De consultor sindical a ‘irmão do presidente’, Frei Chico ‘Metralha’ tinha mesada da Odebrecht, dizem delatores

De consultor sindical a ‘irmão do presidente’, Frei Chico ‘Metralha’ tinha mesada da Odebrecht, dizem delatores

Segundo executivos, José Ferreira da Silva tinha posição privilegiada no esquema de propinas da empreiteira e ajudou na mediação de greves no setor petroquímico nos anos 1990

Vitor Tavares e Breno Pires

17 de abril de 2017 | 19h00

Frei Chico, irmão de Lula. Foto: Monalisa Lins/AE - Arquivo/2002

Frei Chico, irmão de Lula. Foto: Monalisa Lins/AE – Arquivo/2002

Irmão do ex-presidente Lula, o sindicalista José Ferreira da Silva, o Frei Chico, tinha posição privilegiada dentro do esquema de repasse de recursos por meio do ‘Departamento da Propina’ da Odebrecht, relataram os executivos Alexandrino Alencar e Hilberto Mascarenhas em suas delações premiadas. Por uma ‘consultoria sindical’ que deu à empreiteira nos anos 1990 e pelo prestígio por ser irmão do então presidente, ele recebia pessoalmente uma espécie de ‘mesada’, entregue trimestralmente, em valores que podiam chegar a R$ 15 mil.

A relação com Frei Chico se deu no momento da aproximação da empreiteira com Lula, então recorrente candidato à Presidência e liderança sindical, por volta de 1995. Nessa época, o setor petroquímico, área de interesse da Odebrecht, estava passando por um processo de privatização. “Estávamos tendo uma dificuldade sindical com os trabalhadores […] Avaliamos que seria oportuno ter algumas pessoas na introdução com sindicatos. E uma das pessoas que identificamos, para aumentar relacionamento, era Frei Chico”, contou Alexandrino em seu depoimento à Procuradoria-Geral da República.

A sugestão de ‘contratar’ Frei Chico teria partido do próprio Lula. O irmão do ex-presidente passou a atuar como um ‘mediador’ em fábricas que enfrentavam greves, especialmente nos Estados do Rio Grande do Sul, Alagoas, Bahia e São Paulo. Os pagamentos no fim dos anos 1990 e início dos anos 2000 ocorria por meio de uma empresa de prestação de serviços, com emissão de notas fiscais.

Com a eleição de Lula em 2002, ‘a fim de preservar o Presidente e a Companhia’ e com o ‘interesse de manter uma boa relação com o então Presidente’, Frei Chico deixou de prestar a consultoria e passou a receber uma mesada, entre 2002 e 2015, quando Alexandrino Alencar foi preso pela Lava Jato.

De acordo com o executivo, a mesada era de R$ 3 mil até 2009. Após um pedido de aumento feito por Frei Chico, o valor passou para R$ 5 mil. As entregas do dinheiro teriam ocorrido pessoalmente em São Paulo, principalmente no Shopping Eldorado, a cada três meses.

Metralha. Nas planilhas fornecidas pelos executivos da Odebrecht, Frei Chico, que tinha o codinome de ‘Metralha’, aparece como beneficiário de repasses de R$ 15 mil, em espaços de três meses.
De acordo com Hilberto Mascarenhas, chefe do “setor de propinas”, o dinheiro para o irmão de Lula, como representava um valor baixo, era entregue a Alexandrino Alencar, que repassava o dinheiro em almoços marcados em São Paulo. Era um dos raros casos em que um executivo da Odebrecht mediava pessoalmente a entrega dos recursos, segundo o delator.

Estágio. Alexandrino Alencar também contou à Procuradoria que Frei Chico, em 2011, pediu um estágio para sua filha, Larissa, em uma empresa do grupo Odebrecht, na área de jornalismo. A jovem foi efetivada pela Braskem – braço petroquímico da empreiteira -, em São Paulo, em 2013, e permanece no quadro de funcionários da empresa.

Lula. Em entrevista dada à rádio Metrópole, de Salvador, na última quinta-feira, 13, Lula rebateu as informações sobre o suposto pagamento de mesada a Frei Chico. “Eu nunca dei um real para meu irmão Frei Chico. Ele é mais velho do que eu, ele que me colocou na política. E agora inventam que a Odebrecht dava R$ 5 mil pra ele por mês? Ora, isso é problema deles. Acusam uma reforma em um sítio que não é meu… O mesmo com o apartamento do Guarujá, que não é meu”, declarou o ex-presidente na ocasião.

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