Decisão do Copom sob um cenário de instabilidade econômica mundial

Pedro Raffy Vartanian*

08 Fevereiro 2018 | 04h15

É praticamente consensual o fato de que a Taxa Selic será reduzida para 6,75% na reunião do Copom de fevereiro. No entanto, vale destacar que a instabilidade na economia internacional e o cenário econômico prospectivo tornam esse consenso distinto dos anteriores, a despeito de uma forte queda da inflação no Brasil, no período recente, acompanhada de perspectivas de valorização da moeda brasileira.

A principal questão que merece destaque refere-se ao atual patamar da taxa de juros nos EUA. Após a crise financeira internacional de 2008, que teve origem nos EUA, uma das medidas do FED (Federal Reserve, o Banco Central dos EUA), foi injetar trilhões de dólares na economia estadunidense com o objetivo de estimular o crédito, o consumo das famílias e, consequentemente, a produção e o emprego. No entanto, vale destacar que a injeção de recursos provoca um cenário de baixas taxas de juros na economia e que, nesse contexto, há espaço para processos especulativos e formação de “bolhas especulativas” ou “bolhas econômicas”, já que a abundância de recursos nas mãos dos investidores acaba promovendo a busca por rentabilidade maior do que a taxa de juros da economia, que fica próxima de zero. A “bolha” tem como característica uma forte alta no preço de um ativo, geralmente em um curto espaço de tempo, cujo valor acaba se desviando do seu valor intrínseco. Em outras palavras, as pessoas compram um determinado ativo, como uma ação, uma criptomoeda, uma tulipa (isso mesmo, já houve uma bolha de tulipas na história!) por um valor muito maior do que seu valor de fato e, em algum momento, a bolha “estoura” e o preço do ativo cai drasticamente, levando muitos investidores ao prejuízo.

A discussão sobre a formação de bolhas é bastante extensa e merece uma discussão em outro artigo. Vale destacar, contudo, que o mercado acionário dos EUA apresentou um crescimento expressivo após a crise de 2008, de 400% desde 2009 até janeiro de 2018. Em outras palavras, o capital investido em ações dos EUA foi multiplicado por 4 em menos de uma década. Considerando que se trata de uma economia desenvolvida e de um investimento realizado em dólares, pode-se afirmar que o número é impressionante.

Outra alta expressiva, que tem todas as características de uma “bolha”, ocorreu no mercado de criptomoedas. A mais conhecida de todas, o bitcoin, teve uma queda de aproximadamente 60% desde seu pico. A criptomoeda caiu para cerca de US$ 8000 após ter ultrapassado US$ 19000 em dezembro do ano passado.

Do ponto de vista internacional, mesmo que o mercado acionário estadunidense não esteja em uma situação de bolha, dois aspectos merecem ser destacados: a forte alta das ações citada anteriormente e a maior queda, em termos históricos, do índice Dow Jones em pontos no dia 5 de fevereiro de 2018. Obviamente que a queda de mais de 1500 pontos em um único dia tem relação com o atual patamar da bolsa, em torno de 25000 pontos, mas uma queda tão acentuada decorrente de um sinal de que a elevação da taxa de juros nos EUA pode ser mais rápida do que o esperado em decorrência do comportamento do mercado de trabalho gera preocupações no futuro próximo.

Uma possível queda mais acentuada da bolsa de valores dos EUA, associada a um cenário de elevação dos juros pelo banco central americano acarretaria potenciais problemas para as economias emergentes, com destaque para o Brasil. Os primeiros efeitos, já observados durante o fim do programa de estímulos monetários, por parte do FED, seriam a desvalorização cambial e a elevação da taxa de juros no Brasil. Como efeitos adicionais, a alta da taxa de juros nos EUA provocaria uma desaceleração na economia mundial, com efeitos sobre os preços das commodities e sobre a balança comercial dos países emergentes, com destaque para o Brasil.

O que se espera é que a alta da taxa de juros nos EUA ocorra de forma bastante gradual e sem surpresas, para que a economia mundial possa consolidar uma trajetória de crescimento consistente nos próximos anos. Entretanto, vale destacar que a presença de incertezas e potenciais riscos para a economia brasileira decorrentes do ambiente internacional combinado com uma certeza consensual de queda das taxas de juros no Brasil não tem sido algo recorrente nos últimos anos.

*Pedro Raffy Vartanian é Coordenador do Mestrado Profissional em Economia e Mercados da Universidade Presbiteriana Mackenzie e Pesquisador do Centro Mackenzie de Liberdade Econômica.

Mais conteúdo sobre:

Artigo