Defasagem digital

Defasagem digital

José Renato Nalini*

21 de julho de 2021 | 12h00

José Renato Nalini. FOTO: ALEX SILVA/ESTADÃO

Aquilo que se previa acabou acontecendo. O mercado precisa de quadros habilitados em tecnologias e a escola brasileira não produz o número necessário. É claro que existem alguns nichos de excelência, mas em proporção reduzidíssima. A escola pública, principalmente, continua a transmitir informações quase sempre desatualizadas, que qualquer criança ou jovem obtém instantaneamente, com um “clique” apenas, nos grandes fornecedores de dados.

A pesquisa Tech Jobs Report 2021, realizada pela Gama Academy, uma escola de formação para o mercado digital, há mais de vinte mil vagas para programadores, vendedores no e-comerce e marketing digital nos próximos meses. Só que essa demanda não será atendida.

As empresas inteligentes cuidam – elas mesmas – de propiciar esse ensino/aprendizado ao que se iniciam numa atividade para a qual a educação formal não oferece quadros suficientes.

Existe uma evidente lógica nessa nova senda. Procurar pessoas já habilitadas é uma alternativa, mas não funciona para quem pensa num contexto. Fazer com que um bom profissional deixe o seu posto numa empresa para ser admitido em outra, é prejudicar todo o ecossistema.

Já o treinamento propiciado a quem foi recém-contratado funciona melhor. Um aprendizado simultâneo ao desempenho do trabalho engaja melhor o servidor. A semente que teve início em algumas empresas que levam a sério a cultura ESG precisa se disseminar por todas aquelas com grande potencial de empregabilidade.

O mercado tem alterado os seus critérios de recrutamento, para selecionar os melhores talentos, não necessariamente à luz da educação formal. O ensino superior não tem condições de focar especificidades ou singularidades de cada tipo de trabalho. As Universidades Corporativas é que têm essa condição, pois sabem o que querem e sabem investir naqueles saberes necessários à sua atividade. Os projetos paralelos à educação disponível na esfera convencional são muito mais eficazes e cumprem a missão de capacitar com foco na empregabilidade, não apenas na obtenção de um diploma.

Embora seja obrigação do Estado, a educação é também responsabilidade da família e da sociedade. A melhor instituição que a sociedade civil conseguiu consolidar no Estado de direito é a empresa. Ela sobrevive aos percalços de um governo que só pensa em permanecer no poder e que é imprevisível, incompetente e a cada dia mais oneroso.

A pandemia não só escancarou a miséria e a exclusão, como forneceu o espetáculo indecente das entranhas ineficientes e despreparadas do governo federal, incapaz de oferecer resistência à catástrofe.

A população vulnerável é a mais prejudicada com o impacto da peste. Ainda bem que o Brasil tem uma juventude que enxerga a realidade e se põe a realizar algo para minorar a situação miserável de milhões de semelhantes.

As startups constituem um fenômeno que precisa ser encarado com seriedade pelo Estado e merecer estímulo e apoio. Se o ensino médio tivesse ensinado programação, em lugar de fazer o adolescente decorar aquilo que o Google oferece com exação muito maior – e de forma colorida e musicada – o Brasil já seria outro.

Mas o protagonismo individual de jovens que não esperaram e fizeram acontecer é uma esperança que deve animar a todos. Há muitos bons exemplos, embora o País precise de escalabilidade nesse campo em que a maioria sequer engatinha.

Penso naquilo que a empresa Vivenda se propôs a fazer, e que foi objeto de reportagem de Bianca Zanatta para o Estadão (11/7). Especializada em reformas de casas na periferia e nas favelas, tornou-se uma holding. Tem como parceira a startup Arquitetas Nômades, fundada pela arquiteta e urbanista Amanda Carvalho. Ela acredita em tecnologia social, ou seja, soluções criativas para inclusão social e melhoria das condições de vida para famílias de baixa renda.

A Vivenda conseguiu criar um mecanismo de crédito específico para esse público e hoje a reforma se faz com entrada parcelada em até 8 vezes e o restante em até 30 parcelas, com a menor taxa de juros do mercado.

Quantas construtoras existem em São Paulo? Quantas delas oferecem algo semelhante para minorar o problema da moradia, um dos mais aflitivos dessa parcela populacional?

Outros jovens estão realizando trabalhos análogos e é obrigação da parte incluída também fazer algo para que os excluídos possam participar do banquete em que são servidos os bens da vida essenciais.

O mundo seria melhor se todos pensassem assim. E um bom começo é acreditar mais nas modernas tecnologias, ferramentas que existem para servir à humanidade e não representam finalidades em si mesmas.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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