De tudo um pouco

De tudo um pouco

José Renato Nalini*

01 de abril de 2021 | 11h30

José Renato Nalini. FOTO: WERTHER SANTANA/ESTADÃO

Tempos de reclusão oportunizam leitura e releitura de livros e fuga ao streaming. Não raro, um livro sugere um filme ou também pode ocorrer o inverso. Ao assistir um documentário sobe Joan Didion, interessei-me por seu livro “Blue Nights”, ou Noites Azuis, que a Harper Collins publicou no Brasil em 2018.

Joan Didion é uma escritora norte-americana muito conceituada. Seus livros “Rastejando até Belém” e “O ano do pensamento mágico” são bestsellers. Ela escreveu “Blue Nights” em homenagem à filha, Quintana Roo, que morreu em 2009.

Noites Azuis são as que parecem surgir logo depois do solstício de verão nos Estados Unidos. Assim que termina abril e começa maio, o verão parece mais próximo, como promessa. A caminhada pelo Central Park é como se fosse um nado no azul. Um azul que vai se tornando mais escuro, até àquela tonalidade dos vitrais da Catedral de Chartres. Inconfundível!

Mas todos sabemos que “blue” também significa “triste”. Joan perdeu o marido e a filha em curto espaço de tempo. Ela invoca reminiscências desde a chegada de Quintana, que ela e o marido, também escritor, John Dunne, adotaram em 3 de março de 1966. O médico amigo, Blake Watson, ligou para o casal: “Tenho uma menininha linda no St. John’s. Preciso saber se vocês a querem!”.

Uma hora depois do telefonema, estava o casal diante da vidraça do berçário na maternidade St. John’s, “olhando para uma recém-nascida com cabelo escuro selvagem e carinha de botão de rosa. Escrito nas pulseiras em seu pulso estava não o seu nome, mas “SI”, sigla para “Sem Informações”, que era a resposta do hospital para quaisquer perguntas que pudessem ser feitas a respeito de um bebê colocado para adoção”.

A criança foi envolvida em imenso amor. Para mostrar que adoção em nada difere da maternidade/paternidade biológica. O importante é o amor. Quem ama uma criança, não distingue se ela tem ou não o mesmo sangue. Afinal, já se comprovou cientificamente, a inexistência de diferença sensível entre o DNA de qualquer humano. Todos somos indivíduos de uma única e mesma espécie.

Joan conta como a menina adotada questionou a adoção muitos anos depois. Suas indagações eram : e se vocês não tivessem atendido o telefone quando o Dr.Watson ligou? E se vocês não estivessem em casa? E se não pudessem ter ido encontrar o dr. Watson no hospital? E se tivesse acontecido um acidente na rodovia? O que teria acontecido comigo então?”.

A coleção de pequenas lembranças sobre a infância, adolescência e quase maturidade de Quintana vai desfilando pelo livro, no relato de mãe que foi submetida à mais incrível e insuportável dor que se possa sofrer: a perda de um filho.

Ela foi super-acalentada. Havia sessenta vestidos de grife para a menina ainda bebê. A mãe era colunista prestigiada de revistas como Vogue. Escrevia nos maiores jornais americanos. Viajou bastante com os pais. Mimada, paparicada, porque Joan tinha necessidade indomável de ser mãe. Conta: “Isso me ocorreu de forma um tanto repentina quando eu tinha vinte e poucos anos e trabalhava na Vogue, uma onda avassaladora. Quando essa onda me atingiu, passei a ver bebês aonde quer que fosse. Seguia seus carrinhos pelas ruas. Recortava fotos de revistas e as colava com fita adesiva na parede ao lado da minha cama. Eu adormecia pensando neles: imaginando que eu os segurava, imaginando a penugem em suas cabeças, imaginando os pontos macios em suas têmporas, imaginando o modo como seus olhos se dilatam quando olhamos para eles”.

A criança cresceu, viajou pelo mundo, hospedou-se nos melhores hotéis, conviveu com celebridades. Casou-se. Mas morreu em 2005. Hoje é uma placa, num banco no Central Park: “Quintana Roo Dunne Michael – 1966-2005-No verão e no inverno”.

Ela morreu em 26 de agosto de 2005, depois de longa permanência em UTIs e várias cirurgias. Ao todo cinco. A mãe indagou se isso era Acenou-se com a sua internação numa unidade de cuidados intermediários. A mãe percebeu, ao longo da agonia, que essa promessa era vã. Ela iria morrer. “Estava sedada e presa a ventiladores. A incisão cirúrgica original jamais cicatrizaria”. A linda menininha que parecia um botão de rosa morreu na UTI do Greenberg Pavilion, no New York Cornell.

O livro não é senão uma declaração de amor de mãe adotiva que amou seu rebento sem nunca lembrar que ele não saíra de seu ventre. Uma lição para quem não consegue adotar, no receio de que não amará o adotado com idêntica ternura à devotada aos filhos biológicos.

Vamos ler mais Joan Didion! Ela nasceu em 1934, está com 86 anos – completará 87 em 5 de dezembro – e é alguém que tem o que dizer.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-202

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