo”.

O criminalista Antônio Cláudio Mariz de Oliveira, que defende Eduardo Leite, afirmou. “Não é propriamente uma delação premiada. Na verdade é uma colaboração que o meu cliente está dando para as investigações, trazendo fatos até então desconhecidos, baseados em uma documentação por ele fornecida.”

Mariz de Oliveira ressaltou que “não está participando das negociações do acordo”. “Acompanho à distância, mas entendo que em face de prisão preventiva sem nenhuma necessidade e motivação ele (Eduardo Leite) se viu na contingência de celebrar o acordo de cooperação com o Ministério Público.”

Em nota divulgada neste sábado, 28, por sua Assessoria de Imprensa, a Camargo Corrêa assinalou que não participou do acordo de colaboração de seus executivos. Mas reafirma que permanecerá “à disposição das autoridades”.

Compromete-se, ainda, a “sanar eventuais irregularidades, aprimorando a governança administrativa”.

 

 

Mais conteúdo sobre:

Camargo CorrêadelaçãoLava Jato