De Platão a Fagner, discurso de Fux foi repleto de referências culturais

De Platão a Fagner, discurso de Fux foi repleto de referências culturais

O novo presidente do STF recorreu à obra de Platão ao defender o combate à corrupção e garantir que não haverá retrocesso sob sua gestão. Luiz Gonzaga e Cora Coralina também foram lembrados

Jussara Soares e Rafael Moraes Moura/ BRASÍLIA

10 de setembro de 2020 | 20h28

O novo presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Luiz Fux. Foto: Marcelo Camargo / Agência Brasil

De Platão ao cantor Fagner, passando pelo rock, Luiz Gonzaga e a poesia de Cora Coralina, o discurso de 36 páginas e 50 minutos do novo presidente do Supremo Tribunal Federal (STF) foi recheado de referências culturais da música e da literatura, mas também teve direito a uma reverência ao jiu-jítsu, esporte que pratica há 40 anos.

O novo presidente do STF recorreu à obra de Platão ao defender o combate à corrupção e garantir que sob sua gestão não haverá retrocesso. Citou o “Mito da Caverna”, um dos textos mais conhecidos do filósofo. “Como no mito da caverna de Platão, a sociedade brasileira não aceita mais o retrocesso à escuridão e, nessa perspectiva, não admitiremos qualquer recuo no enfrentamento da criminalidade organizada, da lavagem de dinheiro e da corrupção”, disse Fux.

O novo presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Luiz Fux. Foto: Marcelo Camargo / Agência Brasil

O Mito da Caverna é o mesmo texto mencionado pelo ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta, ao deixar o governo Bolsonaro. Na ocasião, a menção foi entendida como um recado ao presidente. A alegoria pode ser lida em A República e mostra o diálogo entre Sócrates e Glauco sobre ignorância e conhecimento – sobretudo sobre a importância de se ter acesso a conhecimento para sairmos da caverna (e para queremos ficar fora dela).

Baião. Guitarrista nas horas vagas e ex-integrante de bandas na juventude, o novo presidente do Supremo agradeceu ao rock brasileiro, mas recorreu ao Rei do Baião, o pernambucano Luiz Gonzaga, para mandar seu recado à autoridades presentes, entre elas o presidente Jair Bolsonaro e os presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), e do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP).

“Dirijo-me primeiramente aos órgãos da República, seus membros e instituições essenciais à prestação da justiça, para fazer uma promessa parafraseando o nosso artista popular Luiz Gonzaga, o Rei do Baião: ‘a minha toada é mensageira da paz’”, disse.

Fã de Fagner, o ministro fez questão de convidar o cantor cearense de sucessos como “Deslizes”, “Espumas ao Vento” e “Borbulhas de Amor” para entoar o Hino Nacional na abertura da cerimônia. Depois, o artista também foi citado no discurso.

“O cantor e compositor Fagner que nos brindou com uma versão tão brasileira quanto nordestina do Hino da Nação Brasileiros, numa de suas belas canções, traz uma estrofe na qual cantarola ‘que só acredita no homem que chora e sonha.’ Na plateia, estava o compositor Michael Sullivan, outro convidado especial de Fux.

Autor de sucessos dos anos 80, incluindo canções para Tim Maia, Gal Costa, Roupa Nova e Xuxa, Sullivan é parceiro de composição de uma música de Fux para a filha, a desembargadora Marianna Fux.

“Agradeço ao Rock in Roll brasileiro, que me encantou na juventude e me levou à ousadia de integrar bandas da época, na pessoa de Michael Sullivan, compositor de mais de 1500 músicas, ganhador de vários Gramys latinos e que me deu a honra da parceria da canção ‘Flor Mariana’”, como presente de casamento para a minha filha.”

Fux também citou verso do poeta português Fernando Pessoa (“sonhando sempre eu não tinha sonhado que n’esta vida sonha-se acordado, que n’este mundo a sonhar se vive!”) e da poetisa goiana, Cora Coralina.

“A minha trajetória de vida pública que é, fala por si: sou homem de pontes e não de muros; segui à risca a lição poética da goiana Cora Coralina e ‘fiz a escalada da montanha da vida removendo pedras e plantando flores’ ”, discursou.

O ministro dedicou parte do discurso à família. Citou o psicanalista Luiz Alberto Py ao falar sobre os conselhos de responsabilidade e independência dados pela mãe, a médica Lucy Fux. “Luiz Alberto Py, na sua obra ‘Olhar Acima do Horizonte’, discorre psicanaliticamente que as palavras que uma mãe fala para seus filhos nunca saem de suas mentes”, disse.

Para falar dos filhos, recorreu ao ensaísta libanês Khalil Gibran, ensaísta e poeta. “Agradeço aos meus filhos, a razão maior do meu viver e a melhor parte de mim mesmo, relembrando Khalil Gibran: “Teus filhos não são teus filhos são filhos e filhas da vida.”

O presidente se emocionou ao se referir ao pai, o advogado Mendel Fux. O cerimonial do evento colocou uma fotografia em uma cadeira na primeira fileira da sala de sessão plenária e surpreendeu o ministro, que também tinha levado uma foto para a posse. O local, segundo contou o presidente, sempre foi ocupado pelo pai durante as posses na carreira na magistratura e no magistério.

Fux agradeceu ao pai, imigrante romeno, por tê-lo aconselhado a recusar uma proposta de trabalho no exterior e seguir no Brasil. “(Ele) Pediu que aqui eu permanecesse, para devolver ao Brasil o acolhimento de seu exílio da perseguição nazista e para retribuir a educação gratuita que eu obtivera no meu querido Colégio Dom Pedro II e na Universidade do Estado do Rio de Janeiro”, disse.

Jiu- jítsu. Praticante de jiu-jíttsu há mais de 40 anos, Fux agradeceu à comunidade do esporte, do qual diz ter recebido “lições de coragem, disciplina e saúde”. O presidente de 67 anos, que costuma treinar a luta com seus seguranças, citou o mestre Oswaldo Alves, “um octogenário com a alma espartana de um jovem de 20 anos”, conhecido como “enciclopédia do jiu-jítsu”, e a família Gracie, que introduziu o esporte no País.

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