Decepem o polegar de Cesar

Decepem o polegar de Cesar

Sillas de Souza Cezar*

29 de março de 2020 | 12h00

Sillas de Souza Cezar. FOTO: DIVULGAÇÃO

Uma antiga lenda tupinambá diz que, quando uma mãe macaco queria advertir seus filhotes sobre violência nas brincadeiras entre os irmãos, sugeria que não se comportassem como os humanos. Naturalmente, se referia ao fato dos humanos matarem uns aos outros, algumas vezes só por, digamos, hábito ou diversão.  A lenda parece justa se pensarmos que os Tupinambás ficaram famosos na Europa por seus rituais, nos quais devoravam seus adversários em festas de gala, com open food de carne humana.

Para não parecer bairrismo, falemos da antiga Roma, onde reis bacanas, com o uso do polegar, condenavam à morte, ou à vida, escravos que faziam de conta serem soldados, em batalhas falsas, que contavam histórias mentirosas sobre feitos suspeitos. As mortes, nesses casos, serviam para dar realismo às narrativas e agradar um punhado de gente orgulhosa de seus ócios e vícios.

Trevas de ignorância verteram sangue por séculos, até que ideias iluministas surgissem com propostas e revoluções redentoras de uma humanidade perdida. Falharam miseravelmente. Mas sobrou luz suficiente para nortear novas formas de convívio social. E nelas o polegar do Cesar foi decepado e a carne humana saiu do cardápio. Não seria mais o chefe de Estado que decidiria quem vive e quem morre. Pelo menos não no papel.

O pronunciamento do presidente Jair Messias Bolsonaro na noite de 24 de março de 2020 representa, sob diversos aspectos, o reimplante do polegar de Cesar. Numa história mais nossa, evoca o canibalismo Tupinambá, mas dessa vez longe da perspectiva modernista ou tropicalista, que, merecidamente, o redimiu. Estamos falando de gente que aceita matar gente, por questões de hábito, ou diversão.  Sob o pretexto de salvar algumas coisas materiais, defende o presidente, sacrificaremos princípios humanitários essenciais para a manutenção da ordem, da paz e de uma vida que vale a pena ser vivida.

Excetuando-se os totalitarismos de esquerda e de direita, o elemento mais precioso em qualquer entendimento contemporâneo que se tenha sobre o Estado é que ele existe para servir ao povo. O acordo social é simples: em troca de ordem e proteção, os cidadãos renunciam ao uso da violência e cedem, na forma de impostos, parte importante de seus recursos econômicos. Os termos são mediados em contratos temporais, evitando que gente anormal ache normal mandar para sempre.

Sobre esse princípio temos a totalidade dos governos comprometidos, de fato, com a democracia. Esmiuçando essa ideia, temos que a proteção não é somente um muro contra dragões ou vizinhos que falam línguas com muitas vogais. É, em última análise, a certeza de que essa renúncia sirva de amparo para dias difíceis. Em geral, esses dias são associados ao desemprego, à velhice e a outros problemas ordinários da vida, como doenças extemporâneas, impossibilidades de manter-se produtivo e outros males do tipo.

Mesmo em governos mais insensíveis socialmente, esse pacto ampara-se em prescrições econômicas, iluministas, elementares, que lhes imputam ao menos três funções protetoras: i) estabilizar o nível de emprego e sua correspondente pressão inflacionária; ii) alocar recursos sociais onde o setor privado não é capaz ou desejoso de fazê-lo, como escolas, investimentos em infraestrutura, por exemplo e; iii) promover meios para que a riqueza produzida não seja acumulada de forma muito injusta, não por bondade, mas por questões associadas à ordem, paz e produtividade. Isso inclui seguridade social, por exemplo.

Hoje, não importa discutir se essas funções são suficientes. Na pior das hipóteses e urgência dos fatos, elas bastam para impedir que tiranetes decidam quem vive e quem morre. É fato que quase todos os brasileiros perderão recursos econômicos com essa crise. É muito provável que milhares morram e outros milhares enterrem seus queridos. Muitos perderão suas rendas. Alguns perderão suas casas, mas a pior perda será a da dignidade.

Mas, então, o que o governo deve fazer agora para cumprir suas funções? A resposta é assustadoramente simples! Ele deve propor um óbvio e ridiculamente singelo pacto social. Se é fato que todos vão perder, que o estado financie essas perdas com os nossos recursos. Se não os tem todos, exerça o direito que só a ele foi dado: emita moeda, emita dívida pública! Todo mundo topará trocar o alto e certo custo à vista por uma moderada e minimizada perda a prazo.

Dá, por exemplo, para cortar parte de todos os salários indiretos dos membros do alto clero do funcionalismo público. Não precisa ser confisco. É por um tempo. Passada a crise, a sociedade topa devolver parcelado, com algum juro. Dá também para contingenciar despesas não essenciais e transferi-las para as famílias que perderam suas rendas. O conjunto da sociedade, que vai perder de qualquer jeito, também preferirá pagar a prazo esse custo. Inflação pela emissão de moeda? Se houver, custará menos do que morrer. Mas, dada a retração econômica generalizada nesse momento, é capaz que nem afete tanto assim os preços. Pense na proposta: perder muito agora, ou um pouco a prazo? Alguém tem dúvidas?

Mas a maior questão não é exatamente a negligência do governo. O pior desses tempos é a suposição filosófica de que, por exemplo, a venda de hambúrguer valha mais do que cinco ou sete mil vidas. Quando aceitamos ideias desse tipo estamos dizendo a nós mesmos que todo esforço para superar os anos de trevas, sangue e ignorância medievais foram perdidos. Estamos em catarse, gritando pelo aceno do polegar de Cesar. Estamos concordando que o lado bom de todo avanço tecnológico que hoje aproxima pessoas, eleva a longevidade e permite-nos preservar nossas comidas em geladeiras foi em vão. Ao compactuar com ideias assim, assumimos que a produção é maior do que a vida, que fabricar a geladeira vale mais do que preservar os alimentos.

E, por lógico, o desfecho desse tipo de visão guarda a possibilidade de escolhermos quem vive e quem morre. A decisão hoje é por covid 19. Amanhã será por não falar inglês, por falar espanhol, por ser negro, por ser lento, por ser baixinho, gordinho, mais inteligente, menos inteligente, diferente de alguma forma aos olhos de quem só consegue ver o que lhe parece igual.

*Sillas de Souza Cezar é professor do curso de Economia da Faculdade Armando Alvares Penteado (Faap)

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