De vítima a ré: conheça a história de Malu

De vítima a ré: conheça a história de Malu

Emanuela Carvalho*

23 Novembro 2017 | 04h51

Foto: Elias Rosal

É contaminada pela experiência de meses de escuta no Conjunto Penal Feminino de Salvador que me sinto à vontade para afirmar a ideia que trago no título desse artigo. Sim, a mulher encarcerada tem uma história de vida, que grande parte das vezes a leva a cometer atitudes que justificam a sua prisão.

O objetivo desse artigo não é “defender bandido”, como muitos acusarão. Prevejo frases de estímulo irônico, como: “leve para sua casa”, “tomara que matem ou roubem você ou alguém da sua família” – em tempo, já fui assaltada e sequestrada. Mas isso não me amedronta. Digo, as dicas do que fazer em relação às mulheres encarceradas a quem eu quero emprestar a minha voz, elas não me assustam. Ouço todas elas e penso: será que trarão alguma novidade?

Então sejamos honestos. Cabe aqui informar a você que, se não se sente à vontade em ler alguém que tenta traçar um rápido panorama social que justifique a ida de muitas mulheres para a cadeia, se prefere quem apoie a ideia do “bandido bom é bandido morto”, esse texto não será do seu agrado. Recomendo vivamente que suspenda a leitura. Sem dramas, complexo de inferioridade por parte da autora, sem mágoas. Simplesmente, pare.

Mas se você acha que podemos, de alguma forma, dialogar a partir desse texto, aceite o meu convite para algumas breves reflexões.

A minha experiência de escuta, durante alguns meses, no Conjunto Penal Feminino, no Complexo Penitenciário da Mata Escura, em Salvador, me trouxe, além de respostas, muitas perguntas. Primeiro, vale lembrar que o objetivo da escuta foi o de dar voz às mulheres encarceradas e contar as suas histórias no meu novo livro a ser lançado em breve. Segundo, ouvir e ver de perto o que elas vivem, teve o poder de transformar muitos conceitos pessoais.

Quando sentou diante de mim a primeira detenta a ser ouvida, jovem, 20 e poucos anos, não tinha ideia de que ela estava presa por assassinato, ocultação de cadáver, envolvimento com o tráfico, corrupção de menores. Mas o meu objetivo ali era ouvi-la e foi justamente essa história que despertou os meus questionamentos sobre como aquilo tudo poderia ter sido evitado.

O nome dela? Malu*. O envolvimento com o tráfico já era antigo, porque ela começou como “aviãozinho” aos 6 anos, levando drogas dentro da mochila quando ia para a escola.

A vida familiar dessa mulher merece ser rapidamente contada, a fim de que tentemos, não justificar os crimes, porque o objetivo não é esse, mas compreender o contexto, que é fundamental. Malu tinha um irmão envolvido com o tráfico. Sempre que ele chegava em casa, trazia muito dinheiro, e isso a deixava fascinada. Pensava em como o irmão tinha um bom trabalho, já que ganhava tão bem, comprava muitas roupas e sapatos novos, fazia o mercado da família. Os pais, nunca sinalizaram ver aquilo de forma estranha, do contrário, sempre aceitavam o dinheiro trazido por ele, que em meio à pobreza e às dificuldades em que viviam, era uma benção.

A menina esperta começou a observar e descobriu o que o irmão fazia. Era hora de começar a ganhar o próprio dinheiro. Ele não aceitou levá-la para o tráfico, e inicialmente não o fez, mas isso não a impediria. Foi oferecer os seus serviços a outra facção e assim tudo começou. Claro que, com o tempo, o irmão percebeu que ela não iria desistir e preferiu tê-la por perto, sob vigilância. Levou-a para o bando.

Muitos questionamentos surgiram na minha cabeça enquanto Malu contava a sua história, entre eles: como uma criança pode transportar drogas na mochila? Como, aos 6 anos, pode sinalizar o desejo de se envolver com o tráfico a fim de ganhar dinheiro e isso acontecer tão naturalmente? Onde estava a família? Onde estava o Estado? E a escola? Ninguém foi capaz de perceber o que estava acontecendo e tentar evitar? Seria assim, tão difícil?

Malu conta que, desde nova, vivia conflitos com a polícia. Relata situações de violência. Também me questionei sobre o trabalho feito no combate ao tráfico. Por que as estratégias estão mais voltadas a lidar com as consequências do que com as causas? Em toda a história narrada por Malu, não houve sequer uma lembrança de oportunidade para que ela desistisse de se aventurar no tráfico, entendesse que as consequências seriam ruins, e que o futuro poderia ser melhor.

Mas que futuro, afinal?

Oferecemos um discurso de que só a educação salva esse país. Eu, professora de escola pública, conheço de perto a realidade em que Malu viveu. E lamento dizer que ela é só mais uma. Penso que a sociedade responsabiliza a educação, a coloca como salvadora, mas isso é uma ilusão. A educação sozinha não faz nada. O futuro que desejamos a essa criança, que passará, sem reprovações, mais de 15 anos na escola, é uma utopia. O que acontece enquanto isso? O que acontece enquanto ela vai à escola, mas não tem lápis para escrever, o caderno é um luxo, e a barriga está vazia?

Esperar completar o Ensino Médio, procurar emprego, começar a ganhar dinheiro de forma honesta, requer muita paciência. Porque enquanto o seu filho, mediante um grande esforço que você faz, está na escola, com o material escolar completo, bem alimentado, pode escolher entre o inglês, a prática de um esporte, tem acesso ao lazer, a brinquedos, a atendimento médico, a uma cama com roupa limpinha e cheirosa para dormir, há muitas crianças como Malu que não têm esse direito garantido. Eu também me perguntei para que Malu queria dinheiro, aos 6 anos. Quando uma criança precisa de algo, deve pedir e contar com o apoio dos pais, de adultos responsáveis, e não ir em busca, sozinha, de conseguir dinheiro ou trabalho.

Mas preferimos continuar com o discurso: “É preciso educação”. É preciso muito mais! Porque a educação não acontece com a barriga vazia de comida e a vida vazia de amor, de cuidado, de assistência, de saneamento básico, de paz. A educação sozinha não fará o milagre do fim da violência e o do tráfico.

Não garantirá que a sociedade olhe para a pobreza e para a exclusão social como algo muito sério e que envolve a todos, inclusive aos ricos que estão trancafiados por trás dos seus enormes portões do condomínio e aos que mal conseguem sair às ruas sem o medo de serem assaltados, violentados. É injusto que a educação seja a única responsabilizada pelo abismo social retroalimentado no país.

Malu é ré confessa. Está pagando as suas contas com a justiça, afinal está presa. Mas também é vítima. E foi vítima primeiro. Ela não está esquecida e abandonada apenas no cárcere. Já estava antes disso. Já era invisível. Malu é uma daquelas mulheres que podemos chamar de A terceira pessoa depois de ninguém*.

*A terceira pessoa depois de ninguém é o título do novo livro da escritora Emanuela Carvalho, também autora de Antes feliz do que mal acompanhada.

*Malu é um nome fictício, como todos os nomes que fazem parte do livro.

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