Déjà vu

Déjà vu

Ana Elisa Bacha Lamounier*

31 Agosto 2018 | 10h00

Ana Elisa Bacha Lamounier. FOTO: JÔ MANTOVANI

“Se queremos progredir, não devemos repetir a história, mas fazer um história nova” (Mahatma Ghandi)

O processo de aperto monetário nos Estados Unidos, ainda que esperado e bem moderado, tem feito algumas vítimas pelo meio do caminho, sendo a Argentina e a Turquia os casos mais eloquentes.

Ambos possuem muitas similitudes, o que nos mostra que esse tipo de crise é uma espécie de história sem fim, se repetindo de tempos em tempos. Por mais que acumulemos experiência ao longo dos anos, insistimos em cometer sempre os mesmos erros.

Vale a pena sintetizarmos o que aconteceu nesses dois países para que não repitamos os seus erros, como a nossa campanha eleitoral parece sugerir que possa acontecer.

A atual gestão encontrou a Argentina em difícil situação após anos de populismo econômico: um elevado déficit público, muitos preços controlados e represados e uma inflação que, na América Latina, só não ultrapassava a da Venezuela.

A agenda para recompor a política econômica era, portanto, carregada e muito impopular. As tarifas de energia e transporte foram ajustadas e gerou certo desconforto.

Uma seca historicamente devastadora quebrou a safra de grãos, reduziu a oferta de alimentos e as exportações, afetando, por tabela, as receitas públicas, além de agregar mais pressão sobre a inflação, levando-a a ultrapassar a casa dos 20% ao ano.

O governo não soube lidar com a situação: foi tímido na política fiscal ao optar por um ajuste mais brando em um prazo mais longo, o que sobrecarregou a política monetária.

Houve também muita inabilidade na fixação da meta de inflação, excessivamente baixa em relação à inflação corrente, e tão logo os preços ultrapassaram o teto superior da banda, o Banco Central mudou a meta, desancorando as expectativas. Além disso, esse baixou os juros no momento em que a inflação subia, de modo que revelou à sociedade certo populismo na administração dos juros.

Desconfiada, a população correu para o dólar, tradicional porto seguro dos poupadores argentinos, levando o país a uma perda significativa de reservas e a uma crise cambial.

Na Turquia não foi muito diferente, apesar de se ter seguido outra trilha: o objetivo do governo era, de certa forma, encaixar o forte crescimento econômico vivido até recentemente na agenda política, a fim de se perpetuar no poder.

Embalado pelas baixas taxas de juros internacionais e pelo bom fluxo de capitais ao redor do globo, as autoridades utilizaram ao longo dos últimos anos fortes estímulos fiscais para manter a economia em ritmo acelerado. O resultado foi o aumento do déficit do governo, da dívida pública e da inflação, que adentrou a casa dos dois dígitos.

Temeroso que um aperto na política monetária comprometesse o desempenho da economia e, por tabela, da campanha eleitoral, o governo pressionou o Banco Central para que não subisse os juros.

As ingerências do executivo na política econômica geraram grande desconfiança nos agentes econômicos e o resultado foi uma corrida pelo dólar, desvalorizando fortemente a moeda local, a lira turca.

Como o país tem baixa poupança interna e um grande déficit externo, depende fundamentalmente de recursos internacionais para financiar o balanço de pagamentos.

Exatamente como a Argentina, a Turquia tem o chamado duplo déficit: fiscal e em transações correntes.

Além disso, o setor privado, animado com o forte crescimento dos últimos anos, se endividou fortemente em moedas internacionais, piorando ainda mais a situação das contas externas. Uma recessão, aliada à desvalorização da moeda, pode tornar essas empresas inadimplentes e afetar o sistema bancário.

Seria a tempestade perfeita.

A economia global vive um momento de grande desafio: os Estados Unidos estão em franco processo de normalização de sua política monetária, o que implicará em juros mais elevados e, consequentemente, em menor oferta de capitais ao redor do globo.

Governos atentos e preocupados com o bom estado de suas economias estariam, já há algum tempo, direcionando suas políticas para esta nova conjuntura.

Quem o fez, atravessará a tormenta em boas condições.

Quem não o fez, deve-se preparar para as instabilidades decorrentes.

E que aprendam a lição que a história nos ensina.

*Ana Elisa Bacha Lamounier, CEO Founder da Sparks Capital

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