Década perdida? Não para o agronegócio!

Década perdida? Não para o agronegócio!

Ricardo Varrichio e Luis Cláudio dos Reis*

28 de janeiro de 2021 | 05h30

Ricardo Varrichio e Luis Cláudio dos Reis. FOTOS: DIVULGAÇÃO

A última década não deixará saudades para a economia brasileira e tem sido apresentada como perdida em virtude do tímido crescimento econômico do período compreendido entre 2011 e 2020. Embora todos os setores da economia tenham sido fortemente afetados pelo fraco desempenho nesses anos, os dados estatísticos mostram que o setor do Agronegócio se manteve forte frente as dificuldades enfrentadas e se desenvolveu em patamares consideráveis e sustentáveis.

A análise dos dados divulgados da série histórica do PIB brasileiro divulgado no site do Banco Mundial – https://data.worldbank.org/indicator/NY.GDP.MKTP.KD.ZG – nos demonstra, por uma média simples, que o Brasil terá um crescimento médio anual de 0,20% caso seja confirmada a projeção do PIB negativo em 4,30% para o ano de 2020. O desempenho é bastante inferior à média anual do PIB mundial nessa década, o qual deverá ser em torno de 2,11%, considerando a análise pela mesma fonte de dados. Diversos fatores podem ter influenciado o crescimento abaixo do mundial, desde a elaboração de políticas econômicas que não surtiram os efeitos desejados até a dificuldade de implementação de reformas estruturais necessárias, como as aguardadas reformas tributária e administrativa.

Em meio a esse baixo crescimento da economia brasileira, o setor do Agronegócio surpreendeu, mesmo enfrentando crises climáticas, sanitárias, de infraestrutura e inúmeros ataques à imagem relacionados à utilização de defensivos, preservação ambiental, saúde e conforto animal.

Foi nesse contexto adverso que as empresas e os produtores rurais empreenderam e lideraram diversas iniciativas de negócio em busca de redução de custos, melhoria acentuada da eficiência operacional e de estratégias financeiras eficazes para explorar ao máximo as oportunidades decorrentes das elevadas oscilações de câmbio e de preço de mercado.

Ao longo dessa década foram (i) introduzidas tecnologias avançadas trazendo maior produtividade na exploração das atividades agrícola e pastoril, o que permitiu que o país se tornasse um dos grandes protagonistas mundiais na produção de alimentos; (ii) realizados investimentos em infraestrutura para regulação de estoque e escoamento da produção; (iii) introduzidas regras ainda mais rígidas nas práticas de compliance ambiental, bem como avançou-se a passos largos para uma melhor profissionalização. Além disso, elevados investimentos foram realizados na pesquisa, desenvolvimento e na implantação de novos produtos oriundos da industrialização da produção agrícola, o que permitiu maior agregação de valor ao negócio.

O resultado tem se demonstrado muito favorável e se espera um crescimento médio anual na ordem de 3,02%, de acordo com as análises realizadas utilizando os dados do PIB da Agropecuária divulgado pelo IBGE caso confirmadas as projeções para 2020. A análise da série histórica divulgada pelo CEPEA/CNA também indica um crescimento anual médio do Agronegócio na ordem de 1,34%. A diferença reside na metodologia empregada nas avaliações e na inclusão, além da agropecuária, de setores de insumos, agroindústria e distribuição relacionada ao comércio, transporte e demais serviços.

O crescimento desse setor é extraordinário quando comparado com a média brasileira ou mesmo internacional sob a ótica de qualquer metodologia utilizada. Para fins de referência, adotando a mesma análise dos dados divulgados pelo Banco Mundial, temos que o PIB norte-americano terá crescido anualmente em média 1,58%, tendo o Reino Unido e a Alemanha um crescimento anual médio de 0,54% e 0,96%, respectivamente, considerando as estimativas para encerramento do ano de 2020, que foi atingido fortemente pela crise desencadeada pela pandemia decorrente do Covid-19. É de se concluir que numa comparação isolada referente unicamente ao ritmo de crescimento médio anual nos últimos dez anos, o agronegócio brasileiro superou com relativa folga o ritmo de desenvolvimento de países com fortes economias mundiais.

Não há dúvidas de que o desempenho seria ainda maior em tempos melhores com alto desenvolvimento econômico no Brasil, mas as medidas implementadas com responsabilidade e competência tem propiciado recursos para enfrentar os desafios do caminho existente. É por isso que o Agronegócio deve receber ainda mais atenção e maior apoio governamental, pois tem se revelado cada vez mais eficiente e contribuitivo para a economia brasileira.

Temos muito a evoluir em alguns aspectos relevantes tais como a infraestrutura de armazenamento e escoamento da produção e novas fontes de financiamento. Além disso, o país não pode ser apenas o grande celeiro de exportação de produtos primários. Precisa incentivar e criar as condições para que parte importante da produção gerada pelo agronegócio seja aqui industrializada, gerando novos empregos e agregando ainda mais valor aos nossos produtos.

De qualquer forma, por todos esses motivos não se pode dizer que a década foi perdida para o Agronegócio brasileiro. Pelo contrário, as adversidades anteciparam movimentos importantes que alicerçaram o seu desenvolvimento e permitem a projeção de um horizonte próspero.

*Ricardo Varrichio e Luis Cláudio dos Reis, sócios na RVC Advocacia e Consultoria Tributária e Empresarial

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