‘Deixa eu só terminar de fazer uma fogueira aqui’

‘Deixa eu só terminar de fazer uma fogueira aqui’

Ludmila Pereira, presa na Operação Pripyat, caiu no grampo em que diz a seu interlocutor que está destruindo provas; empresa da família teria intermediado propina entre empreiteiras e dirigentes da Eletronuclear

Julia Affonso e Fausto Macedo

08 de julho de 2016 | 12h22

Obras de usina Angra 3, alvo da Lava Jato / Foto: Fabio Motta/AE

Obras de usina Angra 3, alvo da Lava Jato / Foto: Fabio Motta/AE

Monitoramento telefônico da Operação Pripyat flagrou Ludmila Gabriel Pereira, alvo da investigação sobre corrupção nas obras da Usina de Angra 3, tentando destruir provas, rasgando e queimando papéis. Ludmila Pereira é uma das sócias da Flexsystem Engenharia S.A, que teria intermediado propina de empreiteiras para ex-dirigentes da Eletronuclear. Ela foi presa temporariamente sob determinação do juiz federal Marcelo Bretas, da 7ª Vara Federal Criminal do Rio. A Polícia Federal afirma que ela ‘promoveu incansavelmente’ destruição de documentos.

Em um dos diálogos capturados pela Polícia Federal, Ludmila Pereira conversa com sua mãe, Marlei Pereira.

“LUDMILA – Oi mami.
MARLEI – Oi minha filha, tudo bem?
LUDMILA – Tudo bem. Tô aqui esperando ela fazer as liberações.
MARLEI – Cê tá com ela?
LUDMILA – Tô, ela foi lá pra dentro fazer a transferência. Ela me deixou
aqui…
MARLEI- É que ela, ela me ligou e perguntou do seu pai.
LUDMILA – Exatamente, eu falei que ele tava no hospital”
“LUDY – Na verdade, MARY, eu to aqui, rasgando papel, né, que você
(inaudível) pediram …
MARY – Ah…
LUDY – a TATI fugiu ontem …
MARY – Entendi”
“ LUDMILA – Eu vou aí, deixa só eu terminar de fazer uma fogueira aqui que eu to fazendo, que eu acho que eu …
ALEX SANDRO – Fogueira?
LUDMILA – Ah, eu tava rasgando papel, sabe?
(…)
LUDMILA – Tem … queima tudo, exatamente… “

Ludmila Pereira e Tatiana Gabriel Pereira são sócias remanescentes das empresas Flexsystem Sistemas Gerenciais Flexíveis e Flexsystem Engenharia S.A, após o falecimento do pai Ney Gebran Pereira, que era quem tomava conta dos negócios. Para os investigadores, Ludmila Pereira tinha conhecimento a respeito dos negócios de Ney Gebran, pois, além de sócia das empresas Flexsystem, elaborava as declarações fiscais do pai.

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A Receita aponta que a Flexsystem Engenharia S.A ‘recebeu pagamentos significativos de empreiteiras e manteve vultuosa movimentação financeira’. O ex-diretor técnico Luiz Soares e o ex-superintendente de Construção José Eduardo Costa Mattos, ambos da Eletronuclear, teriam indicado, de acordo com a Procuradoria da República, a empresa Flexsystem ‘para ocultar o repasse da vantagem ilícita’.

A Operação Pripyat revelou que o ex-presidente da Eletronuclear, almirante Othon Luiz Pinheiro da Silva – preso na quarta-feira, 6, no Rio – recebeu R$ 12 milhões em propinas das obras de Angra 3. O valor corresponde a 1% do montante da construção, orçada em R$ 1,2 bilhão. Outra parte da propina, segundo a Procuradoria, foi dividida entre cinco ex-dirigentes do alto escalão da estatal. A investigação mostra que ele dividiram 1,2% do valor total da obra: Luiz Soares (0,3%), ex-diretor de Administração e Finanças Edno Negrini (0,3%), ex-diretor de Planejamento, Gestão e Meio Ambiente Persio Jordani (0,2%), ex-superintendente de Gerenciamento de Empreendimentos Luiz Messias (0,2%) e José Eduardo Costa Mattos (0,2%).

Segundo a investigação, após a morte de Ney Pereira, em 2 de março deste ano, a viúva Marlei e a filha Ludmila buscaram liberar ‘expressivas quantias de dinheiro do espólio omitindo seu falecimento’.

“Ludmila e sua mãe Marlei mentiram diversas vezes à gerente do banco afirmando que Ney ainda estava vivo, quando sabiam que o mesmo já havia falecido, com a intenção de baixar uma aplicação de R$ 70 mil. Ludmila era ainda responsável pelas movimentações financeiras de seu pai junto às instituições financeiras e pela sua declaração de ajuste anual do imposto de renda, o que evidencia seu conhecimento do esquema criminoso de pagamento de propinas ora investigado”, aponta relatório da Polícia Federal.

“Não obstante, o mais grave ainda estaria por vir: a destruição sistemática de papéis de Ney. Não foi possível identificar que papéis eram esses, mas Ludmila promoveu incansavelmente sua destruição, com o conhecimento de sua irmã Tatiana, sócia majoritária da Flexsystem Sistemas Gerenciais.”

 

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