De silêncio e quantidade

De silêncio e quantidade

José Renato Nalini*

22 de agosto de 2021 | 12h00

José Renato Nalini. FOTO: DANIEL TEIXEIRA/ESTADÃO

Há escritores prolíficos: produzem inúmeras obras, todas campeãs de venda. Os americanos inventaram o bestseller para designar tais livros. Há escritores módicos e contidos. Produzem pouco. Mas seus livros também são campeões de leitura.

O livro “On the road” (Na estrada), de Jean-Louis Lebris de Kerouac, mais conhecido por Jack Kerouac, foi um desses livros seminais. É considerado porta-voz da chamada geração beat. No ano que vem, a 12 de março, é a data de celebração de seu centenário de nascimento. Morreu em 21.10.1969, com apenas quarenta e sete anos.

Outros escritores avaros na produção de obras primas são Jerome David Salinger, que todos conhecem por J.D.Salinger (1919-2010), que escreveu “O Apanhador em campo de centeio” e depois preferiu certo recolhimento. Antes dele, Jean-Nicolas Arthur Rimbaud (1854-1891) produziu poesia entre os 15 e os 18 anos e depois foi se aventurar na Abissínia, falecendo aos 37 anos.

Juan Rulfo, escritor mexicano que se tornou famoso por “Pedro Páramo”, escrito em 1955, depois não escreveu mais. Havia publicado em 1953 “Chão em Chamas, conjunto de contos. Chegou a produzir entre 1956 e 1958, “O galo de ouro”, que veio a ser publicado em 1980.

Passou sua vida na burocracia, trabalhando na imigração mexicana. É considerado o maior escritor do México no século 20 e, segundo Álvaro Costa e Silva, esteve quatro vezes no Brasil, sendo leitor e fã de Guimarães Rosa.

Conta-se que durante uma dessas vindas a nossa terra, em casa de Antonio Torres e vestindo um terno de linho branco, alguém derramou uma xícara de café em seu costume imaculado. Não tomou conhecimento e, valendo-se dos trovões que ameaçavam tempestade, elogiou o rugido carioca, dizendo lembrar-lhe os de Jalisco, sua província natal.

Como viajou bastante, representando o México em inúmeros países, estava indefectivelmente sujeito à maldita indagação: – “Por que parou de escrever?”. Fantasioso, a cada vez respondia de forma diferente. Por exemplo: “Eu tinha o voo, mas cortaram minhas asas” ou lamentava a morte do tio Celerino, que o abastecia de causos que transformava em contos.

Adotar o silêncio é também opção de significado. A volúpia do consumismo estimula a publicação de livros como se fossem pastéis ou fornadas de pãezinhos franceses. Os espanhóis falam em “churros” para dar a ideia da produção em massa.

Juan Rulfo começou por economizar no próprio nome. Seu registro indicava alguém chamado Carlos Juan Nepomuceno Perez Rulfo Vizcaino. Cortava também na obra. Costumava alterar textos, retocar palavras, suprimir descrições, incluir expressões populares, trocar a narrativa do modo direto para o indireto, modificar a ordem dos contos.

Lembra Graciliano Ramos (1892-1953), que um dia escreveu: “Deve-se escrever da mesma maneira como as lavadeiras lá de Alagoas fazem seu ofício. Elas começam com uma primeira lavada, molham a roupa suja na beira da lagoa ou do riacho, torcem o pano, molham-no novamente, voltam a torcer. Colocam o anil, ensaboam e torcem uma, duas vezes. Depois enxáguam, dão mais uma molhada, agora jogando a água com a mão. Batem o pano na laje ou na pedra limpa, e dão mais uma torcida e mais outra, torcem até não pingar do pano uma só gota. Somente depois de feito tudo isso é que elas dependuram a roupa lavada na corda ou no varal, para secar. Pois quem se mete a escrever devia fazer a mesma coisa. A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso; a palavra foi feita para dizer”.

Essa lição permanece atual e válida. Principalmente para os desejosos de obtenção de títulos em Pós-graduação em sentido estrito.

Quanta demasia se constata em produções como dissertações e teses, com a facilidade que a informática oferece de se utilizar do ctrlC + ctrlV, no enxerto de longos textos extraídos de outros, substituindo aquilo que deveria ter sido elaborado pelo próprio pós-graduando.

Enfim, lapidar uma peça é sinal de sensatez e de respeito em relação ao leitor. Às vezes o silêncio de alguém que já ofereceu à posteridade um livro notável, é preferível à quantidade de obras nem sempre esmeradas, fruto do afã de superar rankings e de se mostrar campeão na arte e engenho de escrever.

Todavia, cada qual com seu estilo e com seu destino. Se a vocação for prolífica, não se deixe de cultivar o apuro no vernáculo, a lapidação consistente, a outorga da revisão para um terceiro, para que a obra realmente valha a pena.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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