Defesa de universitário negro que alega ‘flagrante forjado’ pede 10 diligências para confrontar versão de PMs

Defesa de universitário negro que alega ‘flagrante forjado’ pede 10 diligências para confrontar versão de PMs

Após passar dois meses preso, Gabriel Apolinário, de 18 anos, deixou a prisão por determinação do Superior Tribunal de Justiça, mas ainda pode virar réu por tráfico de drogas

Rayssa Motta

22 de setembro de 2020 | 06h35

A defesa do jovem Gabriel Apolinário, de 18 anos, se adiantou a um eventual recebimento de denúncia contra o estudante e apresentou, na semana passada, uma prévia das alegações questionando sua prisão. O documento foi encaminhado à 11ª Vara Criminal de São Paulo.

Na manifestação, o advogado Bruno Borragine, sócio do escritório Bialski Advogados, que representa Apolinário, pede que a Justiça autorize uma série de diligências para confrontar a versão dos policiais militares envolvidos na prisão do estudante sob acusação de tráfico de drogas. Segundo a família, o flagrante foi forjado pela PM.

Entre os pedidos, estão o acesso a conversas de rádio entre os agentes responsáveis pela abordagem, a indicação de testemunhas a serem ouvidas no inquérito e, caso exista aparelho de geolocalização nas viaturas, a apresentação do trajeto percorrido pelos policiais até o local do suposto flagrante. Isso porque o estudante diz ter sido preso na rua José Manoel Camisa Nova, no bairro Jardim São Luís, que fica na zona sul da capital paulista, e o boletim de ocorrência indica que a prisão aconteceu a quase dois quilômetros dali.

Gabriel Apolinário. Foto: arquivo pessoal

Gabriel Apolinário passou quase dois meses preso até que o ministro Sebastião Reis Júnior, do Superior Tribunal de Justiça (STJ), determinou sua soltura no último dia 11. Na decisão, considerou a detenção ‘desproporcional’ e lembrou que, em razão da pandemia do novo coronavírus, prisões processuais devem ser decretadas com ‘máxima excepcionalidade’.

Agora, a defesa trabalha para provar a inocência do jovem antes mesmo do julgamento do mérito da denúncia. Mensagens reunidas no processo mostram que, uma semana antes da prisão, Apolinário havia sido ameaçado por policiais. “Quase fui preso. Eles estavam cheios de drogas no carro. Eles iam forjar. Ele falou que ia me levar para subir de patente”, contou o jovem a um amigo.

No dia do ‘flagrante’, imagens de câmeras de segurança mostram que o estudante saiu com roupa esportiva e sem mochila. A outro amigo, avisou que sairia para correr. Não voltou.

Os policiais responsáveis pela prisão afirmaram que ele não portava drogas, mas indicou a localização de uma mochila, supostamente escondida em um matagal próximo, com 208 papelotes com cocaína, 487 supositórios contendo cocaína e 20 invólucros plásticos com maconha.

“As provas existem, são contundentes e serão, todas, apresentadas perante a ação penal para demonstrar que Gabriel no momento é inocente”, afirma o advogado do universitário.

Procurada pela reportagem após a soltura do jovem, a Polícia Militar informou que ‘ao tomar conhecimento do caso, a Corregedoria solicitou ao batalhão responsável pela área dos fatos que apure o ocorrido’.

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