Decisão premente para a segurança alimentar

Claudio Furquim e Onivaldo Comim*

10 Maio 2018 | 04h00

Dia 11 de maio de 2018 poderá ser um dia histórico para o abastecimento. Na ocasião, o governo do Estado deverá anunciar a escolha, dentre quatro propostas, do projeto relativo à construção de um novo centro atacadista e distribuidor de hortifrutigranjeiros, pescados e flores para a capital paulista. Trata-se de medida urgente, pois são muito precárias as condições do antigo Entreposto Terminal de São Paulo da Ceagesp, na Vila Leopoldina. Sua inauguração, em 1966, foi um marco para o setor. Entretanto, passados 52 anos, não tem mais condições operacionais adequadas. Comprimido pela expansão urbana e tecnicamente incapaz de fazer frente à demanda gerada pelo crescimento demográfico, apresenta hoje mais problemas do que soluções.

Sua estrutura não oferece condições sanitárias, de higiene e mobilidade para as 50 mil pessoas que circulam diariamente no local, dentre as quais feirantes, supermercadistas, pequenos e médios varejistas, representantes de sacolões, peixarias e de restaurantes, que ali compram as mercadorias para movimentar seus negócios. O centro tem três mil permissionários, dentre produtores e comerciantes atacadistas, bem como prestadores de serviços de apoio a todo esse público.

Em 1966, a cidade de São Paulo tinha 5,11 milhões de habitantes e o Brasil, 85,31 milhões. Hoje, a população da capital paulista é de 12,10 milhões, com crescimento de 136,8% nesses 52 anos, e a do País, 208,1 milhões, 143,9% a mais (fontes dos dados demográficos: Fundação Seade e IBGE). O velho entreposto, porém, não evoluiu na mesma proporção. Em 1977, a Ceagesp foi federalizada, como parte do pagamento da dívida do Estado com a União. Gerida desde então pelo Governo Federal, a companhia foi paulatinamente perdendo poder de investimento na modernização do centro de abastecimento, que se tornou obsoleto.

Hoje, o velho entreposto não tem capacidade para atender ao volume médio de comercialização de 283 mil toneladas/mês ou 3,4 milhões anuais, receber produtos de 1.500 municípios, 22 estados brasileiros e 19 países, oferecer conforto, segurança e sanitários para 50 mil pessoas e mobilidade adequada para os 12 mil veículos que ali circulam todos os dias. Encravado numa área nobre da cidade, sem espaço para crescer e atingindo por enchentes na época das chuvas, o centro gera congestionamentos de trânsito internos e na região, apresenta condições precárias de higiene para pessoas e produtos e favorece o desperdício de alimentos e o seu encarecimento, provocados por todas essas dificuldades e pela logística inadequada.

Esses graves problemas têm impacto em todo o abastecimento da cidade de São Paulo e da Região Metropolitana, mas também no Estado e no País, em prejuízo da população. O comércio atacadista de hortifrutigranjeiros da capital paulista tem significativa influência nacional. Por exemplo, quebras na produção de frutas, verduras ou legumes em outros estados podem ser supridas pelo mercado paulistano, que tem papel regulador. Outro fator importante é que alguns produtos estrangeiros somente são disponibilizados no Brasil devido à sua compra em escala por importadores que os distribuem a partir de São Paulo. Os mercados regionais não têm volume para importá-los a preço competitivo e seriam privados de algumas mercadorias.

É premente, portanto, uma nova central de abastecimento na capital paulista. Para que o projeto atenda à necessidade dos produtores e comerciantes permissionários, do mercado varejista e, sobretudo, da sociedade, é fundamental que não repita os erros e problemas do Entreposto de Vila Leopoldina e que contemple o melhor para todos coletivamente. Nesse sentido, é crucial a clareza do governo quanto às informações e decisões que impactam os negócios do setor.

São Paulo, uma das maiores cidades do mundo, não pode mais prescindir de um entreposto eficaz para o abastecimento de hortifrutigranjeiros. Trata-se de uma questão premente de segurança alimentar!

*Claudio Furquim é presidente do Sindicato dos Permissionários em Centrais de Abastecimento do Estado de São Paulo (Sincaesp)

*Onivaldo Comim é presidente da Associação dos Permissionários do Entreposto de São Paulo (APESP)

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